ARQUEOLOGIA

Ossos de camelo em Belgrado indicam comércio medieval nos Bálcãs

Vestígios achados na Fortaleza de Belgrado ajudam pesquisadores a reconstruir práticas de criação, consumo e circulação de animais ao longo dos séculos

Por Sputnik Brasil Publicado em 25/06/2026 às 11:38
Fortaleza de Kalemegdan, em Belgrado, vista a partir do rio Danúbio. CC BY-SA 4.0 / Ivanbuki / DSC 375-12

Restos de animais encontrados na Fortaleza de Belgrado, na Sérvia, vêm sendo usados por pesquisadores para reconstituir práticas de criação, comércio e consumo animal, segundo a revista Archaeology News.

A publicação aponta que o estudo apresenta a primeira análise zooarqueológica dos vestígios localizados na fortaleza. Entre os achados estão ossos de camelo, considerados a evidência física mais antiga de camelos medievais identificada nas regiões central e ocidental dos Bálcãs.

A matéria detalha que a Fortaleza de Belgrado fica no ponto de encontro dos rios Sava e Danúbio. Por mais de 2 mil anos, o local funcionou como fortaleza militar, centro comercial e núcleo político. No período romano, a cidade de Singidunum abrigava a Legio IV Flavia Felix, responsável pela guarda de parte da fronteira do Danúbio.

De acordo com a publicação, escavações feitas nas proximidades do Portão Leste revelaram 271 ossos de animais. A datação por radiocarbono indicou que os vestígios pertenciam ao período romano, entre 20 e 250 d.C., ou ao período medieval tardio, entre 1410 e 1650 d.C.

No conjunto romano, predominavam ossos de ovelhas e cabras, que representavam 38,3% do material, além de bovinos, com 33,3%, e suínos, com 23,4%. Muitos animais foram abatidos ainda jovens, o que indica que a produção de carne era o foco principal.

Nos depósitos posteriores, a maior parte dos vestígios era de ovelhas e cabras, com 76,9%. Havia menos bovinos, 11,1%, nenhum osso de suíno e, em geral, mais animais adultos. Segundo o artigo, esse perfil sugere uma mudança de foco para o leite, o transporte e o trabalho, possivelmente relacionada às normas alimentares sob o domínio otomano.

A análise de proteínas identificou vários ossos de camelo como pertencentes a um animal híbrido, e não a um dromedário puro ou a um camelo-bactriano. Para os pesquisadores, esses vestígios fornecem evidências diretas de comércio de longa distância e de vínculos militares que levaram animais não nativos aos Bálcãs.

Os resultados também apontam limitações da identificação osteológica tradicional, sugerindo que camelos híbridos podem ter sido subestimados em coleções anteriores. A reportagem conclui que as descobertas indicam uma mudança na economia animal e nas conexões da fortaleza ao longo dos séculos.