TATUAGEM

Projeto social 'Linhas de Recomeço' transforma cicatrizes em arte por meio da tatuagem em Maceió

Idealizada pela tatuadora Andressa Monike Fialho, iniciativa propõe uma mudança na vida de quem convive com cicatrizes físicas e emocionais

Por Jamerson Soares/Assessoria Publicado em 04/08/2026 às 15:35
Arquivo Pessoal

Desde que começou a transformar ideias em arte na pele das pessoas, há seis anos, a publicitária e tatuadora Andressa Monike Fialho sentia que precisava contribuir para a ressignificação de histórias e trajetórias em Alagoas. Foi a partir desse desejo que, em 2026, idealizou o Linhas de Recomeço, projeto social que propõe uma mudança na vida de quem convive com cicatrizes físicas e emocionais, especialmente pessoas da comunidade LGBTQIAPN+.

Responsável pelo Gato Preto Studio, em Maceió, Andressa sempre acreditou que a tatuagem vai muito além da estética: é um compromisso com a transformação e com os propósitos de vida, unindo excelência técnica e atendimento humanizado.

Durante esse percurso, a tatuadora percebeu que muitas pessoas conviviam com cicatrizes que carregam um grande peso emocional, como marcas de cirurgias — especialmente de retirada das mamas —, acidentes ou episódios de automutilação vividos em algum momento de suas histórias.

"Também percebi que muitas dessas pessoas deixam de procurar esse tipo de procedimento porque sentem vergonha da própria cicatriz, têm medo de serem julgadas ou simplesmente não se sentem seguras em determinados ambientes. Por isso, mais do que oferecer uma técnica, eu queria criar um espaço onde elas encontrassem acolhimento, respeito e segurança durante todo o processo", contou Andressa.

O projeto foi lançado no início de junho deste ano, em referência ao Mês do Orgulho LGBTQIAPN+, com inscrições abertas e encerradas no mesmo mês. Segundo a tatuadora, a proposta era oferecer, de forma totalmente gratuita, procedimentos de cobertura de cicatrizes por meio da tatuagem artística, promovendo autoestima, pertencimento e ressignificação corporal.

No processo de inscrição, os interessados preenchiam um formulário, participavam de uma pré-seleção e, posteriormente, de uma avaliação presencial, com o acompanhamento do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (IBRAT-AL) e o apoio da E-Tattoo, que forneceu os materiais necessários para a realização das tatuagens, além da Panta Cosméticos, que disponibilizou os produtos utilizados nos cuidados de cicatrização após os procedimentos.

Para Andressa Monike, o trabalho trouxe a possibilidade de transformar cicatrizes em novos significados, sem focar apenas na marca ou na história dolorosa que ela representa.

"É impossível não me emocionar acompanhando cada resultado. Ver a reação das pessoas diante do espelho, perceber a felicidade, o alívio e a emoção de reencontrarem uma relação mais positiva com o próprio corpo. Receber a confiança de alguém para ressignificar uma parte tão importante da sua história é uma enorme responsabilidade e também um privilégio", destacou.

Mais confiança para seguir


Por muito tempo, o estudante de Psicologia Lucas Levi, de 20 anos, carregou limitações impostas pelas próprias cicatrizes, que o deixavam inseguro e sem confiança em relação ao próprio corpo. Ele chegou a deixar de vestir as roupas que queria por sentir vergonha.

Ao conhecer o projeto, identificou-se com a proposta e se inscreveu para participar. Levi contou que ficou empolgado porque a arte escolhida representa muito em sua vida.

"Desde então foi todo um processo muito grande de ressignificação e de apreciação da própria arte que foi tatuada. Desde que fiz a tatuagem, venho me sentindo muito melhor em relação às cicatrizes. Hoje consigo vestir roupas que antes não conseguia usar e, de forma geral, ela é a minha tatuagem preferida e a mais importante. De fato, é a que carrega mais significado. Estou muito feliz", celebrou.

Para o estudante de Contabilidade Felipe Santos, de 25 anos, o projeto representou uma forma de lidar com as inseguranças causadas pelas cicatrizes.

"Constantemente eu me sentia intimidado pelos olhares ou por perguntas desnecessárias. O estigma trazia muitos prejuízos para o meu dia a dia. Hoje, após o procedimento, sinto que estou recomeçando. Estou mais confiante e seguro para ocupar os lugares sem precisar me esconder, sem me sentir observado ou julgado", afirmou.

Serviço permanente


A etapa gratuita do projeto foi encerrada após a conclusão das inscrições, mas o atendimento continua sendo oferecido no Gato Preto Studio como um serviço permanente, mediante um valor social. Atualmente, Andressa também realiza uma especialização na área de dermatologia estética, buscando aprofundar seus conhecimentos sobre a cobertura de cicatrizes e ampliar o impacto social do trabalho que desenvolve.

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