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Treino de força na terceira idade não é sugestão: é necessidade

Por Rairtoni Pereira Publicado em 23/04/2026 às 11:57
Rairtoni Pereira Divulgação

Sim, eu sei que ler esse título pode soar um pouco duro. Pode parecer até uma ordem, algo que muitos idosos naturalmente rejeitam. Mas a verdade é que o treino de força não é um luxo, nem apenas uma recomendação genérica de médicos ou profissionais de saúde. Ele é um dos pilares fundamentais para manter a autonomia, a saúde e a qualidade de vida ao longo do envelhecimento.

O ideal seria que todos chegassem à terceira idade já acostumados a se exercitar. Um corpo que foi movimentado ao longo da vida tende a envelhecer melhor e com mais vigor, equilíbrio e mobilidade. Mas a realidade é outra para muitas pessoas. A correria do trabalho, as responsabilidades da vida adulta e a falta de orientação fazem com que o movimento vá sendo deixado de lado.

Ainda assim, há uma boa notícia: enquanto há vida, nunca é tarde para começar ou recomeçar.

O tempo já passou, é verdade. Mas ele continuará passando de qualquer maneira. Então a pergunta que fica é simples: que tal usar o tempo que ainda vem pela frente para construir um corpo mais forte e uma vida mais independente?

Quando somos crianças, o movimento é natural. Brincamos, corremos, subimos em árvores, pulamos, nos abaixamos e levantamos sem sequer pensar nisso. O corpo funciona com liberdade e espontaneidade. Com o passar dos anos, porém, muitas pessoas vão se tornando cada vez mais sedentárias.

Sem perceber, deixam de se movimentar como deveriam. Perdem força muscular, mobilidade e consciência corporal, que é aquela capacidade simples de andar bem, sentar corretamente, agachar ou levantar com segurança.

Essa perda progressiva de força e massa muscular tem até nome: sarcopenia. De acordo com informações divulgadas pela Cleveland Clinic, ela pode começar ainda entre os 30 e 40 anos e tende a se intensificar com o envelhecimento, podendo chegar em alguns casos a até 8% de perda de massa muscular por década. Esse enfraquecimento é um dos principais fatores que comprometem a qualidade de vida na velhice. É ele que muitas vezes transforma tarefas simples, como caminhar, subir escadas ou levantar de uma cadeira, em grandíssimas dificuldades. Mas isso não precisa ser o destino inevitável do envelhecimento.

E a ciência é bastante consistente ao apontar qual tipo de exercício faz mais diferença nesse contexto: o treino de força. Revisões sistemáticas publicadas em periódicos como o Age and Ageing (Oxford Academic) e outros estudos na área de geriatria mostram que o treinamento resistido melhora força, equilíbrio e capacidade funcional em idosos, além de contribuir para a redução do risco de quedas – uma das principais causas de hospitalização nessa faixa etária.

Modalidades como musculação, Pilates e treinamento funcional (quando bem orientadas e com foco em força muscular), são as que apresentam os melhores resultados para preservar autonomia ao longo do envelhecimento. Não basta apenas se movimentar: é preciso treinar com propósito.

Com o treino de força adequado, orientado e adaptado para cada condição, o corpo pode evoluir em qualquer idade. Mesmo que o progresso seja gradual, ele acontece. Um idoso que começa a treinar pode recuperar mobilidade, melhorar o equilíbrio, fortalecer a musculatura e reduzir significativamente o risco de quedas. E, mais importante, pode recuperar algo extremamente valioso: a independência.

Conseguir caminhar sem ajuda, levantar da cama com autonomia, brincar com os netos ou simplesmente realizar atividades do dia a dia sem depender de outras pessoas são conquistas que fazem toda a diferença na autoestima e na qualidade de vida.

Cuidar do próprio corpo também é uma forma de cuidar daqueles que amamos. Afinal, manter-se ativo não significa apenas viver mais, significa viver melhor, com dignidade, autonomia e presença.

Por isso, o treino de força na terceira idade não deve ser visto como um esforço exagerado ou um sacrifício desnecessário. Ele é, na verdade, um investimento direto na liberdade de continuar vivendo plenamente.

Começar pode parecer difícil. Mas cada passo conta. E, muitas vezes, tudo o que o corpo precisa é justamente isso: começar a se mover novamente – com intenção, orientação e força. A hora é agora.

Rairtoni Pereira é personal trainer há mais de 10 anos, ajudando pessoas a desenvolverem hábitos saudáveis e uma relação positiva com o próprio corpo. É autor do livro “5 Atitudes para criar o hábito de se exercitar todos os dias”.