SAÚDE PÚBLICA

Braskem, Hospital da Cidade e o que Maceió poderia ter construído

R$ 266 milhões em um hospital: investimento necessário ou oportunidade perdida?

Por João Mendonça Publicado em 27/08/2026 às 19:54
Hospital da Cidade custou 6 vezes mais do que uma hospital de igual porte, segundo o senador Omar Aziz em declaração de CPI

O Hospital da Cidade voltou ao centro do debate após declarações do prefeito JHC sobre a saúde pública em Maceió. Em 2023, a Prefeitura comprou o antigo Hospital do Coração por R$ 266 milhões, utilizando recursos do acordo firmado com a Braskem. A unidade se tornou o primeiro hospital municipal da capital.

O feito é relevante, mas uma comparação ajuda a dimensionar a operação: o que Alagoas poderia construir com R$ 266 milhões se aplicasse o mesmo padrão de custo de outras obras hospitalares públicas?

Pelos valores de hospitais construídos pelo Governo de Alagoas, o montante seria suficiente para erguer quase nove Hospitais da Mulher ou cerca de três Hospitais Metropolitanos. Na conta apresentada pelo Estado, daria para construir o Hospital Metropolitano, o Hospital do Coração Alagoano e o Hemoal, com cerca de R$ 80 milhões restantes — praticamente o valor de outro Hospital Metropolitano com 180 leitos.

A diferença aparece ainda mais claramente no custo por leito. Considerando os 160 e poucos leitos do Hospital da Cidade, o investimento chega a aproximadamente R$ 1,66 milhão por leito. No Hospital da Mulher, o custo foi de cerca de R$ 242 mil por leito.

Há, naturalmente, uma diferença importante: Maceió comprou um hospital pronto, enquanto a construção de uma nova unidade pode levar de três a seis anos. A comparação, portanto, não significa que as duas alternativas tenham exatamente o mesmo valor operacional.

Também é preciso separar o que realmente foi criado pelo município daquilo que já existia na rede estadual. O Hospital da Cidade é, de fato, o primeiro hospital municipal de Maceió. Mas não é o maior hospital público de Alagoas. O HGE possui 357 leitos, segundo levantamento de junho de 2026, enquanto o HC tem pouco mais de 160. A própria Secretaria Estadual de Saúde classifica o HGE como o maior hospital público do Estado, dedicado integralmente ao SUS.

O mesmo vale para a afirmação de que Maceió não tinha maternidade. O Hospital da Mulher Dra. Nise da Silveira foi inaugurado em setembro de 2019, dois anos antes de JHC assumir a Prefeitura. A unidade conta com 118 leitos, centro de parto normal e estrutura neonatal. Em quatro anos, registrou dezenas de milhares de atendimentos e mais de 11 mil partos.

A diferença é que se tratava de uma maternidade estadual, e não municipal.

Por isso, a discussão sobre a saúde de Maceió não se resume ao que foi inaugurado pela Prefeitura. Há também o desempenho da própria rede municipal. Em fevereiro de 2025, a Câmara de Maceió promoveu audiência pública para discutir a crise na regulação de leitos, com relatos de pacientes aguardando transferência por longos períodos. Em abril de 2026, Ministério Público Estadual, Ministério Público Federal e Defensoria Pública da União cobraram do município um plano de ação para enfrentar o problema.

É nesse contexto que ganha peso o discurso político. Ao afirmar que a saúde está “agonizando” e que existe “caos”, JHC acaba direcionando a crítica para a rede estadual, administrada por Paulo Dantas e pelo grupo ligado a Renan Filho — justamente o grupo que pretende enfrentar na eleição para o governo em 2026.

A comparação histórica torna o embate ainda mais político.

Durante o governo de Teo Vilela, entre 2007 e 2014, Alagoas registrou, segundo dados oficiais citados no debate, um dos piores indicadores de mortalidade infantil do país, com 46,4 mortes por mil nascidos vivos no período de referência. O mesmo governo também deixou UPAs construídas, mas sem funcionamento imediato. Unidades como as do Trapiche, Benedito Bentes, Maragogi e São Miguel dos Campos só passaram a operar posteriormente, já na gestão de Renan Filho.

Depois disso, a rede hospitalar estadual passou por forte expansão: de seis para 14 unidades, segundo os dados apresentados pelo governo. Renan Filho entregou novos hospitais e ampliou a presença da rede no interior, com unidades como os hospitais Regionais da Mata, do Norte e do Alto Sertão. Já na gestão de Paulo Dantas, foram registrados R$ 3,3 bilhões em investimentos em saúde e assistência social em 2024, além de novos repasses federais, transplantes realizados pelo SUS estadual e ambulâncias entregues ao Samu.

Assim, existe uma ironia na disputa: o período que JHC classifica como caos é também aquele marcado pela maior expansão da rede hospitalar estadual, enquanto seu principal aliado político, Teo Vilela, carrega um histórico bem mais controverso na área da saúde.

No caso do Hospital da Cidade, portanto, a pergunta não é apenas se Maceió precisava de um hospital municipal. Precisava. A questão é quanto custou essa escolha e o que poderia ter sido construído com os mesmos R$ 266 milhões.

O Ministério Público pediu autorização para investigar a aquisição, enquanto o Tribunal de Contas arquivou uma denúncia apresentada por vereadores por falta de elementos que comprovassem sobrepreço, mas determinou auditoria da documentação e dos procedimentos da compra.

No fim, a discussão é menos sobre a existência do Hospital da Cidade e mais sobre a relação entre custo, capacidade e prioridade de investimento. Maceió ganhou seu primeiro hospital municipal. Resta saber se, pelo valor pago, poderia ter ganhado muito mais.