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Barrada na porta

Por Maria Paula Teperino Publicado em 29/05/2026 às 14:38

Quem me conhece sabe que adoro ler. Sou uma leitora contumaz e nada mais óbvio do que meus amigos me darem livros de presente de aniversário — o que é sempre uma ótima opção. 

Neste ano não foi diferente. Acontece que, como toda pessoa que gosta de ler, corre-se o risco de ganhar livros repetidos. Foi exatamente o que aconteceu. Dois dos livros que ganhei eu já havia lido e, por sinal, gostado muito. Resolvi então trocá-los, e é aí que começa a nossa história. 

A famosa e badalada livraria onde meus amigos compraram meus presentes tem uma filial bem pertinho da minha casa, inaugurada há pouco mais de 10 anos. Uma grande obra restaurou um casarão antigo em uma época em que as leis de acessibilidade já estavam em vigor havia pelo menos 20 anos. Ainda assim, o escritório de arquitetura responsável pela reforma decidiu ignorar a legislação e, em vez de construir uma rampa na entrada, optou por três degraus, afastados um do outro. 

A Prefeitura do Rio de Janeiro, como de costume, fez-se de desentendida e aprovou a reforma, ignorando as leis que garantem a obrigatoriedade de acesso a locais de uso público. Para remediar, à época mandaram construir três rampas de madeira — uma para cada degrau — o que exigia que um funcionário viesse colocá-las sempre que algum cliente que necessitasse desse recurso chegasse à loja. 

Entretanto, há cerca de dois anos, as rampas de madeira quebraram e, pasmem, não foram consertadas. Assim, pessoas como eu, que andam em cadeira de rodas, ficaram impedidas de frequentar uma livraria simplesmente porque seus donos ou administradores decidiram que tais corpos não precisam estar ali. Ou talvez por acharem que colocar e retirar as rampas atrapalhava o trabalho de seus funcionários. Ou, ainda, porque desconhecem que milhares de pessoas na cidade do Rio de Janeiro se deslocam diariamente em cadeiras de rodas, triciclos, muletas etc. 

Barrada na porta, o jeito foi pedir a uma amiga que fizesse a troca. Aliás, se tem algo que pessoas com deficiência sabem fazer é dar um “jeitinho” para driblar a nossa diária falta de acessibilidade e, consequentemente, a exclusão. 

O capacitismo — preconceito contra pessoas com deficiência — é algo tão estrutural que chega a alterar a própria lógica do capitalismo. Senão, vejamos. Para o capitalismo, o que importa é o lucro: quanto mais pessoas consumirem, melhor. Porém, não é bem assim que funciona quando se trata de pessoas com deficiência. Alguns corpos, mesmo que tenham condições de consumir, não são aceitos. 

Isso é tão contraditório que pesquisadores ingleses decidiram estudar o tema e descobriram que excluir pessoas com deficiência do consumo pode gerar prejuízos de muitos bilhões por ano. O conceito denominado no Reino Unido de Purple Pound ou Libra Roxa parte da constatação de que uma em cada cinco famílias tem ao menos uma pessoa com deficiência. Essa lógica segregacionista faz com que empreendimentos comerciais percam quantias expressivas diariamente ao ignorarem as necessidades desse público. 

Essa ignorância se manifesta desde sites de compras inacessíveis para pessoas com deficiência visual até espaços físicos que desrespeitam as normas de acessibilidade, normas estas que garantiriam que mais pessoas pudessem consumir. 

Foi pensando em lançar luz sobre as questões que envolvem a invisibilização das pessoas com deficiência que resolvi transformar minha dissertação de mestrado em livro, que em breve estará disponível em versão física e em e-book. “NÃO DESVIE O OLHAR — a invisibilização das pessoas com deficiência, sob o ponto de vista da psicanálise” (E. Appris), discute isso e muito mais. E eu te convido à leitura. 

*Maria Paula Teperino construiu uma trajetória marcada pela pluralidade e pela profundidade intelectual. Graduada em Psicologia e em Direito, aprofundou sua formação no campo da psicanálise: é pós-graduada em Psicologia Clínica pela PUC-Rio e em Teoria Psicanalítica pela Universidade Veiga de Almeida (UVA/RJ), instituição onde também concluiu o Mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade. Atualmente, integra o Fórum do Campo Lacaniano do Rio de Janeiro. Em agosto, Maria Paula lançará seu primeiro livro, Não Desvie o Olhar — A Invisibilização das Pessoas com Deficiência sob o Olhar da Psicanálise (resultado de sua dissertação de mestrado), no qual revisita histórias pessoais à luz da teoria psicanalítica. 

Mulher com deficiência física, Maria Paula traz à sua prática e às suas reflexões uma perspectiva singular sobre corpo, sujeito e sociedade.