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Os poderosos dos poderes, Polícia Federal

Por Léo Rosa de Andrade Publicado em 26/02/2026 às 08:00
Léo Rosa de Andrade Arquivo

Rusgas de Poder: algo no seio dos Poderes; mais entre Poderes. Não vejo conflito de competências, mas reacomodação. Surgirão reações demarcatórias do poder de cada Poder da República e do poder dos poderosos que os ocupam.

Sobre os poderosos, embora alguma contenção, medem-se menos seus limites legais e mais se aferem suas balizas egóicas, ou inchação de vaidade. No Brasil demarcado por hierarquias sociais, exibir posição é comprovar-se socialmente.

A alta conta em que o político se tem, consubstancia-se com a eleição. Eleger-se é consagração. Agrega lastro. Ser ungido pelo povo, fazendo-se preferido entre tantos, é demonstração de reconhecimento público de prestígio pessoal.

Mais assim é no Brasil, dado que aqui se escolhem políticos preferentemente por atributos pessoais das mais diversas ordens, ou, tristemente, por negócios de venda e compra (inversão proposital) de votos, desprezando-se sigla partidária.

Já o magistrado não passa por teste de urna. Burocrata distanciado do escrutínio público, sua ascensão na carreira dá-se por jogos e regras internas ao Poder, fora da alçada da população; não há satisfações públicas a serem dadas.

A apreciação popular de um juiz só é possível se sua decisão midiatiatizar-se. Decisões judiciais costumam obter status de mídia se alcançarem figuras midiáticas. Político é mídia. Processo que envolve político é midiatizado.

Juízes mantinham distância das ruas, ou das mídias. Era de mau tom para a sua condição majestática falar fora dos autos. Tempos passados. Atualmente, muitos juízes apreciam a repercussão de suas decisões, ou de si mesmos.

Afora essas questões que supostamente são menores, não obstante granjearem importâncias maiores, as instituições brasileiras vão bem. Vão, todavia, bem se forem considerados os aspectos constitutivos de nossa cultura personalista.

Nossos costumes jurídico-políticos refutam, ou driblam, ou mesmo arrostam, conforme interesses pouco declaráveis, as bases constitucionais da Administração Pública: impessoalidade, moralidade, eficiência, publicidade, legalidade.

Nossas instituições não são infensas às interferências de reputações: compadrio ou “carteiraços”. A moralidade nacional claudica diante de certos meios que justificam certos fins; desertamos a eficiência em evento de proteger os “nossos”.

A coisa pública é um tanto negócio privado. Levamos a público o necessário para o público ser manipulado; mais atuamos à socapa. Nossa ideia de legalidade supõe que a lei incidirá sobre os outros, não sobre nós mesmos ou nossos amigos.

No tocante às instituições, valorizamo-las se e quando suas posições coincidem com nossos interesses. Governantes à esquerda e à direita tentam submetê-las às artimanhas do poder privado. Conforma-se a governança aos negócios.

Eu diria que estes são os recentes fatos do “mundo Brasil”: alguns movimentos de rua, muitos de internet, expressando desgosto difuso, embora raivoso. A paixão até seria um “ativo” se fosse a favor de algum plano; é contra pessoas.

Ademais, corrupção. O maior caso contabilizado de corrupção na história do mundo é nosso. A velhacaria espraiada dos governos petistas sacudiu nosso marasmo político. A indignação popular, contudo, não formou opinião, formou torcida.

Derrubados os petistas, ascendem seus cúmplices essenciais, os emedebistas. Estes revelam-se tão assaltantes do erário quanto os petistas o foram. Tudo restando desmoralizado no mundo político. O Judiciário avança no vácuo.

Governo Bolsonaro. A aposta na ignorância como base de laço social. A própria família como foro de emanação de poder. A recuperação de discursos da direita de fundo religioso. Pregação anticiência. Provocações ao Judiciário.

Enquanto o Judiciário avançava investindo sobre políticos ou empresários, tentava-se “conter a sangria”. Alguns ataques populares ao STF. Quando o STF “vasou”, revelou-se um Poder que se ajeita aos nossos costumes. Desmoralização.

Note-se uma indignação peculiar. Membros do Supremo Tribunal indignam-se porque vazou o conteúdo de uma “reunião secreta”. Ora bem, a indignação com o vazamento é pessoal, o problema é haver uma “reunião secreta” num órgão público.

Não se trata, agora, de proteger alguém em particular. Blina-se-se um estamento, uma congregação de indivíduos influentes. Os noticiosos informam que se interrelacionam à direita e à esquerda, que alcançam os três Poderes da República.

Então, os poderosos membros dos Poderes, sem causa digna, estão exercitando uma recorrente “causa” nacional: abafa, concilia por cima. A velha e viciada classe dominante está se reacomodando, compondo um acordo de silêncio.

Os poderosos pretendem, com algumas perdas, safar-se: o Executivo pensa em gerir-se sem sobressaltos até as eleições; o Legislativo espera se reafirmar nas urnas com grande repetição de seus quadros; suponho que o STF se refreará.

Uma surpresa, talvez, aguarde toda a gente metida nesse imbróglio em que se encontra a credibilidade da nossa vida institucional: alguns políticos, poucos ministros do Supremo, a Polícia Federal têm surpreendido positivamente.

A PF, que paira imaculada sobre as desditas nacionais, possui atribuições legais e operacionais bastantes para realizar investigações que podem "surpreender" a República, incluindo figuras de alto escalão. Que as use bem.