O Senhor das Moscas sob nova direção
Dias atrás, todos devem ter tomado conhecimento do acontecido em uma escola de ensino fundamental, onde os alunos de uma turma colocaram cacos de vidro na água da professora. Diante do ocorrido, penso que há dois pontos que devem ser levados em conta. Primeiramente, não há o que discutir: isso foi uma monstruosidade. Em segundo lugar, temos muito que discutir, porque isso é uma monstruosidade.
E a primeira pergunta que todos nós deveríamos fazer é como permitimos que algo assim acontecesse. E não me refiro apenas às autoridades constituídas, às famílias, aos professores e tutti quanti. Refiro-me, sim, à sociedade — toda ela —, porque o tempo todo as crianças estão aprendendo, e estão aprendendo conosco através de nossas palavras, atos e omissões.
De todas as nossas falhas, há uma que está no cerne desta trágica questão: a nossa recusa, o nosso medo de agir como adultos diante dos infantes. Isso mesmo! A nossa recusa em educá-los. A sociedade se nega a esse papel porque exercê-lo é desconfortável e, no mundo contemporâneo, ninguém mais quer assumir papéis que tenham esse feitio de parecer desagradável, não é mesmo? Claro que não. Todo mundo, em alguma medida, quer parecer “instagramável” e isso, cara pálida, é um veneno danado para a alma e, inevitavelmente, um desastre para a educação.
Ouvimos várias vezes palestrantes, burocratas, doutores, políticos — graúdos e miúdos — afirmarem que a escola deve ser o lugar mais bacana do mundo para que as crianças queiram estar nela, empolgadas e agindo como “protagonistas” de seus estudos; ouvimos isso boleiras de vezes, e é justamente aí que reside todo o entrevero.
Uma escola não tem que ser o lugar mais legal do mundo, nem precisa ser uma sucursal da chatice absoluta. Ela precisa ser apenas o que deve ser: uma escola. E, francamente, não precisamos nos preocupar se o estudante irá amar de paixão a instituição de ensino, porque, na vida, nós não fazemos apenas aquilo que enche o nosso coração de júbilo; na maioria das vezes, fazemos aquilo que devemos fazer, e essa lição, há muito, deixou de ser ensinada às tenras gerações porque os adultos, de um modo geral, não querem dizer a palavra “não”.
Detalhe importante: a sociedade não apenas se recusa a dizer não; ela não quer, de jeito maneira, que os professores exerçam o seu papel frente aos caprichos e veleidades que, muitas das vezes, as famílias permitiram que os educandos tivessem, e que a sociedade e a mídia os incentivaram a ter.
E tem outra! Não são poucos os doutos que afirmam, com toda sua empáfia doutoral, que corrigir pode “traumatizar” o aluno, que usar caneta vermelha na correção pode desmotivar o estudante, e que exigir que ele aprenda coisas que estejam além do seu cotidiano, do seu círculo de latência imediato, pode ser uma forma de “opressão” sem par.
Por isso, perguntamos: como é possível falar em educação quando corrigir, praticamente, é visto como uma “contravenção”? Ninguém parou para pensar que esse clima cultural está tornando os ambientes educacionais lugares inseguros, tanto para professores quanto para alunos? Sim, muitos pensaram, mas praticamente ninguém quer ver a realidade como ela é, muito menos tomar as atitudes necessárias para mudar esse quadro.
Talvez, quem sabe, quando um aluno agredir uma professora porque tirou uma nota baixa em uma prova, essa situação mude, não é mesmo? Ops! Isso já aconteceu e, infelizmente, nada mudou, porque todos têm medo de encarar a verdade e corrigir uma criança petulante.
Enfim, podemos dizer que o cenário educacional brasileiro está próximo do quadro retratado por William Golding em “O Senhor das Moscas”, porém rumando para um final mais dantesco. Bem mais dantesco mesmo.