Fernando Valões resgata a memória da luta e tragédia dos índios Xocó em Pão de Açúcar
Arquivo audiovisual dos anos 1980 revela denúncias de violência, expulsões e a resistência histórica do povo Xocó pela retomada da Terra Caiçara às margens do São Francisco.
O jornalista Fernando Valões volta a prestar um serviço fundamental à memória histórica e jornalística de Alagoas ao resgatar e divulgar imagens raras sobre a luta do povo indígena Xocó, no município de Pão de Açúcar. O material, gravado no fim da década de 1980, integra o vasto acervo pessoal do jornalista e documenta um dos capítulos mais duros da resistência indígena no Sertão alagoano.
Nas imagens, lideranças Xocó relatam a expulsão violenta de indígenas de suas terras tradicionais, episódios de mortes por afogamento e a atuação de jagunços armados a serviço de fazendeiros para impedir o acesso às áreas reivindicadas. O vídeo menciona diretamente ações atribuídas ao coronel João Fernandes de Brito, apontado como responsável por perseguições e expulsões históricas contra os indígenas.
O registro mostra que a luta pela Terra Caiçara se arrastava desde pelo menos 1978, enfrentando bloqueios físicos e intimidações que inviabilizavam o acesso dos Xocó ao próprio território. Somente em 1979, após intensa mobilização, o povo indígena conseguiu reaver cerca de 100 hectares da Ilha de São Pedro, permanecendo, no entanto, a reivindicação de aproximadamente 3.600 hectares da área tradicional.
O documentário também dá voz ao cotidiano e à cultura Xocó. Mulheres indígenas aparecem relatando o trabalho artesanal em cerâmica, atividade ameaçada pela impossibilidade de acesso ao barro e à lenha, barrados por fazendeiros que ocupavam a terra reivindicada. A pesca, prática tradicional e essencial à subsistência do grupo, também surge como foco de conflito, com denúncias de proibição imposta por proprietários rurais que se diziam donos da Terra Caiçara.
Outro momento marcante do resgate histórico é o registro da reeleição do pajé Antônio Medeiros, em 25 de fevereiro de 1989, celebrada com festa e ritual tradicional, evidenciando a organização social e política do povo Xocó em meio ao conflito fundiário.
Ao trazer novamente essas imagens a público, Fernando Valões contribui para preservar a memória de uma luta que, por décadas, foi invisibilizada. O material não apenas documenta denúncias e violações, mas também reafirma a identidade, a resistência e a dignidade do povo Xocó, cuja história se confunde com a própria história de Alagoas.
Trata-se de um resgate que ultrapassa o valor jornalístico: é um testemunho histórico que ajuda a compreender os conflitos agrários, a resistência indígena e a importância da preservação da memória audiovisual como instrumento de justiça, reconhecimento e reparação histórica.