ASTRONOMIA

Gigantes gasosos distantes revelam sinais que desafiam modelos clássicos de formação planetária

Publicado em 02/03/2026 às 06:33
© Foto / ESO/L. Calçada

Gigantes gasosos muito mais massivos que Júpiter, orbitando a enormes distâncias de sua estrela no sistema HR 8799, estão desafiando os modelos clássicos de formação planetária, enquanto novas observações do JWST revelam pistas químicas que podem reescrever o entendimento sobre como mundos tão extremos surgem em regiões tão remotas.

Um novo estudo analisou três colossos gasosos no sistema HR 8799, a cerca de 130 anos‑luz da Terra, para investigar como mundos tão massivos podem surgir em regiões tão distantes.

HR 8799 abriga quatro planetas gigantes, cada um com entre cinco e dez vezes a massa de Júpiter. Usando o instrumento NIRSpec do Telescópio Espacial James Webb (JWST, na sigla em inglês), os pesquisadores examinaram a composição atmosférica dos três planetas mais internos, observando comprimentos de onda entre três e cinco micrômetros para identificar moléculas que revelassem pistas sobre sua origem.

Os três planetas internos que orbitam a estrela HR 8799 foram capturados pelo JWST em 2023. A análise espectral detectou sulfeto de hidrogênio na atmosfera de HR 8799c, indicando que o planeta massivo se formou por acreção de núcleo
Os três planetas internos que orbitam a estrela HR 8799 foram capturados pelo JWST em 2023. A análise espectral detectou sulfeto de hidrogênio na atmosfera de HR 8799c, indicando que o planeta massivo se formou por acreção de núcleo

A comparação entre gigantes gasosos e anãs marrons é central nesse debate. Embora possam atingir massas semelhantes, acredita‑se que anãs marrons se formem como estrelas, por colapso gravitacional, enquanto planetas surgem pela acreção de núcleo — um processo lento de aglomeração de sólidos em discos protoplanetários. A dúvida é se esse mecanismo funciona em distâncias tão grandes quanto as de HR 8799, que variam de 15 a 70 unidades astronômicas.

Impressão artística de uma estrela jovem ainda cercada por um disco protoplanetário no qual os planetas estão se formando
Impressão artística de uma estrela jovem ainda cercada por um disco protoplanetário no qual os planetas estão se formando

Acreção tão longe da estrela deveria ser lenta demais para formar planetas tão massivos antes que o disco se dissipasse, o que levou alguns especialistas a sugerir que esses mundos poderiam ter se formado por colapso gravitacional. Para testar essa hipótese, os cientistas buscaram enxofre nas atmosferas dos planetas — um elemento que, se presente, indicaria a incorporação de material sólido durante a formação.

Os dados do JWST revelaram fortes sinais de sulfeto de hidrogênio em HR 8799 c e d, além de um enriquecimento consistente de enxofre nos três planetas internos. Para os autores, isso sugere que esses gigantes se formaram de maneira semelhante a Júpiter, apesar de serem muito mais massivos e orbitarem muito mais longe de sua estrela, algo que surpreendeu os astrônomos.

A equipe conseguiu detectar diversas moléculas, algumas pela primeira vez, graças à sensibilidade do telescópio e a modelos atmosféricos complexos que permitiram separar o fraco sinal planetário do brilho estelar. Os planetas também se mostraram enriquecidos em elementos pesados como carbono, oxigênio e enxofre, indicando que grandes quantidades de sólidos foram incorporadas durante sua formação.

Esse nível de enriquecimento desafia modelos clássicos, que não preveem tamanha eficiência na formação de planetas tão grandes e distantes. Os pesquisadores afirmam que será necessário estudar outros sistemas para entender se HR 8799 é uma exceção ou parte de um padrão mais amplo — por enquanto, o processo que originou esses gigantes permanece um enigma.


Por Sputinik Brasil