Quando a cultura vira rinha: Angústia, Ninho de Cobras e o mal-estar de ser artista em Maceió
Maceió já foi descrita pela literatura como um lugar de sufocamento e intriga, uma cidade onde as relações humanas parecem se organizar menos pela cooperação do que pela vigilância mútua, pelo ressentimento e pela disputa silenciosa. Não por acaso, dois romances centrais da tradição alagoana trazem títulos que funcionam como verdadeiros diagnósticos morais: Angústia (1935), de Graciliano Ramos, e Ninho de cobras (1973), de Lêdo Ivo. Em ambos, a capital não é apenas cenário, mas atmosfera: um espaço onde o convívio se deteriora, a palavra fere e a vida social se transforma em arena.
Essa chave literária ajuda a compreender o mal-estar persistente de ser artista em Maceió. Num meio marcado por escassez de oportunidades, concentração de recursos, disputas por visibilidade e reconhecimento, a convivência frequentemente degenera em beligerância simbólica. Circula entre artistas e produtores culturais a metáfora do “caranguejo alagoano”: aquele que, dentro do cesto, impede o outro de subir. Quando a cultura vira rinha, o talento deixa de ser apenas criação e passa a ser também sobrevivência – psicológica, material e reputacional.
É nesse contexto que um caso recente, envolvendo os músicos Abdon Neto e Rudson França, ambos integrantes da cena musical alagoana – especialmente do reggae, gênero historicamente associado a mensagens de paz, amor e fraternidade – ganhou dimensão pública e provocou forte comoção. O episódio refere-se à morte de Abdon, após uma queda de um edifício no bairro da Jatiúca, fato que está sendo investigado pelas autoridades, com versões distintas ainda em apuração. Rudson está preso sob suspeita de envolvimento no episódio, investigado pelas autoridades como possível caso de defenestração. Independentemente do desfecho jurídico, o caso expôs de maneira desconcertante as tensões latentes de um meio artístico atravessado por disputas, ressentimentos e fragilidades estruturais, projetando para o espaço público conflitos que, muitas vezes, permanecem no plano dos bastidores.
Se olharmos com mais atenção para a tradição cultural alagoana, perceberemos que esse mal-estar não nasce agora nem se explica apenas por conjunturas recentes. Ele atravessa décadas como uma espécie de doença crônica do convívio, agravada sempre que a arte deixa de ser espaço de encontro e passa a funcionar como campo de batalha. Em Angústia, o drama não é apenas individual: a obsessão, o ciúme e a paranoia do narrador se alimentam de uma cidade que oprime, observa e reduz. Já em Ninho de cobras, a metáfora é ainda mais explícita: Maceió aparece como um espaço de relações enviesadas, onde o medo, a intriga e o veneno moral se espalham com naturalidade inquietante.
Esse quadro ajuda a compreender por que, no meio artístico, conflitos tendem a se intensificar e a ganhar contornos quase tribais. A disputa por editais, palcos, cachês, reconhecimento institucional e visibilidade midiática cria um ambiente de competição permanente. Em vez de alianças duradouras, proliferam ressentimentos; em vez de debate público qualificado, surgem cochichos, fuxicos, intriguinhas, campanhas de desmoralização e guerras de reputação. Por isso, quando um conflito explode, ele raramente é apenas individual: carrega consigo todo um histórico de tensões acumuladas.
Há ainda um dado estrutural que agrava esse cenário: muitos artistas alagoanos só conseguem se realizar plenamente fora do Estado, mantendo com a terra natal uma relação ambígua de amor, dívida e afastamento. O percurso de Djavan é exemplar nesse sentido. Em sua obra – especialmente na canção Alagoas (1978) – o compositor traduz o dilema do artista que precisa partir para existir, mas que carrega a terra-mãe como ferida aberta e fonte permanente de criação. O canto aparece ali como destino e condenação: viver da arte é também aceitar o exílio simbólico, a incompreensão e a solidão.
Quando esse caldo cultural – feito de angústia, intriga, sabotagem e exílio – se combina a conflitos pessoais reais, o risco é que tudo transborde para o espaço público de maneira violenta, literal ou simbólica. A noção de defenestração – o ato de atirar alguém pela janela – entendida historicamente como o gesto extremo que transforma o conflito privado em espetáculo público, ajuda a pensar esse limite perigoso: o momento em que o diálogo se rompe e a queda – moral ou física – passa a ocupar o centro da cena.
Por isso, o debate público em torno de casos ainda em apuração, como o que envolve os “amigos” Abdon e Rudson, exige cuidado redobrado. Em ambientes onde a cultura já opera como rinha, a tentação do linchamento simbólico é grande – e quase sempre injusta. A palavra também mata: reputações, trajetórias, afetos e famílias inteiras podem ser empurradas para fora da janela do debate público antes que a verdade seja conhecida.
Há, portanto, um ponto de inflexão a ser encarado com seriedade. Quando a cultura se naturaliza como rinha, perde-se algo essencial: a dimensão pública do cuidado. O artista deixa de ser visto como trabalhador da sensibilidade e passa a ser tratado como adversário a ser neutralizado. Esse mecanismo é particularmente cruel em contextos periféricos, onde o campo cultural é estreito e as chances são poucas. A escassez intensifica o medo de perder espaço e legitima práticas que degradam o convívio.
A reflexão sobre casos concretos que envolvem artistas é necessária para não silenciar debates e recusar o prazer do julgamento antecipado. Talvez o desafio maior seja reimaginar o campo cultural como espaço de dissenso sem aniquilação, de conflito sem extermínio. Enquanto isso não acontece, a literatura e a música seguem nos lembrando do que somos capazes quando falhamos nesse pacto.
Não há receita pronta nem respostas fáceis, mas fica uma advertência: quando a cultura vira rinha, a violência deixa de ser exceção e passa a ser método. Nenhuma cidade que trate seus criadores dessa forma sai ilesa. A cultura pode – e deve – ser campo de disputa; não precisa, porém, transformar-se em arena de destruição, sobretudo quando aquilo que se canta é, historicamente, amor e paz.
(*) Doutor em Letras e Linguística, mestre em Sociologia, especialista em História de Alagoas, licenciado em Filosofia, Professor do Instituto Federal de Alagoas – Ifal, artista e produtor cultural alagoano.