REGGAE, FIPI E POLÍTICA

Edson Gomes nem chegou e Palmeira já dança: sucessos viram “trilha eleitoral” de Júlio Cezar, Camelo e Júlia

Populares já associam como os sucessos do "rei do reggae brasileiro" poderão ser utilizados em mote de campanha política

Por Redação Publicado em 09/08/2026 às 16:15
Édson Gomes, ícone do reggae brasileiro se apresenta em Palmeira dos Índios, no dia 22, no Festival de Inverno

Palmeira dos Índios já entrou no clima do 6º Festival de Inverno, mas uma das atrações mais esperadas da programação nem precisou subir ao palco para começar a movimentar a cidade. A presença de Edson Gomes, um dos maiores representantes do reggae brasileiro, despertou a criatividade popular e transformou três clássicos do artista em uma espécie de trilha sonora antecipada da campanha eleitoral.

O FIPI será realizado entre os dias 20 e 22 de agosto, na antiga Estação Ferroviária. O encerramento reunirá a cantora palmeirense Léia Soares, Joelma e Edson Gomes, responsável por fechar o festival com seu reggae marcado por letras de amor, resistência e crítica social.

A apresentação do cantor baiano é tratada na cidade como inédita. Nas pesquisas realizadas pela reportagem, não foi encontrado registro público confiável de outro show de Edson Gomes em Palmeira dos Índios.

E a trajetória do artista é extensa. Edson Gomes começou a participar de apresentações e festivais ainda na década de 1970 e lançou seu primeiro álbum, “Reggae Resistência”, em 1988. Portanto, em 2026, acumula mais de cinco décadas de atividade musical e 38 anos de carreira fonográfica.

Mas, em Palmeira, a expectativa musical rapidamente ganhou tempero político.

Antes mesmo de o artista entoar seus sucessos na Praça da Estação, a criatividade popular começou a enxergar uma suposta — e bem-humorada — mensagem subliminar na contratação. Não há qualquer indicação de que a escolha do repertório ou do cantor tenha motivação eleitoral. Ainda assim, como a política palmeirense nunca perde uma oportunidade de produzir uma boa resenha, três músicas foram imediatamente “escaladas” para representar o trio governista.


“Fala, fala, Negão!”


A primeira escolhida foi “Fala Só de Amor”. O refrão conhecido pelo chamado “Fala, fala, negão!” foi associado ao ex-prefeito e atual secretário estadual Júlio Cezar, que adotou o apelido “Negão” como uma das marcas de sua comunicação política — incluindo o antigo podcast denominado “Fala Negão”.

Na versão palmeirense da música, enquanto Edson Gomes canta sobre alguém que todos os dias fala e chora de amor, o público poderá lembrar daquele que, depois de dois mandatos na prefeitura, continua falando, aparecendo e movimentando os bastidores políticos da cidade.

Populares dizem que versos da música “Fala só de amor” vai servir de mote para Júlio Cézar: “Fala, fala, negão!”

Qualquer semelhança com a pré-campanha, naturalmente, pode ser apenas coincidência.


Sílvio Camelo vira “Camelô”

A segunda adaptação quase não exigiu esforço dos criadores da brincadeira.

O clássico “Camelô” foi imediatamente relacionado ao deputado estadual Sílvio Camelo, apontado como o nome do grupo governista para disputar uma cadeira na Assembleia Legislativa.

O trocadilho entre Camelo e camelô veio praticamente pronto. Na composição, Edson Gomes apresenta o trabalhador do mercado informal que se declara profissional e “bom rapaz”. Na versão do palmeirense, a trilha pode embalar Sílvio Camelo eleitoralmente.
A associação ganha ainda mais força porque Sílvio tem intensificado sua presença no município ao lado da prefeita Luiza Júlia e de Júlio Cezar. Os três já aparecem juntos em agendas administrativas e políticas, compondo publicamente o núcleo do grupo que governa Palmeira dos Índios.

Na versão eleitoral que circula no imaginário popular, a música poderia ganhar um refrão improvisado: “Sou Camelo, sou candidato estadual...”

Edson Gomes, evidentemente, não escreveu isso. Mas o povo de Palmeira já fez a adaptação.


“Malandrinha” para Luisa Júlia


Para completar o trio, a prefeita Luíza Júlia - popularmente conhecida como Tia Júlia - ficou com “Malandrinha”, uma das canções românticas mais conhecidas do cantor baiano.

A associação não utiliza “malandrinha” em sentido ofensivo, mas explora a personagem apaixonada da composição e o clima descontraído da pré-campanha onde ela aparece em vídeos dançando com seus aliados.

Na música, o eu lírico celebra a chegada de um grande amor capaz de transformar sua vida e encerrar antigos tormentos. Na política local, a montagem brinca com a relação de absoluta sintonia entre Luisa Júlia, Júlio Cezar e Sílvio Camelo: “Malandrinha, estou na tua...” E, pelo que mostram as aparições públicas do grupo, um parece mesmo estar “na do outro” quando o assunto é articulação eleitoral.

Do protesto social à resenha palmeirense


Edson Gomes construiu sua carreira cantando desigualdade, pobreza, corrupção, violência, resistência e os dramas cotidianos do povo brasileiro. Ao mesmo tempo, também produziu clássicos românticos que atravessaram gerações, como “Malandrinha” e “Fala Só de Amor”.

Em Palmeira dos Índios, contudo, seu repertório ganhou uma quarta dimensão: a eleitoral.

No dia 22 de agosto, milhares de pessoas deverão cantar os grandes sucessos do artista na Praça da Estação. Alguns estarão pensando apenas no reggae. Outros lembrarão dos amores de suas vidas. E certamente haverá quem olhe para o palco, veja o vídeo dos três políticos dançando e não consiga evitar as associações: “Fala Só de Amor” para Júlio Cezar; “Camelô” para Sílvio Camelo e “Malandrinha” para Luíza Júlia.

Edson Gomes ainda nem chegou a Palmeira, mas a criatividade popular já montou o repertório, produziu o clipe e lançou a trilha sonora da campanha.



Resta saber se, depois do festival, o trio continuará dançando reggae — ou se entrará definitivamente em um verdadeiro “Campo de Batalha” eleitoral evocando outro hit do artista baiano que será a “Ovelha negra”?