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Saúde mental na Copa: o jogo que ninguém vê

Por Arthur Feltrin Publicado em 30/06/2026 às 14:17
Arthur Feltrin

O mundo para quando começa a Copa do Mundo. Bilhões de pessoas acompanham cada drible, cada gol, cada erro. Os números são absurdos: mais de cinco bilhões de espectadores, cobertura em tempo real em todos os continentes, uma pressão coletiva que atravessa oceanos e fusos horários. Mas existe um campo invisível nessa competição, e ele talvez seja o mais decisivo de todos.

Estou falando de saúde mental. O gol contra que ninguém quer fazer.

Por muito tempo, essa conversa foi tratada como tabu no universo esportivo. O atleta precisava ser forte, resiliente, inquebrável. Mostrar vulnerabilidade era sinal de fraqueza. Pedir ajuda psicológica era quase uma confissão de despreparo. Esse script está, finalmente, sendo reescrito. E a Copa do Mundo de 2026 é um dos palcos mais importantes dessa virada.

O que a ciência já sabe

Em 2026, pela primeira vez de forma estruturada, a FIFA reconheceu publicamente a necessidade de um programa de proteção ao bem-estar psicológico dos atletas durante o torneio. Um artigo publicado em maio deste ano na revista Sports Medicine mapeou os principais fatores de risco relevantes para o Mundial masculino, e o diagnóstico é direto: competir em uma Copa do Mundo é um evento que define carreiras, mas também cria um ambiente de pressão intensificada que aumenta significativamente o risco de sintomas de saúde mental, tanto para jogadores quanto para as equipes técnicas que os apoiam.

Os fatores se acumulam e se potencializam: calendários comprimidos, escrutínio global, rotinas perturbadas, contextos culturais desconhecidos, exposição à violência interpessoal e online, e períodos prolongados em concentrações fechadas. Há ainda o desgaste fisiológico da viagem. Pesquisadores apontam que o desalinhamento circadiano e o cansaço de viagem impactam diretamente tanto a saúde mental quanto a performance física dos atletas. O corpo e a mente chegam à Copa já sobrecarregados, muito antes do apito inicial. Sem contar que a maior Copa do Mundo de todos os tempos também cresce nas redes sociais. Nunca se falou tanto em Copa do Mundo no ambiente digital. Isso aumenta a pressão sobre grande parte dos jogadores. Um passe errado ou um pênalti mal batido pode virar cancelamento na vida real.

A neurociência ajuda a explicar esse fenômeno. O cérebro humano não foi projetado para viver sob estresse crônico e vigilância constante. Em contextos de pressão intensa, como jogos decisivos, exposição midiática ou cobranças internas e externas, o sistema nervoso ativa mecanismos de sobrevivência, como a liberação contínua de cortisol. O problema é que níveis elevados de cortisol por períodos prolongados comprometem memória, tomada de decisão, qualidade do sono e imunidade. Ou seja, afetam exatamente tudo o que um atleta precisa para atingir sua melhor performance.

Os números que o hype não mostra

A prevalência de problemas de saúde mental pode atingir 50% dos atletas em algum momento de sua carreira, com pico de início por volta dos 19 anos. Não estamos falando de fragilidade. Estamos falando de uma realidade estatística do esporte de alto rendimento.

No Brasil, os dados são igualmente expressivos. Uma pesquisa da PUC-RS em parceria com o Comitê Olímpico do Brasil revelou que 41% dos atletas brasileiros de alto rendimento apresentam transtornos, sendo 14,6% com depressão, 13,5% com ansiedade e 23% com dificuldade para dormir. E, apesar desses números, seis dos vinte clubes da Série A do Brasileirão ainda não possuíam departamento de psicologia em 2024.

Especialistas em psicologia do esporte apontam que as consequências psicológicas dessas pressões são significativas. Uma parcela substancial dos jogadores de elite experimenta sintomas de ansiedade, depressão e burnout. Para muitos, a exposição repetida a ambientes de alta pressão leva a uma queda de confiança, especialmente nos momentos decisivos. É exatamente quando o pênalti precisa ser cobrado.

