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Pelos poderes do circo: a saga do He-Man do Nordeste

Como um artista marcial criado em Alagoas transformou um personagem dos desenhos animados em um dos maiores fenômenos da cultura popular itinerante do Nordeste

Por Cosme Rogério Ferreira Publicado em 13/06/2026 às 10:22
Cosme Rogério Ferreira

Antes dos vídeos virais, havia o He-Man contra vinte

Se hoje fazem sucesso nas redes digitais os vídeos em que vinte pessoas debatem contra um único adversário, no meu tempo de infância, em Palmeira dos Índios, a grande atração popular era a chegada do circo do He-Man na Praça das Casuarinas.

A notícia corria rápido pelas ruas da cidade: “Hoje tem He-Man contra cinco!”, “Amanhã é contra dez!”, “Nesta Sexta-feira, a luta é contra quinze!”, “Sábado, He-Man vai enfrentar vinte desafiantes”. Os carros de som percorriam bairros, feiras e praças. As crianças abandonavam as brincadeiras para correr atrás da propaganda. Os adultos comentavam os desafios nos mercados, nas bodegas e nas calçadas.

À noite, a cidade se amontoava embaixo da lona do circo. À tarde, tinha duas sessões de matinê. À noite, a partir, das 20 horas, aconteciam os desafios de luta livre, depois das apresentações do palhaço Biribelo, e das rumbeiras que dançavam ao som da banda do maestro Juarez.

Na memória permanecem confrontos que adquiriram contornos lendários: He-Man versus Cassaco (o Diabo Louro). He-Man versus Zezinho Pisante. He-Man versus Boi Chinês. Personagens que transitavam entre a realidade e a mitologia popular, entre o esporte, o teatro e a encenação.

Hoje, quando Hollywood aposta novamente em uma superprodução de Mestres do Universo, vale recordar que, para milhares de nordestinos, o primeiro He-Man de carne e osso não surgiu com Dolph Lundgren no cinema, mas na rua. Chegava de caminhão, montava sua lona, desafiava a cidade e lotava o circo.

O homem por trás do mito

Durante muito tempo, depois do auge nos anos 1990, o He-Man do Nordeste pareceu existir apenas na memória popular, lembrado em conversas, em raras fotografias amareladas e em fitas VHS guardadas por colecionadores.

Pesquisas recentes, entretanto, permitem identificar com relativa segurança o homem que deu vida ao personagem. Seu nome era Lenine Alves Baptista. Filho de uma indígena guarani e de um soviético, nascido no Paraguai, naturalizado brasileiro e criado em Alagoas, Lenine teve experiência prévia em telecatch e wrestling antes de criar o personagem que o tornaria conhecido em todo o Brasil.

Lenine aproveitou a popularidade mundial do herói criado pela Mattel nos anos 1980 e, mesmos sem ser uma versão oficial, ter licenciamento ou qualquer contrato ou autorização com empresas ou estúdios de cinema, o reinventou segundo a lógica do circo popular nordestino. Ao invés de ser o defensor de Eternia, o He-Man de Lenine defendia sua reputação diante dos valentões de cada cidade por onde passava.

O herói, da TV para o circo

Para compreender o sucesso do personagem é preciso lembrar o contexto cultural da época. Nos anos 1980 e 1990, He-Man era um dos personagens mais conhecidos do planeta. Milhões de crianças brasileiras acompanhavam diariamente no Xou da Xuxa as aventuras do príncipe Adam, que se transformava no homem mais poderoso do universo ao erguer sua espada e proclamar, com o vozeirão do dublador Garcia Júnior: “Pelos poderes de Grayskull!”.

