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O Discurso de Sapucaia

Por Coaracy Fonseca Publicado em 05/08/2026 às 20:25
Coaracy Fonseca Reprodução

Em setembro de 2003, aos 63 anos de idade, Antônio Sapucaia da Silva, Magistrado honesto e conhecedor do Direito, chega por antiguidade ao Tribunal de Justiça de Alagoas.

Em Alagoas, integridade e competência não constituem atributos relevantes para alavancar um profissional que exerce carreira de Estado.

O Desembargador Sapucaia chegou à segunda instância da judicatura quase no apagar das luzes de sua carreira, embora o mérito transbordasse a toga de juiz singelo.

Discurso em estilo clássico e refinado não poupou críticas discretas ao Sodalício alagoano. Fincou uma frase forte: “o companheiro falecido encarnava o perfil desejado, e naturalmente se ajustaria à filosofia de trabalho desta Casa”.

O discurso causou mal estar e rebuliço na ambiência de seus pares. Recebeu, no entanto, os aplausos e a admiração da sociedade alagoana, Sapucaia foi um tribuno da plebe.

Hoje, ao revirar papéis, revolvi reler a peça de oratória que reputo das mais belas da retórica universal. Jamais deve ser esquecida pelas presentes e futuras gerações.

Quis o destino que, nos idos de 2005, eu viesse a ocupar o honroso de Procurador-Geral de Justiça e haver presenciado o brilhantismo e a elegância do Desembargador.

Mas a história nos reservava uma outra missão. Nos últimos dias de 2007, eclodiu no Estado a agora sepultada Operação Taturana.

Após a arguição de suspeição de dois magistrados da Corte, o recurso aviado por mim encontrou a pena do Desembargador Sapucaia e recebeu provimento: 10 deputados estaduais foram afastados de suas funções.

Vivíamos um momento de tensão e ódio. Eu, no auge dos meus 36 anos, e o Desembargador próximo à aposentadoria por idade, um grande erro da legislação nacional.

Foram tempos difíceis, havíamos tocado o ponto nodal das oligarquias alagoanas, os donos do poder. Sabíamos, eu e ele, que a vingança chegaria de alguma forma, pelos laços familiares.

Poderia vir de qualquer lugar em algum momento.

Sapucaia nos deixou cedo. Este, agora velho promotor Justiça, continua firme em sua função. Viver passou a ser um ato de resistência!