Heloísa Helena relembra infância em Palmeira dos Índios e conta que “Vidas Secas” foi seu primeiro livro
Em vídeo ao lado do professor Renato Pellizzari, ex-senadora recorda o incentivo da mãe, que não sabia ler nem escrever, o fascínio pelo cheiro dos livros e a influência de Graciliano Ramos; educador também revela como “O Menino Maluquinho”, de Ziraldo, marcou sua infância
Uma conversa sobre livros e educação levou a ex-senadora alagoana Heloísa Helena de volta às memórias da infância vivida em Palmeira dos Índios. Em vídeo publicado nas redes sociais ao lado do professor de História Renato Pellizzari, o Pelli, ela revelou uma passagem afetiva de sua vida e contou que “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, foi sua primeira leitura.
Candidata novamente a deputada federal pelo Rio de Janeiro, Heloísa aparece no vídeo conversando com Pellizzari sobre a importância dos livros na formação das crianças e sobre o papel da educação na transformação da vida das pessoas.
A lembrança mais marcante relatada pela alagoana começa dentro de casa. Heloísa contou que sua mãe era muito pobre e não sabia ler nem escrever, mas, ainda assim, fazia questão de incentivar os filhos a terem contato com os livros.
“Minha mãe era muito pobre, mas insistia em comprar livro mesmo quando ela não sabia ler e escrever”, recordou.
A memória seguinte é quase uma cena literária. Heloísa contou que, quando criança, acompanhava a mãe durante o período do Natal à casa onde ela trabalhava com costura. Enquanto permanecia em um pequeno corredor, observava à distância os livros existentes na residência.
Segundo ela, apenas aquela visão despertava curiosidade e encantamento.
“Eu ficava de um corredorzinho olhando os livros lá na frente e sentia até o cheiro dos livros”, relembrou.
Palmeira dos Índios e Graciliano Ramos
A história ganha um significado especial quando Heloísa Helena associa sua iniciação na literatura à infância passada em Palmeira dos Índios.
Embora tenha nascido em Pão de Açúcar, no Sertão de Alagoas, Heloísa passou parte da infância e adolescência em Palmeira dos Índios, cidade que guarda uma profunda ligação com a literatura brasileira por ter sido também a terra onde Graciliano Ramos viveu, foi prefeito e iniciou parte importante de sua trajetória intelectual e política.
No vídeo, Heloísa lembra ainda a presença dos povos indígenas Xukuru-Kariri, elemento fundamental da história e da identidade cultural de Palmeira dos Índios.
Foi justamente uma obra de Graciliano Ramos que, segundo ela, abriu as portas do universo literário.
“Minha primeira leitura na vida foi justamente ‘Vidas Secas’”, contou.
Publicado originalmente em 1938, o romance acompanha a trajetória de uma família de retirantes sertanejos e tornou-se uma das obras mais importantes da literatura brasileira.
Ao recordar o livro, Heloísa faz uma referência bem-humorada e ao mesmo tempo política à personagem Baleia, a cadela da família de Fabiano e Sinhá Vitória e uma das figuras mais conhecidas da obra de Graciliano.
“Eu acho que é por isso que, tal qual Baleia, eu tenho esses sentimentos revolucionários”, brincou.
A declaração reúne, em poucos segundos, três elementos presentes na trajetória pessoal de Heloísa Helena: Alagoas, literatura e política.
Pellizzari relembra Ziraldo
A conversa prossegue com Renato Pellizzari, professor de História com mais de duas décadas dedicadas à educação.
Depois de ouvir a lembrança de Heloísa sobre “Vidas Secas”, Pellizzari também buscou na memória o livro que marcou sua infância.
No caso dele, a obra foi “O Menino Maluquinho”, clássico infantil de Ziraldo.
Pellizzari contou que teve no irmão, um leitor assíduo, um importante incentivador para entrar no mundo dos livros. Foi ainda criança que conseguiu ler sozinho a história do garoto irreverente criado por Ziraldo.
“Meu irmão, que era leitor, muito me incentivava. E quando eu era criança, o primeiro livro que eu li sozinho, que eu me lembro, era um livro do querido Ziraldo chamado ‘Menino Maluquinho’”, relatou.
O professor explicou que a identificação com o personagem aconteceu inicialmente pelo comportamento típico da infância: travessuras, brincadeiras e muita energia.
Mas foi o desfecho da obra que permaneceu como ensinamento para sua vida adulta.
Para Pellizzari, a constatação de que aquele “menino maluquinho” era, acima de tudo, um menino feliz, acabou funcionando como uma espécie de orientação pessoal e profissional.
A partir dessa lembrança, ele relacionou literatura, felicidade e educação.
Educação para além da sala de aula
No diálogo, Pellizzari também defende que garantir educação a uma criança exige muito mais do que simplesmente assegurar sua matrícula e presença física na escola.
Segundo ele, é necessário oferecer condições para que a criança tenha sua dignidade, integridade física e equilíbrio emocional preservados para que possa efetivamente aprender e se desenvolver.
“A escola, para mim, tem um lugar central nisso tudo, mas tem muita coisa que ela precisa ter para que essa escola seja possível”, afirmou.
A conversa entre os dois transforma, assim, lembranças aparentemente simples da infância em uma reflexão sobre o poder transformador dos livros.
De um lado, Heloísa Helena, menina que observava livros de um corredor enquanto acompanhava a mãe costureira e que encontrou em Graciliano Ramos sua primeira grande leitura.
Do outro, Renato Pellizzari, menino travesso que descobriu em Ziraldo que a felicidade também poderia caber dentro de um livro.
Décadas depois, as duas histórias se encontram em torno da mesma ideia: o acesso à leitura e à educação pode marcar uma criança para o resto da vida.
Para Heloísa, essa história começou também em Palmeira dos Índios — terra de Graciliano Ramos, dos Xukuru-Kariri e cenário das lembranças de uma menina que, antes mesmo de possuir muitos livros, já havia aprendido a desejá-los.