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A espada de Demóstenes nossa de cada dia

Por Dartagnan Zanela Publicado em 04/09/2026 às 08:00
Dartagnan Zanela Arquivo

Como e por que escrever em um país onde a maioria avassaladora da população que sabe ler não quer nem saber de tomar em suas mãos um livro para ler — e, quando por descuido pega um, é um livro de autoajuda? Complicado, não é mesmo, meu velho?


Apenas um parêntese: nada contra os livros deste naipe porque, de certa forma, eles são como um verbete de enciclopédia ou da Wikipédia: errado não é começar tomando um como ponto de partida; o problema é ficar com ele e apenas nele como referência última e absoluta. Fecha parêntese.


E veja só como o trem é doido neste nosso país lindo e complicado por natureza: de acordo com o Instituto Paulo Montenegro, que nos apresenta o INAF (Indicador de Analfabetismo Funcional), o cenário entre aqueles que são alfabetizados é ainda mais — como diria o senhor Spock — fascinante.


Segundo o referido instituto, integram a população brasileira entre 15 e 64 anos de idade apenas 7% de analfabetos. Porém, entre os que são considerados alfabetizados, temos 22% de leitores rudimentares, que conseguem ler apenas frases curtas e localizar informações num texto com o qual estejam familiarizados; 36% da galera diplomada são leitores elementares, capazes de ler textos de extensão mediana e localizar informações neles; aqueles capazes de ler textos mais complexos, comparar informações e resolver problemas de múltiplas etapas seriam os leitores intermediários, que correspondem a 25% da população; e, por fim, considerados leitores proficientes, que dominam plenamente a arte da leitura, temos apenas 10%.


E há um detalhe importante, meu caro Watson, que nós não podemos desdenhar de jeito nenhum: dificilmente uma pessoa que não seja um leitor pleno se reconhece como tal. Pior! O Brasil está cheio até a tampa de pessoas diplomadas que estão a léguas de distância de serem leitores proficientes e que, por portarem seus diplomas, imaginam que estão muito além destes problemas.


Aliás, quem de nós não se sente assombrado por esse fantasma? Pois olha, eu confesso que diariamente sinto as garras desse monstro, que habita o porão de minha alma, roçar o meu costado. Muitas vezes me flagro lendo algo e, do nada, me perco; noutras ocasiões, no íntimo do meu coração, sinto aquela vergonha danada de não estar entendendo patavina alguma. Mas não me entrego e, teimoso que sou, releio, pesquiso, pergunto; contudo, me recuso a dar-me por vencido, da mesma forma que não procuro varrer para debaixo do tapete da alma as minhas limitações.


E é aí que, no meu parco entender, a porca torce o rabo — e torce bonito. O INAF não é um sistema de classificação que deva ser visto como algo similar às castas hindus, mas sim uma ferramenta para avaliarmos a quantas andam as falhas da nossa educação mal adquirida para, com zelo e paciência, irmos nos corrigindo e nos aprimorando e, com o tempo, podermos alçar picos mais elevados.


Dito de outro modo, não há nada de errado em gostarmos de ler histórias em quadrinhos ou livros como Pais Brilhantes, Professores Fascinantes. O problema é nos contentar apenas com isso, sem nunca vislumbrar na alma o desejo de ler, por exemplo, A Divina Comédia, de Dante, A Peste, de Albert Camus, ou A Cidade de Deus, de Santo Agostinho.


Enfim, o que é complicado, no final das contas, não é o INAF; o que é realmente fascinante é a aversão que temos à leitura em nossa sociedade — a qual até tem mil e uma explicações, mas, francamente, não sei se tem cura.