Muito além do tédio
De tempos em tempos, todo cronista, seja ele um mestre ou um mero artesão, se defronta com o dia fatídico em que lhe dá um terrível branco na cuca; em que não lhe pinta nenhuma inspiração para escrever, por mais insípida que seja. Quando isso acontece, sinceramente, é de lascar.
Imagino que deva existir uma série de razões sociológicas e psicológicas que nos ajudem a ter uma visão mais clara das causas desse fenômeno, mas que, francamente, não vêm ao caso neste momento. Isso porque, quando deitamos nossas vistas nas páginas que foram redigidas pelos grandes cronistas brasileiros — naquelas que foram escritas sem a menor fagulha de inspiração —, entendemos em dois palitos que, nas mãos certas, até mesmo a monotonia e a ausência de qualquer lampejo tomam uma forma singular, criativa e profundamente humana.
Quando Rubem Braga escrevia suas crônicas sem assunto, convidava-nos a prestarmos mais atenção em nossa monotonia cotidiana, nos detalhes da vida que, por inúmeras razões, acabam sempre passando despercebidos pelos nossos olhos que vivem aferrados às nossas rotinas.
Podemos dizer o mesmo de Fernando Sabino que, com sua pena — e sem pena —, era capaz de extrair uma sutil e delicada prosa do canto de um pássaro imaginário que estava a assuntar ao pé de seu ouvido.
E o mesmo pode ser dito das crônicas de Drummond, Janer Cristaldo, José Carlos Oliveira, Carlos Heitor Cony, Stanislau Ponte Preta e tutti quanti. Quando a musa não cantava para os inspirar, cada qual com sua toada, cada um com o seu estilo, tirava não uma carta, mas um baralho inteiro da manga. Não tinha lesco-lesco.
E essa falta de inspiração é algo que me fascina, porque todos nós, cada qual em seu quadrado existencial, vez por outra nos vemos invadidos por ela. Tal sensação é um trem danado que, se ganhar espaço em nossa alma, é capaz de fazer um estrago daqueles.
Ora, quem nunca se viu ao final de um dia, especialmente em um fim de semana, totalmente cabisbaixo, desanimado sabe-se lá com quê? Sim, é algo humano. Porém, também é humano — pra lá de humano — sermos capazes de olhar para essa atmosfera macambúzia e ressignificá-la, transformando-a em um trampolim para atingirmos pontos mais elevados em nossa existência. Para realizar essa empreitada, é necessário algo que poucas pessoas têm em sua algibeira: disciplina. Isso mesmo! Disciplina.
Sim, eu sei, todo mundo sabe e faz questão de esquecer: o que nos faz encarar a vida com altivez não é a motivação. Esse trem, além de ser desprovido de substância, é efêmero e, de quebra, quando se esvai, acaba nos atirando no lamaçal da ausência de sentido.
A disciplina não; essa parada é bem diferente. Ela é o elemento que permanece conosco quando tudo o mais desmorona. É por isso que as crônicas “sem assunto” dos grandes mestres me encantam: elas são uma prova viva de que, quando assimilamos uma disciplina em nossa personalidade, ela nos habilita a imprimir sentido onde tudo aparentemente é desprovido de propósito, e a extrair significado onde outros apenas reconheceriam o reflexo do vazio de suas próprias almas.
Enfim, lembremos e, se possível for, procuremos não nos esquecer: a monotonia não está à nossa volta; ela está apenas e tão somente presente em nosso olhar.