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Aquele velho era um sábio

Publicado em 13/06/2026 às 10:28

Meu avô, Manoel Fonseca, teve uma formação muito rígida no Colégio Diocesano de Garanhuns, estudou no regime de internato.

Concluído o ensino médio, migrou para Alagoas e fez sua vida com coragem e determinação. Formou-se em Direito e ocupou vários cargos públicos, inclusive o de Procurador-Geral de Justiça, nomeado por Muniz Falcão.

Nos tempos vagos, tenho aproveitado para escrever o seu Perfil biográfico. A nossa ligação afetiva era muito forte e, por isso, tivemos uma proveitosa convivência, ao menos para mim.

O velhinho me fascinava. Não compreendia por que estudava tanto, já aposentado. Não raras vezes, aparecia em minha casa e ordenava que entrasse no seu carro, onde estava na direção o Airton, o nosso querido negão.

Obedecia sem questionar. – Vamos a Recife comprar jornais. – Certo, Dindinho. Ao chegarmos ao destino, o carro era deixado no estacionamento do Jarbas. Em seguida, percorríamos todas as livrarias, principalmente a Livro 7, que tomava um quarteirão.

-Fique à vontade, dizia ele, e tomava distância de mim, dirigia-se à ala de filosofia para verificar alguma obra nova sobre Nietzsche, além de sociologia e história do Brasil.

Ficava a me vigiar de esguelha. Passado algum tempo, aproximava-se e perguntava: -Escolheu o seu livro? Eu me apressava e pegava qualquer um. Foi quando conheci “Os Bruzundangas”, de Lima Barreto, indico a leitura aos vestibulandos e concurseiros.

O tempo passou. Formei-me em Direito e fui procurá-lo na Paripueira para receber lições. Ele disse:-Tudo certo. Foi ao seu quarto e trouxe vários livros, nenhum de Direito.

O Crepúsculo dos Ídolos era o primeiro, seguido de lógica, filosofia, psicologia, história e muita literatura. Bateu-me uma dor de barriga. Inventei uma estória e voltei a Maceió.

Terminei o curso e, em seguida, passei em terceiro lugar no concurso de promotor de Justiça. Fui a Paripueira para contar a ele a minha conquista. Deu-me um abraço e perguntou: -Meu filho, por que você não passou em primeiro lugar? Eu fui o primeiro do meu concurso.

Para mim, foi um balde de água fria. Lembrei-me do dia no qual eu havia dito a ele que tinha medo de fracassar como advogado e vi pela primeira vez aquele homem furioso. Disse-me em alta voz: -Nunca repita isso.

Só na maturidade da vida passei a entender as suas palavras. Na educação dos filhos nunca se deve elogiar demais os bons feitos, ainda há algo mais a alcançar. O esforço deve ser perene, sem acomodação.

Jamais se deve admitir o complexo de coitadinho. O ser humano deve aprender a superar as suas limitações. Com o devido respeito e reconhecimento aos grandes profissionais da área: chega de tanta psicologia de autoajuda.

A vida é luta, conhecimento, assimilação e superação.

Hoje a saudade do velhinho, Neo Fonseca, o meu Dindinho, bateu forte no meu peito. Obrigado meu eterno professor da vida, sem vitimismo!

Coaracy Fonseca é promotor de justiça e ex-procurador Geral de Justiça de Alagoas