FUTEBOL

Crise na Fifa gera insegurança sobre futuro de Infantino

Retirada de proposta de abertura da Copa do Mundo ao capital privado traz incertezas para reeleição do presidente

Por Estadao Conteudo Publicado em 02/08/2026 às 13:00
O presidente da FIFA, Gianni Infantino AP/Tony Gutierrez.

A retirada do plano de abertura da Copa do Mundo e outros ativos ao capital privado representaram mais do que uma derrota administrativa para o presidente da Fifa, Gianni Infantino. A desistência motivou críticas até de aliados e transformou uma reeleição que parecia encaminhada no ano que vem em um cenário de incertezas. A crise corroeu sua imagem e capital político e mexe com seus planos para o futuro.

Essa foi a primeira grande derrota de Infantino desde que assumiu o comando da entidade, em 2016. A resistência ao projeto extrapolou a oposição tradicional da Uefa. Dirigentes próximos ao presidente, membros da própria estrutura da Fifa e confederações questionaram a proposta.

As críticas influenciaram os planos de Infantino para o futuro:

COMISSÃO OU CEO NA NOVA EMPRESA

Existem especulações nos bastidores de que a criação da Fifa Forward Enterprise (FFE), empresa que concentra os direitos comerciais da entidade, poderia ser uma transição para que Infantino se tornasse comissário ou CEO da nova estrutura.

Isso faria com que mantivesse a influência sobre a exploração comercial das competições mesmo depois de deixar a presidência. Com a retirada definitiva da proposta, essa possibilidade perdeu força antes mesmo de sair do papel.

SECRETÁRIO-GERAL DA ONU

Nos últimos meses, surgiram rumores de que Infantino poderia buscar uma posição em organismos internacionais, como secretário-geral da ONU, possibilidade sugerida pelo presidente dos EUA, Donald Trump. A proximidade com chefes de Estado e a atuação política durante as últimas Copas alimentaresam essas especulações, embora nunca tenha obtido qualquer confirmação oficial de uma candidatura.

"Não me surpreendeu a notícia a respeito de um eventual interesse dele na secretaria geral das Nações Unidas. As políticas políticas que mantiveram nos Estados Unidos nos últimos anos indicaram que algum outro interesse fora do mundo do futebol poderia ser considerado", afirma o advogado Eduardo Carlezzo, especialista em Direito Desportivo Internacional.

REELEIÇÃO COMO PRESIDENTE DA FIFA

Até a última semana, o terceiro cenário, o mais provável, era o de uma nova eleição sem sobressaltos. Depois de ampliar a Copa do Mundo para 48 escolhidos, aumentar as receitas da Fifa e consolidar uma ampla base de apoio entre as federações nacionais, o suíço caminhou para disputar um quarto e último mandato, válido até 2031, praticamente sem oposição.

As críticas ao projeto FFE são um divisor de águas na avaliação do advogado especialista em Direito Desportivo Andrei Kampff. "A contestação deixou de vir apenas de adversários externos e passou a alcançar federações, confederações e aliados próximos. Isso afeta não apenas o projeto, mas a própria forma como sua liderança é percebida."

O diagnóstico é semelhante ao de Carlezzo. “Tal apoio pode ter ido pelos ares e a Uefa avançará um plano para substituição do Infantino, seja agora, seja criando um adversário forte na eleição do ano que vem.”

CRÍTICAS IMEDIATAS

A ocorrência da Uefa foi mesmo imediata. Poucas horas depois de o presidente anunciar o abandono definitivo do projeto, uma entidade que administra o futebol europeu colocou em dúvida a condução política da organização.

"Não podemos continuar assim com planos secretos em prazos acelerados, modificados por indivíduos sem rosto e de benefício duvidoso para o jogo. Devemos identificar os responsáveis ​​e responsabilizá-los", afirmou a entidade.

Kampff também entende que, mesmo que Infantino sobreviva politicamente, dificilmente conseguirá sair dele. “Infantino retirou o projeto, mas o desgaste permanece, porque a crise revelou problemas na forma de decidir, consultar e exercer o poder dentro da Fifa”.

AUMENTA A PRESSÃO POR MUDANÇA

A persistência do discurso da entidade europeia coincidiu com as informações do jornal britânico The Telegraph no sábado. Segundo a reportagem, os dirigentes europeus discutem um movimento para forçar a saída de Infantino da presidência, caso ele decida permanecer no cargo.

De acordo com o periódico, as 55 federações filiadas à Uefa estariam interessadas em apoiar um processo de destituição. Para que a votação seja convocada, serão necessários votos completos de 43 associações nacionais.

Ainda não existe qualquer procedimento formal aberto, mas a discussão das hipóteses já representa uma mudança de cenário. O Estadão apurou que não existe uma espécie de movimento de censura no estatuto da Fifa.

Até hoje, a oposição europeia costumava barrar uma ampla base política construída por Infantino entre federações da Ásia, África, Concacaf e Oceania.

ISOLAMENTO POLÍTICO E ECOS DE 2021

A crise começou com a proposta da Fifa de criar a Fifa Forward Enterprise (FFE), empresa que administraria os direitos comerciais das principais competições da entidade, incluindo a Copa do Mundo.

O plano prévio a entrada de investidores privados em troca de uma injeção bilionária de recursos para financiar projetos da própria FIFA e ampliar os repasses às federações.

A iniciativa encontrou forte resistência. A Uefa acusou a Fifa de tentar "vender a alma do futebol" e aprovou a possibilidade de boicotar competições caso a proposta avançasse. Depois vieram a Concacaf e a Confederação Asiática de Futebol (AFC), que também manifestaram oposição ao plano.

Sem o apoio dessas três confederações, Infantino deixou de reunir a maioria política necessária entre as 211 associações filiadas à Fifa para levar adiante a iniciativa.

Para Eduardo Carlezzo, a rapidez com que o projeto desmoronou lembra outro episódio recente do futebol internacional: o anúncio da criação da Superliga pelos maiores clubes da Europa em 2021.

Segundo ele, a dinâmica política foi semelhante. "No caso da Superliga, a UEFA, ligas nacionais e ofertas de clubes europeus condenaram fortemente o projeto, o que acabou sendo derrubado em apenas 48 horas. Foi um fiasco retumbante."