As redes sociais adicionam uma camada nova e particularmente cruel a essa equação. O atleta não é avaliado apenas pelo desempenho em campo, mas também por opiniões, cortes de vídeo, comentários, ataques e comparações constantes sobre sua vida pessoal e profissional, o que pode dificultar inclusive a recuperação emocional após uma falha em campo. Richarlison tornou pública sua crise após a Copa do Catar de 2022. Philippe Coutinho rompeu seu contrato com o Vasco em 2026 para priorizar a saúde mental. Esses casos não são exceção. São o sintoma visível de algo muito mais amplo e silencioso.

O paradoxo do atleta invencível

Existe uma contradição no esporte de elite que poucos têm coragem de nomear: ambientes desenhados para maximizar a performance podem, simultaneamente, minar o bem-estar mental. Isso cria uma tensão crítica dentro do esporte de alto nível.

O atleta é treinado para nunca demonstrar vulnerabilidade. Mas a mente não funciona com esse script. Lesões, desconvocações, críticas públicas e, na Copa, a pressão de representar um país inteiro são gatilhos reais para crises que vão muito além do vestiário.

Os que entenderam isso mais cedo estão colhendo resultados. A Inglaterra é um dos principais exemplos. Após anos de eliminações traumáticas em disputas de pênaltis, a seleção passou a investir em acompanhamento psicológico antes da Copa de 2018. O resultado foi histórico: a Inglaterra venceu uma disputa por pênaltis em uma Copa do Mundo pela primeira vez em décadas. Coincidência? A ciência diria que não.

O Brasil também sinalizou mudança de postura ao integrar permanentemente a psicóloga Marisa Santiago à comissão técnica da Seleção Principal desde 2024, com o objetivo de tornar a gestão da pressão e da inteligência emocional um trabalho contínuo, e não apenas uma intervenção de última hora antes do torneio.

Cuidado integral: o conceito que o esporte ensina a todos nós

Aqui chegamos ao ponto que mais me interessa como médico. O atleta de elite é, em muitos sentidos, um espelho amplificado do que vivemos no cotidiano. A pressão por performance, a identidade ligada ao resultado, a dificuldade de pedir ajuda, o sono comprometido e o corpo em alerta constante não são fenômenos exclusivos do gramado. São universais.

A Copa nos dá uma janela rara: um momento em que o mundo inteiro presta atenção no corpo humano em sua capacidade máxima. É uma oportunidade de expandir essa conversa para além das chuteiras.

Especialistas são enfáticos: não existe performance sustentável sem equilíbrio emocional. A pressão constante, a cobrança pública e o medo do fracasso impactam diretamente a tomada de decisão, o foco e até o corpo do atleta. Isso vale para o jogador que enfrenta 80 mil torcedores no MetLife Stadium, palco do primeiro jogo do Brasil e da final do torneio. E vale igualmente para você, que enfrenta suas próprias cobranças, pressões e metas todos os dias.

Cuidado integral de saúde não é um conceito de atleta profissional. É uma necessidade humana. Saúde mental não é o oposto de saúde física. Ela é parte inseparável do mesmo sistema. Quando tratamos o corpo sem tratar a mente, estamos, na melhor das hipóteses, na metade do caminho.

Quando um jogador treme na hora do pênalti, não é o músculo que falha primeiro.

É o que a ciência já sabe. E o que nós, como sociedade, ainda estamos aprendendo a respeitar.

Sobre Arthur Feltri: 

Dr. Arthur Feltrin é médico pneumologista, com especialização em Medicina Integrativa, Medicina do Estilo de Vida e Nutrologia pelo Hospital Albert Einstein. Integra o corpo clínico da Longevitar, clínica voltada à medicina preventiva, integrativa e de longevidade. Sua atuação é focada em saúde preventiva, longevidade, qualidade de vida, performance e bem-estar, com abordagem baseada em evidências científicas e medicina do estilo de vida. Entre os temas que aborda estão longevidade feminina, sono, saúde mental, burnout, suplementação, envelhecimento saudável e hábitos relacionados à qualidade de vida.