O custo da imprevisibilidade: O "tarifaço" americano e a resiliência da indústria brasileira
A imposição de uma nova tarifa de 25% sobre as exportações de máquinas e equipamentos brasileiros pelos Estados Unidos não é apenas um golpe econômico contra o setor mais atingido pela atual política comercial de Washington; é, acima de tudo, o reflexo de um cenário global marcado pela volatilidade e pela quebra de confiança entre parceiros históricos.
Sob o pretexto da chamada "Seção 301", o governo americano formalizou uma decisão política e, sob a ótica estritamente econômica, injustificável. Desde 2009, os Estados Unidos sustentam um superávit comercial robusto com o Brasil. Somos um país que historicamente compra mais deles do que vende. Dos investimentos externos que o Brasil recebe, o principal investidor é os EUA e é onde o Brasil mais investe. Punir um parceiro estratégico com o qual se tem balança favorável carece de nexo econômico e expõe uma postura que afeta não só o Brasil, mas o próprio EUA.
Os Estados Unidos também vêm minando suas relações com outros parceiros históricos como União Europeia, Japão, Canadá, México, Coreia do Sul e Reino Unido entre outros, com tarifas. O que assistimos hoje é a piora da segurança jurídica no comércio internacional. Ao mover-se por impulsos e romper acordos de forma unilateral, os Estados Unidos deixam de ser uma âncora de estabilidade para se tornarem um fator de risco aos parceiros globais.
No setor de bens de capital, o impacto é direto. Diferente de commodities ou produtos da indústria primária — que receberam exceções por medo do impacto imediato na inflação americana —, as máquinas e equipamentos não gozaram de exceções. Sairemos de uma tarifa anterior de 10% para o patamar de 25%. Embora o percentual seja menor do que o teto de 50% efetivado no ano passado, ele ainda representa uma barreira significativa.
Ainda assim, a indústria brasileira de máquinas e equipamentos não assistirá a esse cenário de braços cruzados. Aprendemos a ser resilientes. Diante do fantasma da taxação, nossas empresas agiram rápido: anteciparam contratos sob encomenda e remanejaram estoques de produtos seriados para os distribuidores locais antes da entrada em vigor da medida. Mais do que isso, as empresas instaladas no país já desenham novas estratégias logísticas, utilizando filiais brasileiras para abastecer terceiros mercados, enquanto outras bases atendem à demanda americana.
A resposta mais contundente do nosso setor, contudo, está na nossa capacidade de olhar para além do horizonte tradicional. Mesmo quando enfrentamos uma queda de 9% nas vendas para os EUA no auge das discussões tarifárias, o volume geral das exportações da nossa indústria de máquinas cresceu 12%, saltando de 13,2 bilhões para quase 15 bilhões de dólares em doze meses. Esse crescimento foi impulsionado pela retomada de mercados na Argentina, pela expansão no setor de óleo e gás em Singapura e pela consolidação de parcerias na Europa, entre outros destinos.
Sabemos que uma máquina projetada sob as normas e projetos do mercado americano não é facilmente redirecionada para outra região. Além disso, 82% das nossas exportações são feitas “intercompany”. A perda de espaço nos EUA tem repercussões significativas e exige readequações profundas. No entanto, o saldo global prova que a indústria brasileira tem musculatura e competência técnica para buscar — e conquistar — novos espaços no mapa global.
Buscar novos mercados não é apenas uma reação ao "tarifaço"; é uma obrigação permanente de sobrevivência e crescimento. A mensagem que a indústria brasileira deixa clara neste momento de turbulência é de que a imprevisibilidade externa pode até alterar nossas rotas e nos impor readequações logísticas complexas, mas jamais freará a força produtiva, a inovação e o espírito exportador do Brasil.
*José Velloso é engenheiro mecânico, administrador de empresas e presidente executivo da ABIMAQ - Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos