Fifa mantém plano de 'privatização' apesar de oposição; assessor de Infantino renuncia
Carlos Cordeiro deixou o cargo em protesto contra projeto
A Fifa afirmou nesta sexta-feira (31) que dará continuidade ao processo de consulta sobre seu plano de criar uma empresa com investidores privados para administrar os torneios organizados pela entidade máxima do futebol mundial, apesar da crescente oposição.
Em comunicado, a entidade máxima do futebol declarou que o processo seguirá de forma "aberta e democrática", argumentando que a discussão foi prejudicada por "notícias incorretas na imprensa".
Segundo a Fifa, a intenção é garantir que todas as partes interessadas possam se manifestar com base em informações precisas antes de qualquer decisão.
O plano de Gianni Infantino, prevê a criação de uma empresa privada, a Fifa Forward Enterprise (FFE), para cuidar das operações comerciais e das competições organizadas pela federação.
Essa companhia teria valor de mercado estimado em US$ 20 bilhões (R$ 102 bilhões), e a Fifa venderia para investidores uma fatia de US$ 4,2 bilhões (R$ 21,5 bilhões) em ações. Esse grupo de acionistas seria liderado por Joshua Kushner, fundador da gestora de recursos Thrive Capital e irmão de Jared Kushner, genro de Trump, com quem Infantino mantém boas relações.
No entanto, o projeto foi alvo de críticas por parte da União Europeia, da Uefa, que anunciou o boicote a todas as competições da Fifa, incluindo a Copa do Mundo, enquanto o plano não for retirado, da Concacaf e da Confederação Asiática de Futebol (AFC).
Em nota, a AFC afirmou que compartilha das preocupações levantadas pelas demais confederações e alertou para os riscos que a iniciativa representa para o futuro do futebol mundial.
A entidade destacou ainda que o fato de a possibilidade de um boicote à Copa do Mundo ter entrado no debate público deve servir de alerta para toda a comunidade do futebol. Atualmente, a AFC reúne 47 associações nacionais, entre elas Austrália, China, Japão e Arábia Saudita.
A pressão sobre a Fifa também provocou mudanças internas. Carlos Cordeiro, principal conselheiro de Infantino, anunciou sua renúncia ao cargo. Ex-presidente da Federação de Futebol dos Estados Unidos e ex-banqueiro do Goldman Sachs, Cordeiro afirmou que não participou da elaboração da proposta e declarou oposição total ao projeto.
Em publicação no LinkedIn, o dirigente classificou a iniciativa como "ruim para as associações-membro da Fifa, ruim para o futebol e ruim para o futuro a longo prazo do esporte".
No campo político, o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, voltou a atacar duramente o presidente da Fifa, classificando o Infantino como "a pessoa errada" para comandar a entidade.
Além disso, definiu como "absurdo" o plano de abrir espaço para investidores privados na principal competição do futebol mundial.
Segundo o premiê britânico, "a Copa do Mundo não é um produto" e não deve ser tratada como um ativo comercial. Para ele, a competição pertence aos torcedores e não a investidores financeiros.
Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump afirmou que não foi consultado por Infantino sobre a proposta. Questionado por jornalistas, respondeu apenas "não" ao ser perguntado se o dirigente da Fifa havia discutido o projeto com ele.