O estranho caso de Adriano da Nóbrega
Em setembro de 2005, uma prisão do Rio recebeu uma cerimônia incomum: o então tenente Adriano da Nóbrega, acusado de homicídio, foi agraciado com a Medalha Tiradentes, por iniciativa de um deputado estadual.
O projeto exaltava prisões e apreensões numa operação de 2001. Naquele processo por homicídio, Adriano seria absolvido em 2007, num novo julgamento. A homenagem veio antes.
Em 2019, outro capítulo: o Ministério Público fluminense denunciou Adriano na Operação Intocáveis, apontando-o como um dos líderes da milícia de Rio das Pedras, Muzema e arredores, na Zona Oeste carioca.
A apuração, esclareceu o Ministério Público, nasceu de provas encontradas durante a investigação dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes.
Segundo a acusação, o grupo extorquia moradores e comerciantes, grilava terras, negociava imóveis ilegais, praticava agiotagem, ocultava patrimônio e pagava propinas. Armas e intimidação sustentavam o domínio territorial.
Adriano também era apontado como chefe do Escritório do Crime, grupo de matadores de aluguel. Sua defesa negava essa acusação.
Com a prisão decretada, permaneceu foragido por mais de um ano. Em 9 de fevereiro de 2020, foi morto por policiais em Esplanada, na Bahia, durante uma operação destinada a capturá-lo.
Uma honraria pública apresenta o homenageado como exemplo. Sua concessão exige responsabilidade, e a sociedade tem o direito de examinar os critérios de quem distribui reconhecimento em seu nome.
Será que Adriano era mesmo merecedor da Medalha concedida pela Assembleia do Rio de Janeiro? Procure no Google e tire as suas conclusões.
Coaracy Fonseca é Promotor de Justiça, Ex-Procurador-Geral de Justiça de Alagoas, Ex-Procurador-Geral do Município de Maceió e Mestre em Direitos Fundamentais pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.