O INSS começa a registrar os efeitos das bets sobre a saúde dos trabalhadores
Quando um novo problema social surge, seus primeiros efeitos nem sempre aparecem nos tribunais ou nas manchetes. Muitas vezes, eles surgem antes nas estatísticas do INSS.
Foi assim com diversos transtornos relacionados à saúde mental. Antes de se tornarem tema recorrente na Justiça, começaram a aparecer entre os benefícios por incapacidade concedidos pela Previdência Social. Os dados mais recentes indicam que a ludopatia pode estar seguindo esse mesmo caminho.
Os dados do Ministério da Previdência Social mostram que os benefícios por incapacidade temporária concedidos a trabalhadores diagnosticados com jogo patológico (CID F63.0) passaram de um afastamento, em junho de 2023, para 62 afastamentos em junho de 2026, o maior número da série histórica.
Outro levantamento, divulgado pelo Intercept Brasil a partir de dados oficiais, apontou crescimento de cerca de 2.300% dos auxílios-doença relacionados à ludopatia entre junho de 2023 e abril de 2025.
Os números ainda são modestos quando comparados a outras causas de afastamento, mas revelam uma mudança importante: o vício em jogos já gera reflexos concretos na Previdência Social.
O perfil dos beneficiários também merece atenção. Cerca de 73% são homens e aproximadamente 80% têm entre 18 e 39 anos, ou seja, trabalhadores em plena idade produtiva. Isso significa que o impacto vai além da esfera individual. Sempre que um trabalhador que contribui para o INSS deixa de trabalhar por incapacidade, há reflexos para a Previdência, para as empresas e para a sociedade.
Na minha avaliação, o aspecto mais relevante desses dados não é apenas o percentual de crescimento, mas a mudança de cenário que eles revelam. Quando um transtorno começa a aparecer com frequência entre os benefícios concedidos pelo INSS, é comum que, pouco tempo depois, surjam novos debates sobre perícia médica, reabilitação profissional, responsabilidade dos empregadores e judicialização.
Foi exatamente esse movimento que acompanhamos nos últimos anos com outros transtornos ligados à saúde mental.
Ainda existem muitas perguntas sem resposta. Como avaliar a incapacidade decorrente da ludopatia? Quais critérios devem orientar a perícia médica? Como distinguir um comportamento voluntário da manifestação de um transtorno mental? São questões que deverão ganhar espaço à medida que novos casos chegarem ao INSS e ao Poder Judiciário.
Mais do que um dado estatístico, o crescimento dos afastamentos relacionados ao jogo patológico indica que os jogos online passaram a produzir efeitos concretos sobre o sistema de proteção social. A Previdência começa a registrar um fenômeno que tende a influenciar a atuação das empresas, da perícia médica e dos tribunais nos próximos anos.
Priscila Arraes Reino é advogada especialista em Direito Previdenciário e Trabalhista e autora do livro Burnout tem lei