EXPLORAÇÃO ESPACIAL

Pesquisadores encontram níquel em Marte e reforçam pistas de ambiente potencialmente habitável

Achado em antiga região alagada indica que planeta vermelho pode ter reunido condições favoráveis à vida microbiana.

Publicado em 01/04/2026 às 06:45
Rover Perseverance explora região marciana onde foram detectadas altas concentrações de níquel. © Foto / NASA/JPL-Caltech

A identificação de grandes concentrações de níquel em uma região anteriormente alagada de Marte reforça a hipótese de que o planeta pode ter oferecido condições propícias à vida no passado. A descoberta foi feita em Neretva Vallis, antigo canal que abastecia o delta da Cratera Jezero, atualmente explorada pelo rover Perseverance.

Pesquisadores detectaram níveis inéditos de níquel no leito rochoso marciano, fornecendo novas pistas sobre a evolução química da área.

Em entrevista à Science Alert, o cientista planetário Henry Manelski, da Universidade Purdue, destacou que se trata da mais forte detecção do metal já registrada em Marte, excetuando meteoritos de ferro-níquel encontrados na superfície.

O níquel é geralmente escasso na crosta de planetas rochosos, pois tende a migrar para o núcleo durante a formação planetária. Por isso, sua presença significativa na superfície marciana levanta questões sobre a origem e transformação dessas rochas ao longo do tempo.

A análise foi motivada por rochas incomuns coletadas pelo rover Perseverance em 2024, incluindo uma formação apelidada de "Anjo Brilhante" — que apresentou minerais associados à atividade microbiana na Terra, como sulfetos de ferro semelhantes à pirita, além de compostos orgânicos.

Após examinar 126 rochas sedimentares e oito superfícies rochosas, os cientistas identificaram 32 amostras com até 1,1% de níquel em peso. A presença do metal em sulfetos de ferro é especialmente relevante, pois, na Terra, esse tipo de mineral é típico de ambientes antigos pobres em oxigênio — semelhantes aos que abrigaram microrganismos primitivos.

As evidências sugerem que a água desempenhou papel central na redistribuição do níquel, possivelmente dissolvendo material trazido por meteoritos e transportando-o pelos sedimentos. Como o níquel é essencial para muitos microrganismos terrestres, sua disponibilidade em Marte antigo levanta a possibilidade de que ele pudesse ter sustentado formas de vida microbiana.

Além do níquel, as rochas continham compostos orgânicos — moléculas à base de carbono que, embora possam ser formadas por processos não biológicos, são fundamentais para a vida como conhecemos. A combinação de níquel biodisponível, enxofre reduzido e carbono orgânico reforça a hipótese de um ambiente habitável na Cratera Jezero há bilhões de anos.

As descobertas também sugerem que condições favoráveis à vida podem ter persistido por mais tempo do que se imaginava. Se as rochas de Neretva Vallis forem mais jovens que outras da região, isso indica que ambientes potencialmente habitáveis não se restringiram ao período mais remoto da história marciana, ampliando o horizonte da busca por bioassinaturas no planeta.

Por Sputinik Brasil