Pouca gente sabia, porém, que o próprio He-Man era resultado de uma curiosa adaptação cultural. No final dos anos 1970, a fabricante de brinquedos Mattel, surfando no sucesso de Guerra nas Estrelas (como era chamado no Brasil o episódio IV de Star Wars), buscava criar uma linha de bonecos musculosos capaz de competir com o êxito de outros personagens de ação. Inicialmente, a empresa cogitou produzir brinquedos inspirados em Conan, o guerreiro bárbaro criado por Robert E. Howard e popularizado nos cinemas por Arnold Schwarzenegger. O projeto não avançou da forma esperada, e a Mattel decidiu criar seu próprio herói. Assim nasceu He-Man, uma mistura de bárbaro, guerreiro futurista e super-herói, destinado inicialmente a vender bonecos, mas que acabaria se transformando em um fenômeno mundial da cultura pop.

Foi justamente essa força simbólica que atravessou fronteiras e se instalou no interior do Nordeste brasileiro. Lenine Baptista percebeu que aquele herói musculoso, reconhecido instantaneamente por crianças e adultos, podia abandonar a tela da televisão e ganhar vida diante do público. Seu figurino reproduzia elementos facilmente identificáveis: cabelos longos e loiros, roupas inspiradas em peles de animais, caneleiras, físico avantajado e, em algumas apresentações promocionais, até uma réplica da Espada do Poder. A semelhança era suficiente para que qualquer criança reconhecesse imediatamente o personagem.

Mas a adaptação nordestina foi muito além da aparência. No desenho animado, He-Man enfrentava monstros, feiticeiros e exércitos comandados pelo Esqueleto. No sertão, os adversários eram outros (alguns bem esqueléticos). Eram os valentões da cidade, os praticantes de artes marciais, os grupos de judô e karatê, os lutadores de jiu-jítsu e qualquer pessoa disposta a aceitar o desafio lançado pelo circo.

Em resumo, Lenine tomou um herói global, criado por uma multinacional norte-americana de brinquedos, e o transformou em um personagem de identidade nordestina. O castelo de Grayskull virou picadeiro, e o guerreiro que antes enfrentava criaturas fantásticas passou a lutar contra homens comuns, diante de plateias lotadas e ansiosas para vê-los levar uma pisa.

Mais do que uma simples imitação do original, ou um cosplay, o He-Man do Nordeste foi uma nova versão do herói, moldada pelas estradas, pelas feiras livres, pelos circos itinerantes e pelo imaginário coletivo do interior nordestino. Ali, longe dos estúdios de animação e das estratégias de marketing da Mattel, nascia um He-Man que pertencia muito mais ao povo do que à indústria do entretenimento.

O dia em que o Brasil conheceu o He-Man do Nordeste

Embora o personagem já circulasse anteriormente pelo interior nordestino, o grande salto ocorreu em meados dos anos 1990. Em Crato, no Ceará, uma equipe do programa Aqui Agora, do SBT, registrou um dos desafios que se tornariam históricos. A reportagem foi conduzida pelo jornalista Roberto Bulhões, que ajudou a popularizar nacionalmente a expressão "He-Man do Nordeste".

Dentro do circo, Lenine enfrentava simultaneamente dezenas de adversários, entre trinta ou trinta e cinco homens. A matéria ganhou repercussão nacional. De repente, o personagem que já era conhecido nas estradas do Nordeste tornou-se conhecido também pelos telespectadores brasileiros. O mito havia ultrapassado as fronteiras da lona.

Muito além da luta

Mas o espetáculo não consistia apenas em pancadaria. O circo do He-Man era uma sofisticada construção popular de entretenimento.

Tudo começava antes da sessão. Durante o dia, quando não estava trabalhando na manutenção do circo, o He-Man caminhava pelas ruas. Parava em bares, conversava com moradores em portunhol característico, provocava os mais corajosos, convidava todos para o desafio da noite.

As crianças o seguiam pelas ruas, pediam autógrafo. A cidade inteira passava a participar da narrativa. Quando chegava a hora da apresentação, o confronto era apenas o clímax de uma dramaturgia que havia começado horas antes. Hoje chamaríamos isso de “marketing de experiência”. Naquele tempo era apenas entretenimento popular.

