OPINIÃO

Copa do Mundo inaugura temporada de golpes digitais para consumidores e empresas

Por Luiz Claudio Publicado em 24/06/2026 às 10:01
Luiz Claudio Divulgação

Com a Copa do Mundo em andamento, os criminosos digitais intensificam uma estratégia que já vinha sendo construída há meses. O interesse global por ingressos, transmissões, promoções e experiências relacionadas ao torneio transformou a competição em um dos principais alvos de campanhas de fraude online, criando um ambiente de risco para torcedores, empresas e instituições financeiras.

Pela primeira vez, a Copa reunirá 48 seleções e 104 partidas distribuídas entre Estados Unidos, Canadá e México, com o interesse do público também batendo recordes. Segundo dados divulgados pela FIFA, mais de 150 milhões de solicitações de ingressos foram registradas ainda durante a fase de sorteio, número que ultrapassou a marca de 500 milhões ao final do período de inscrições. Trata-se de um volume sem precedentes de pessoas buscando informações, oportunidades de compra e acesso ao evento.

Historicamente, grandes eventos esportivos sempre atraíram tentativas de fraude, mas a diferença é que, hoje, os golpes são mais sofisticados, mais difíceis de identificar e operam em escala global. Segundo levantamento da Group-IB, desde agosto de 2025, pesquisadores identificaram mais de 4.300 domínios falsos relacionados à Copa do Mundo de 2026, criados para imitar a presença digital da FIFA e de parceiros oficiais. Parte dessa infraestrutura já está ativa, enquanto milhares de domínios permanecem registrados e podem ser acionados conforme o torneio avança e aumenta a demanda por ingressos, transmissões e conteúdos exclusivos.

Entre os golpes mais comuns estão páginas falsas de venda de ingressos, sites clonados para captura de credenciais, transmissões fraudulentas, lojas de produtos falsificados, plataformas ilegítimas de apostas esportivas e campanhas de malware voltadas ao roubo de informações pessoais e financeiras. A investigação também identificou a operação conhecida como "Ghost Stadium", uma estrutura organizada que utiliza centenas de domínios para reproduzir páginas extremamente semelhantes às oficiais. O objetivo é induzir usuários a inserir senhas, dados pessoais e informações de pagamento acreditando que estão em ambientes legítimos.

O que muitas pessoas ainda não percebem é que esses golpes fazem parte de um ecossistema muito mais amplo de crime digital. Uma senha utilizada em uma falsa compra de ingressos pode ser a mesma empregada em sistemas corporativos ou um dispositivo comprometido durante o acesso a uma transmissão pirata pode se tornar a porta de entrada para ataques mais sofisticados dentro de uma empresa. A integração cada vez maior entre vida pessoal e profissional faz com que um incidente aparentemente simples tenha potencial para gerar consequências muito mais abrangentes.

Além disso, o FBI informou que criminosos vêm criando versões fraudulentas de páginas associadas à FIFA para vender ingressos inexistentes, coletar dados pessoais e aplicar golpes financeiros. Muitas dessas fraudes utilizam técnicas simples, como pequenas alterações em endereços eletrônicos e domínios visualmente semelhantes aos originais, capazes de enganar usuários que acessam links por anúncios, mensagens ou redes sociais.

Segundo a NordVPN, 34% dos brasileiros que utilizam internet afirmaram ter tido contato com golpes relacionados ao futebol entre 2024 e 2025. O percentual representa quase o dobro dos 19% registrados no Mundial de 2022, evidenciando a evolução desse tipo de ameaça. Os criminosos sabem que eventos de grande apelo emocional aumentam a disposição das pessoas para agir rapidamente, reduzir verificações e confiar em ofertas aparentemente vantajosas. É justamente nesse contexto que prosperam páginas falsas, promoções inexistentes e transmissões fraudulentas.

Por isso, a preparação para a Copa também passa pela conscientização de consumidores e colaboradores, que precisam redobrar a atenção diante do aumento das tentativas de fraude. Verificar os endereços dos sites antes de realizar qualquer compra, utilizar apenas canais oficiais, ativar a autenticação multifator e desconfiar de promoções que parecem boas demais para ser verdade continuam sendo atitudes simples e eficazes para reduzir riscos. No ambiente corporativo, o cuidado precisa ser ainda maior, já que a integração entre vida pessoal e trabalho faz com que credenciais comprometidas, dispositivos infectados ou o vazamento de informações pessoais possam abrir caminho para ataques com impactos muito mais amplos.

Portanto, mais do que um evento esportivo, a Copa de 2026 também serve como um alerta sobre a evolução das fraudes digitais. Em um ambiente onde criminosos se adaptam rapidamente aos temas que mobilizam milhões de pessoas, a prevenção passa tanto pela tecnologia quanto pelo comportamento dos usuários. No fim das contas, a diferença entre evitar ou cair em um golpe muitas vezes está em um simples cuidado antes de clicar, compartilhar informações ou concluir uma compra.

*Luiz Claudio é CEO e fundador da LC SEC, empresa especializada em cibersegurança e compliance. Com mais de uma década de experiência no setor, atua na implementação de estratégias de segurança da informação, gestão de riscos e adequação a normas e regulamentações nacionais e internacionais. Lidera projetos no Brasil e na Europa voltados à maturidade em segurança, cultura organizacional e integração de inteligência artificial em estratégias de defesa digital