A cadeira do dragão
É preciso distinguir autoritarismo de totalitarismo. O primeiro concentra o poder e restringe liberdades. O segundo pretende dominar também a consciência, a palavra e a intimidade. Um exige obediência; o outro pretende fabricar obedientes.
A geração formada depois da Constituição de 1988 não conheceu diretamente o terror de um Estado que transforma a violência em método. Talvez por isso parte dela idealize a força. É fácil desprezar direitos humanos quando é sempre o outro quem apanha.
Nelson Rodrigues conheceu essa contradição. Conservador e inicialmente apoiador do regime militar, viu a ditadura entrar em sua própria casa quando seu filho, Nelson Rodrigues Filho, foi preso em 1972 e torturado. Depois, o escritor empenhou-se por sua libertação e pela anistia.
A lição é brutal: ninguém controla indefinidamente a violência política. A cadeira do dragão parece confortável enquanto nela está sentado alguém de quem não gostamos. O problema começa quando percebemos que amanhã poderemos ocupar o lugar reservado ao inimigo.
Nas periferias brasileiras, muitos conhecem o braço armado do Estado e sabem do que ele é capaz quando desaparecem os limites. Ainda assim, a promessa de segurança continua convencendo pessoas a trocar liberdade por força.
Étienne de La Boétie explicou esse mecanismo no Discurso da Servidão Voluntária. Nenhuma tirania vive apenas da violência. Precisa dos que obedecem por medo, dos que silenciam por conveniência e dos que servem esperando receber alguma parcela do poder.
Uma nova experiência de força no Brasil talvez não precise de tanques. Poderá chegar pelo voto e ser recebida como salvação. Poderá encontrar apoio até dentro das instituições, especialmente quando se confunde farda com virtude, autoridade com razão e coturno com solução.
Nossa educação deficitária agrava o problema. Uma escola que transmite conteúdos, mas não ensina liberdade, cidadania e pensamento crítico, forma trabalhadores sem necessariamente formar cidadãos preparados para resistir ao arbítrio.
Depois começam as perdas. A imprensa vira inimiga, a crítica torna-se suspeita, direitos passam a ser apresentados como obstáculos e o funcionalismo público sofre patrulhamento ideológico. A liberdade desaparece aos poucos, muitas vezes sob aplausos.
Nossa herança escravocrata também deixou estruturas de desigualdade e obediência. Milícias, clientelismo e relações de dependência prosperam nesse terreno: primeiro oferecem proteção; depois cobram submissão.
O totalitarismo começa antes da supressão formal da liberdade. Começa quando aceitamos a violência porque imaginamos que atingirá apenas o outro. Pedimos censura para o adversário e poderes ilimitados para nossos aliados.
Nelson Rodrigues descobriu da maneira mais dolorosa que o poder não respeita essa fronteira. A violência que parecia distante chegou ao próprio filho.
La Boétie deixou a advertência: o tirano nunca está sozinho. Milhares de mãos sustentam o poder que depois poderá aprisioná-las.
Antes de entregar ao Estado a liberdade dos outros, portanto, convém olhar bem para a cadeira do dragão.
Amanhã, poderemos estar sentados nela.
E viva a democracia.