MORTE NA RODOVIA

Caso JK: Ivan Barros, o repórter alagoano que viu o crime que a Ditadura nunca explicou

Por Redação Publicado em 15/05/2026 às 08:29
Jornalista alagoano Ivan Barros, então repórter da revista Manchete, esteve entre os primeiros a chegar ao local da tragédia na Via Dutra e sustentou, em depoimentos, que a morte de Juscelino Kubitschek não foi mero acidente

Quase meio século depois da morte de Juscelino Kubitschek, a história oficial do chamado “acidente” na Via Dutra volta a ser colocada em xeque. Um novo relatório da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos aponta que o ex-presidente não teria morrido em uma fatalidade automobilística, como sustentou a versão oficial do regime militar, mas em consequência de um atentado político. O documento, elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão, ainda será votado pelo colegiado da comissão.


JK morreu em 22 de agosto de 1976, na Rodovia Presidente Dutra, nas proximidades de Resende, no Rio de Janeiro. Segundo a versão oficial da época, o Opala em que ele viajava, conduzido pelo motorista Geraldo Ribeiro, teria se envolvido em uma colisão leve com um ônibus, perdido o controle, atravessado o canteiro central e batido de frente com uma carreta. JK e Geraldo morreram na hora.


A nova conclusão reacende um dos maiores enigmas políticos da ditadura militar brasileira. O relatório da CEMDP retoma elementos já levantados por outras investigações, como contradições em laudos antigos, dúvidas sobre a dinâmica do acidente, suspeitas de interferência na cena da tragédia e o contexto político da época, quando JK ainda era visto como uma liderança nacional capaz de articular a redemocratização do país.


Nesse conjunto de relatos e evidências, um depoimento alagoano ganha destaque histórico: o do jornalista, escritor e promotor de Justiça aposentado Ivan Barros. Na época, Ivan trabalhava como repórter da revista Manchete, no Rio de Janeiro, e foi um dos primeiros jornalistas a chegar ao local da tragédia.


Em relato publicado pela Tribuna do Sertão em 2013, Ivan Barros relembrou que estava de plantão na redação da Manchete quando ouviu a notícia da morte de JK. De imediato, seguiu para a Via Dutra acompanhado dos fotógrafos Gervásio Batista e João Silva. Segundo ele, ao chegar ao local, encontrou um cenário de pressa, tensão e alteração da cena antes da perícia.


Ivan afirmou que viu guardas mudando a posição dos veículos envolvidos e questionou a providência. “Estão alterando o cenário do crime e isto vai prejudicar a perícia”, disse ele na ocasião, segundo o relato. Ainda de acordo com Ivan, um policial teria respondido, sob reserva, que havia recebido “ordens superiores”.


O depoimento do jornalista alagoano é relevante porque dialoga diretamente com uma das questões centrais levantadas pelas novas apurações: a preservação da cena da tragédia. Reportagem recente da DW Brasil registra que, segundo Ivan Barros, militares assumiram o controle da situação e usaram um guincho para levantar os escombros do veículo antes mesmo da chegada da perícia. A reportagem também aponta que o Opala foi posteriormente desmantelado, o que dificultou revisões posteriores do caso.


Em seu relato, Ivan Barros também disse ter sido um dos poucos a ver o corpo de Juscelino Kubitschek. Para ele, a pressa em alterar a cena e a ausência de cuidados periciais reforçavam a convicção de que não se tratava de um simples acidente. “Sem dúvidas, para mim, estaria concretizado um crime doloso e não culposo”, afirmou.


A suspeita de atentado não é nova. Em 2013, a Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, da Câmara Municipal de São Paulo, já havia concluído que JK teria sido vítima de uma conspiração política. O relatório municipal apontou 114 circunstâncias, evidências, indícios e testemunhos para sustentar que a versão de acidente de trânsito não se mantinha.


A própria Comissão Municipal da Verdade declarou, naquele relatório, que não havia sustentação para a tese de acidente e que JK teria perdido a vida em consequência de “conspiração, complô e atentado político” praticado por agentes da ditadura militar, que temiam sua possível candidatura à Presidência da República em 1978.


A Comissão Nacional da Verdade, em 2014, havia seguido outra direção e mantido a tese de acidente. Agora, o novo relatório da CEMDP volta a fortalecer a linha de investigação que considera a morte de JK parte do contexto de perseguição política da ditadura, especialmente diante de sua popularidade e de sua articulação em torno da Frente Ampla.


Caso o novo entendimento seja aprovado pelo colegiado, o Estado brasileiro poderá alterar a forma como reconhece oficialmente as mortes de Juscelino Kubitschek e de Geraldo Ribeiro. A própria CEMDP é o órgão de Estado criado para reconhecer mortes e desaparecimentos decorrentes da repressão política e emitir pareceres relacionados à reparação dos familiares.


Para Alagoas, o caso tem uma dimensão especial. Ivan Barros não foi apenas um observador distante da história. Foi testemunha direta de um dos episódios mais nebulosos do Brasil contemporâneo. Como jornalista da Manchete, viu a cena, acompanhou os primeiros momentos após a tragédia e registrou dúvidas que atravessaram décadas.


Agora, com o relatório prestes a ser analisado pela Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, o testemunho do alagoano ganha novo peso. O que durante anos foi tratado como suspeita, memória pessoal ou versão alternativa passa a integrar um conjunto mais amplo de elementos que desafiam a narrativa oficial construída durante a ditadura.


A história que Ivan Barros contou desde o local da tragédia pode, finalmente, deixar de ser apenas uma lembrança incômoda de repórter. Pode entrar para a história como parte essencial da revisão de um dos maiores mistérios políticos do país.