HISTÓRIA DO BRASIL

24 de agosto: há 72 anos, morte de Getúlio Vargas abalava o Brasil e mudava os rumos da política

Presidente se suicidou no Palácio do Catete em 24 de agosto de 1954, em meio a uma das mais graves crises políticas do país; Carta-Testamento transformou sua morte em um dos acontecimentos mais marcantes da história brasileira

Por Redação Publicado em 24/08/2026 às 08:46
Getúlio Dorneles Vargas

Há exatos 72 anos, na manhã de 24 de agosto de 1954, o Brasil acordava para um acontecimento que mudaria de forma dramática o curso da política nacional. Pressionado a deixar a Presidência da República e cercado por uma grave crise política e militar, Getúlio Vargas se suicidou no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, então sede do governo federal.
Eram aproximadamente 8h30 quando Vargas foi encontrado morto em seu quarto. Segundo o acervo histórico da Fundação Getulio Vargas, o presidente havia passado a madrugada reunido com ministros tentando encontrar uma saída para a crise, mas recebeu a informação de que setores militares não aceitariam seu simples licenciamento: exigiam sua renúncia ou afastamento definitivo.
A morte provocou uma comoção poucas vezes vista na história política brasileira.

Getúlio Vargas, como advogado no RS



O cerco contra Vargas


Getúlio havia retornado à Presidência pelo voto popular em 1951, depois de vencer as eleições de 1950. Era uma volta histórica: ele já havia governado o Brasil entre 1930 e 1945, período que incluiu a ditadura do Estado Novo, de 1937 a 1945.
Seu segundo governo foi marcado por uma política nacionalista, pelo fortalecimento da participação do Estado na economia e por intensos conflitos com setores empresariais, parte das Forças Armadas e a oposição política, especialmente a União Democrática Nacional (UDN) e o jornalista e deputado Carlos Lacerda.
A crise tornou-se praticamente insustentável após o Atentado da Rua Tonelero, em 5 de agosto de 1954.
O alvo era Carlos Lacerda, um dos mais duros adversários de Vargas. Lacerda ficou ferido, mas o major da Aeronáutica Rubens Vaz foi morto. As investigações chegaram a integrantes da guarda pessoal da Presidência e ao chefe da guarda, Gregório Fortunato, aumentando a pressão política sobre o governo.
Nos dias seguintes, o movimento pela renúncia ganhou força.
Militares da Aeronáutica e da Marinha passaram a exigir abertamente a saída do presidente. Generais também aderiram à pressão. Vargas resistiu.
Na noite de 23 para 24 de agosto, convocou uma reunião ministerial no Palácio do Catete. A solução inicialmente aceita seria um licenciamento temporário enquanto as investigações prosseguissem. Horas depois, porém, chegou a informação de que a saída provisória não seria aceita.
O presidente teria de renunciar definitivamente ou seria afastado.
Pouco depois, Getúlio recolheu-se aos seus aposentos.

Getúlio, no período do Estado Novo, no RJ



A Carta-Testamento


Ao morrer, Vargas deixou um documento que se transformaria em parte indissociável daquele 24 de agosto: a Carta-Testamento.
Nela, apresentou sua morte como o último ato de uma luta política em defesa dos trabalhadores, da soberania nacional e de sua concepção de desenvolvimento econômico. O texto responsabilizava forças políticas e interesses econômicos nacionais e estrangeiros pela pressão exercida contra seu governo. O original da Carta-Testamento integra hoje o arquivo pessoal de Getúlio Vargas preservado pelo CPDOC da Fundação Getulio Vargas.
A frase final atravessou gerações e tornou-se uma das mais conhecidas da política brasileira:
“Saio da vida para entrar na História.”
E entrou.

Getúlio Vargas, na presidência do Brasil, pouco tempo antes de tirar a vida



País soube pelo rádio


A notícia espalhou-se rapidamente pelo Brasil, principalmente através do rádio, então o grande meio de comunicação de massa.
O Repórter Esso, em edição extraordinária, anunciou a morte do presidente, enquanto emissoras passaram a divulgar detalhes do acontecimento e o conteúdo da Carta-Testamento.
A reação popular foi imediata.
Milhares de pessoas tomaram as ruas do Rio de Janeiro. O Palácio do Catete foi cercado por uma multidão que queria se despedir do presidente. Imagens do velório mostram populares comprimidos em torno do caixão, numa das maiores manifestações de comoção política registradas no país.
A indignação também se transformou em protestos. Jornais identificados com a oposição a Vargas enfrentaram ataques e dificuldades para circular, e ocorreram manifestações contra interesses norte-americanos no país.
O corpo seguiu posteriormente para São Borja, no Rio Grande do Sul, terra natal de Getúlio, onde foi sepultado diante de outra grande manifestação popular.

Getúlio, no féretro, no Rio de Janeiro

Uma morte que virou o jogo político


O gesto de Vargas produziu um efeito político imediato.
A pressão que até poucas horas antes parecia conduzir à deposição do presidente encontrou, após sua morte, uma enorme reação das ruas. A comoção popular alterou o ambiente político e os planos de seus adversários. O vice-presidente Café Filho assumiu a Presidência ainda naquele 24 de agosto.
A Carta-Testamento fortaleceu também a herança política do getulismo e do trabalhismo. Nas eleições realizadas posteriormente naquele mesmo ano, o impacto da morte de Vargas ainda era sentido, e a UDN, principal partido de oposição ao presidente, sofreu perdas na Câmara dos Deputados.

Multidão acompanha o velório de Getúlio no RJ


Uma das figuras mais decisivas e controversas do Brasil


Setenta e dois anos depois, Getúlio Vargas permanece como uma das personalidades mais estudadas, admiradas e contestadas da história brasileira.
Seu legado reúne dimensões distintas.
Foi sob seu comando que o Brasil acelerou a construção de um Estado voltado à industrialização e à regulamentação das relações de trabalho. Sua trajetória ficou associada à legislação trabalhista, à criação e fortalecimento de empresas estatais e ao nacionalismo econômico. Em seu segundo governo, a criação da Petrobras, em 1953, tornou-se um dos maiores símbolos desse projeto.
Ao mesmo tempo, sua passagem pelo poder inclui o autoritarismo do Estado Novo, quando o Congresso foi fechado, partidos foram extintos e houve censura e repressão política.
É justamente essa combinação de realizações sociais, nacionalismo, enorme capacidade política e autoritarismo que mantém Vargas no centro dos debates sobre o Brasil do século XX.
Mas, independentemente da avaliação política sobre sua trajetória, poucos acontecimentos tiveram a força simbólica daquele 24 de agosto de 1954.
Há 72 anos, cercado politicamente e diante da exigência de abandonar o poder, Getúlio Vargas tomou uma decisão extrema. Sua morte interrompeu uma Presidência, provocou uma explosão popular e transformou aquele amanhecer no Rio de Janeiro em uma data definitivamente incorporada à memória nacional.
Getúlio saía da vida. A partir daquele 24 de agosto, entrava definitivamente para a História.