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LULA PRESIDENTE: políticas públicas e direitos humanos contra o discurso da morte

Por Célia Cristina de Albuquerque da Fonseca Publicado em 07/10/2026 às 22:06
Célia Cristina de Albuquerque da Fonseca

Governar o Brasil não é tarefa para amadores. Um país continental, desigual e complexo exige experiência, equilíbrio e competência administrativa. A Presidência da República não pode ser reduzida ao discurso das armas, à exploração do medo e ao confronto permanente. Governar exige planejamento e resultados.

Lula exerceu três mandatos presidenciais e Geraldo Alckmin governou São Paulo por quatro mandatos. Suas trajetórias administrativas são amplamente conhecidas. A aliança procura conciliar capitalismo, livre iniciativa, desenvolvimento econômico e proteção social, com investimentos em infraestrutura, educação, saúde e programas de combate à pobreza.

Como Lula costuma defender, quando quem tem menos passa a ter maior poder de compra, toda a economia se beneficia. O trabalhador com carteira assinada compra nos supermercados, nas farmácias, nas lojas e movimenta o comércio, a indústria e os serviços. Da mesma forma, os programas sociais não beneficiam apenas quem recebe os recursos: o dinheiro circula, gera consumo, fortalece empresas, estimula a produção e pode criar novos empregos.

Na segurança pública, é necessário abandonar a fantasia de que matar significa combater eficientemente o crime. Polícia eficiente investiga, produz provas e desarticula organizações criminosas. A integração das forças policiais, prevista na PEC da Segurança Pública, busca fortalecer a cooperação institucional. Armas e discursos de confronto não substituem inteligência, investigação e prevenção.

A história brasileira oferece uma advertência. Zuzu Angel, estilista de prestígio internacional, circulava entre a elite econômica e social. Sua posição privilegiada não impediu que seu filho, Stuart Angel, fosse preso, torturado e assassinado pela ditadura militar, em 1971. Zuzu denunciou o crime e também morreu, em 1976, vítima da repressão, conforme reconhecimento posterior do Estado brasileiro.

No Brasil, basta receber um auxílio social para que os problemas do cidadão deixem de ser tratados como questões de direitos sociais e passem a ser resolvidos pelo Código Penal. Entretanto, quando falamos de certos empresários etiquetados, as leis deixam de existir ou são dobradas.

Direitos humanos não representam proteção ao crime. São garantias contra abusos de quem exerce o poder. Defender a polícia não significa autorizar torturas ou execuções. Um Estado que abandona a legalidade transforma-se em ameaça à sociedade que deveria proteger.

O Poder Judiciário também precisa de reformas. Privilégios, relações impróprias e falta de transparência exigem fiscalização e responsabilização. Lula defendeu mandatos temporários para ministros do Supremo Tribunal Federal, proposta cuja implementação dependeria de alteração constitucional. Independência judicial não significa ausência de responsabilidade institucional.

O caso Daniel Vorcaro e Banco Master exige investigação independente, inclusive das relações financeiras com integrantes do campo político adversário de Lula. Registros eleitorais mostram que um familiar do banqueiro doou R$ 5 milhões a duas campanhas desse grupo em 2022. As doações, por si, não comprovam crimes, mas a apuração de eventuais contrapartidas deve ser rigorosa, sem privilégios ou blindagens.

O histórico das chamadas rachadinhas também merece atenção. Suspeitas de apropriação de salários de servidores resultaram em denúncia contra um integrante destacado da oposição. Em 2022, a Justiça rejeitou a denúncia após a invalidação de provas, sem condenação criminal.

A ausência de julgamento definitivo sobre o mérito das acusações pode alimentar a desconfiança social quanto à eficiência das investigações. Respeitar a presunção de inocência é indispensável, mas a sociedade também merece compreender por que apurações de tamanha gravidade terminam sem esclarecimento judicial conclusivo dos fatos.

A soberania nacional constitui outra questão fundamental. Integrantes da oposição buscaram apoio político nos Estados Unidos durante um período de sanções e pressões econômicas contra o Brasil. Medidas tarifárias americanas atingiram produtos nacionais e provocaram reações diplomáticas e comerciais. Divergências políticas internas não podem comprometer empregos, empresas e interesses estratégicos do país.

Lula e Alckmin representam tradições políticas diferentes que encontraram no diálogo uma possibilidade de convergência. O Brasil precisa discutir emprego, saúde, educação, segurança e desenvolvimento, com propostas concretas e respeito à Constituição. A democracia não pode ser substituída pela exploração permanente do medo.

O caso de Zuzu Angel demonstra que o autoritarismo não distingue classes sociais. Integrante dos círculos da elite econômica e social, a estilista viu seu filho ser assassinado pela repressão e enfrentou a ditadura para denunciar o crime. Sua influência e seu prestígio não impediram a tragédia. Quando o Estado abandona os direitos humanos, nem mesmo os mais ricos e poderosos estão protegidos.

O Brasil já pagou caro pela intolerância, pela violência política e pelo desprezo aos direitos humanos. Não precisa repetir o erro. Seu futuro exige políticas públicas, justiça social, soberania nacional e respeito à vida.

Célia Cristina de Albuquerque da Fonseca


Casada, cristã, graduada em Investigação Criminal e Perícia Forense