As regras do combate

Embora a aparência fosse de violência extrema, havia técnica. Muitos golpes eram controlados. Em alguns desafios, socos no rosto eram proibidos. O artista utilizava frequentemente tapas de mão aberta e movimentos aprendidos durante sua experiência anterior no telecatch.

Era uma mistura singular de luta, performance corporal e encenação. Algo situado entre o vale-tudo, a luta livre profissional e o espetáculo circense. A multidão não estava ali para assistir apenas a uma competição esportiva, mas para se sentir parte de uma história. E o protagonista precisava permanecer invencível.

O Nordeste como palco

O circuito do He-Man abrangia dezenas de cidades. Além de Alagoas, os registros mais sólidos documentam apresentações em municípios do Ceará, Pernambuco, Paraíba e Piauí. As cidades cearenses de Crato, Sobral, Quixadá e Limoeiro do Norte aparecem frequentemente nos registros audiovisuais. Em Pernambuco, destacam-se Afogados da Ingazeira, Salgueiro e Ouricuri. Na Paraíba, Teixeira preserva registros importantes. Também existem memórias persistentes de sua passagem no Rio Grande do Norte.

Trata-se de um fenômeno essencialmente interiorano. O He-Man do Nordeste pertence ao mesmo universo cultural dos parques itinerantes, dos circos de pau-fincado, das feiras livres, dos repentistas e dos vendedores de milagres. Seu território era a estrada. Seu palco era a praça. Sua mídia era o carro de som.

O fim do guerreiro

A trajetória do personagem terminou de forma trágica. No final de dezembro de 2008, Lenine chegou a Ouricuri, em Pernambuco. Ali ocorreu um conflito familiar que resultou em disparos de arma de fogo. Ferido gravemente, foi transferido para Petrolina. Morreu em 8 de janeiro de 2009. Dias depois, foi sepultado em Sobradinho, no Distrito Federal. Com sua morte desapareceu também o protagonista de uma forma muito particular de entretenimento popular.

Das fitas VHS aos algoritmos

A história do He-Man do Nordeste ajuda também a compreender como funciona a memória cultural. Primeiro vieram os circos. Depois, surgiram as reportagens de televisão. Mais tarde, as fitas VHS vendidas nas feiras. Anos depois, esses conteúdos foram convertidos em vídeos no YouTube. Apareceram reportagens especiais e, finalmente, as mídias digitais. O personagem que nasceu sob uma lona de circo passou a circular pelos algoritmos.

Hoje, jovens que nunca assistiram a uma apresentação ao vivo descobrem o He-Man do Nordeste por meio de vídeos curtos e postagens nostálgicas, além da memória de seus pais e avós. É uma espécie de segunda vida digital.

O último herói popular

Talvez o aspecto mais fascinante dessa história seja perceber que o He-Man do Nordeste foi muito mais do que uma curiosidade circense. Ele representa uma forma de criação cultural genuinamente brasileira. Tomou emprestado um personagem global, misturou-o ao circo itinerante, acrescentou elementos do telecatch, do vale-tudo e da cultura popular sertanejo-nordestina, e produziu algo novo, que não existia nem nos Estados Unidos nem em qualquer outro lugar do mundo.

Enquanto Hollywood investe milhões para reviver os Mestres do Universo, o Nordeste guarda a lembrança de seu próprio He-Man, sem castelos mágicos, efeitos especiais ou exércitos. Mas capaz de fazer algo talvez ainda mais difícil: parar uma cidade inteira para assistir a um espetáculo, e transformar-se, para sempre, em memória coletiva.

(*) Doutor em Letras e Linguística, Mestre em Sociologia, Especialista em História de Alagoas, Graduado em Filosofia, Professor do Instituto Federal de Alagoas – Ifal, sócio efetivo da AACN - Associação Alagoana de Cultura Nerd.