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Sobre estar só

Por Léo Rosa de Andrade Publicado em 22/07/2026 às 08:00
Léo Rosa de Andrade Arquivo

Alguém pode estar só porque restou em algum instante desacompanhado; há quem opte por se afastar de toda a gente; é possível que alguém acabe sozinho por se haver tornado insuportável para os demais; muitos são solitários por não conseguirem vencer o medo de aproximação.

Algumas pessoas procuram companhia para preencher o vazio da sua existência. Outras o fazem por não se tolerarem a si mesmas. Suponho que há motivos para raramente alguém gostar de estar só. Não importa a razão, em geral, não suportamos estar solitários. Ficamos agoniados.

Sei que há muito palpite sobre a solidão. Altemar Dutra cantava: “Antes só do que mal acompanhado”. Não creio nisso. A se ficar só, prefere-se qualquer tipo de companhia, inclusive as más. Vinicius de Moraes foi mais sincero: “Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão”.

Desconfio que até Charles Bukowski mentia quando afirmava que gostava das pessoas, mas as preferia longe. Afinal, ele se complicou com a maioria delas, porém, gostava de ter com quem se complicar. Bukowski não era um retirado, mas um provocador. Um provocador acompanhado.

Intelectuais importantes refletiram sobre convivência: Jean-Paul Sartre dizia que o inferno são os outros (frase mal interpretada). Victor Hugo pensava que solidão é o inferno. Fico no entremeio proposto por Josh Billings: A solidão é um lugar bom de se visitar, mas não é uma boa morada.

A ciência, há algum tempo, compareceu. Juliana Vines, (FSP, 22jul14) noticiou uma pesquisa da Science sobre ficar a sós com os próprios pensamentos. “O resultado do estudo surpreendeu até o seu coordenador, o psicólogo Timothy Wilson, da Universidade da Virgínia (EUA).

Desafiadas a ficar de seis a 15 minutos sem companhia, 57% das pessoas afirmaram dificuldades para se concentrar, 89% disseram que a mente vagou e 49% não gostaram da experiência. Em outro teste, 67% dos homens e 25% das mulheres preferiram levar choques a ficar sós”.

Para Wilson, "parece que há uma dificuldade para se distrair com a própria mente”. A convivência com a tecnologia de comunicação individual denuncia um sintoma e é uma causa dessa dificuldade, restando que “hoje temos menos oportunidade para refletir e desfrutar dos nossos pensamentos".

A meu ver, esse problema acompanha a humanidade; é seu apanágio. O sucesso de todo esse aparato tecnológico não é só uma questão de oferta tentadora, mas também de uma tentação demandadora. Esses brinquedinhos e seus algoritmos serenam nossa insaciável sede de contato.

E a isso, segundo Lívia Godinho Nery Gomes (psicóloga, UFS), soma-se outro fenômeno que as mídias sociais incrementaram: a necessidade de estarmos disponíveis. “Há um apelo muito grande para estar em rede, compartilhar. Quem está de fora sente que está perdendo alguma coisa”.

Roberto N. Sá (psicólogo, UFF) pontua: "A noção de realidade, de estabilidade e segurança é construída socialmente, através das relações com os outros e das ocupações. Quando não estamos inseridos em alguma atividade há um sentimento de não realização, fragilidade e angústia".

O sociólogo português José Machado Pais abrange o relacionar-se consigo e com outras pessoas, e arremata bem: “A solidão surge quando não há capacidade de comunicação com os outros ou consigo. O estar só não significa estar em solidão se você está de bem consigo mesmo".

Estar de bem consigo mesmo. Essa é toda a questão. Mas tal só é possível se portarmos um tanto de conteúdo mental que nos proveja sentidos à existência. Se alguém for um deserto de ideias, como poderá ter afetos agradáveis consigo? Que vida interior há em um interior vazio?

Aliás, falta de conteúdos que enriqueçam o existir produz estranhos agrupamentos de solitários: ovelhas buscam suas religiões, entorpecidos acorrem aos balcões das farmácias, bêbados apostam esperança no álcool, utentes de outras drogas se empenham com traficantes.

Penso nas noites: multidões à procura de encontros. Nenhum encontro supre a incompletude humana: sós não somos suficientes; ninguém se apazigua buscando sentidos fora de si. Ou nos fazemos admiráveis por nós, ou jamais deixaremos de estar ávidos do que não encontraremos.