ACOMPANHAMENTO

Eu já estava prestes a desistir”: metodologia faz professora reencontrar sentido na carreira

Especialista aponta que formação continuada e acompanhamento pedagógico são caminhos para enfrentar a desmotivação na carreira

Por Algo Mais Comunicação Corporativa Publicado em 10/09/2026 às 16:18
Professora Gilvânia de Lima

Uma pesquisa nacional mostrou que 53% dos entrevistados defendem melhores condições de trabalho para os docentes, enquanto 37% apontam a necessidade de melhorar a formação dos professores. Outro levantamento revelou que, até 2040, o Brasil poderá enfrentar uma carência de 235 mil professores da educação básica. Diante desse cenário, uma metodologia implantada na rede pública de Maceió vem sendo apontada como um divisor de águas por docentes que já pensaram em desistir da carreira.

A professora Gilvânia de Lima atua na Educação Infantil dos Gigantinhos, no conjunto Novo Jardim, no bairro Cidade Universitária, parte alta de Maceió. O sorriso no rosto nem parece o de alguém que já pensou em fazer uma transição de carreira.

Depois de experiências que ela mesma define como frustrantes em outras instituições públicas e privadas, a professora conta que estava prestes a abandonar a profissão. “Eu já estava prestes a desistir da minha carreira de professora”, afirma. Pedagoga com pós-graduação em ensino de língua inglesa, Gilvânia diz que se sentia limitada por modelos tradicionais, baseados, segundo ela, em “livro, livro e mais livro”.

Com a metodologia Systemic Bilingual, implantada nos Gigantinhos Bilíngues em parceria com a Secretaria Municipal de Educação (Semed), a maceioense encontrou uma proposta diferente, voltada para experiências, brincadeiras e interação. Hoje, afirma ter reencontrado sentido no trabalho ao perceber os resultados no aprendizado das crianças: “Não é só salário e ter os melhores materiais, eu quero ver resultado e ser feliz com aquilo que eu faço. E hoje eu digo que eu sou muito feliz”.

Do suporte pedagógico à reconstrução da prática


Anatevka Guedes é mestre em Educação pela Universidade de Framingham (EUA) e gerente acadêmica da Systemic Bilingual. Ela explica que o impacto de uma metodologia não deve ser medido apenas pelo desenvolvimento dos estudantes. “Existe também uma transformação muito profunda acontecendo na trajetória dos professores”, explica.

A especialista pontua que a proposta oferece formação, acompanhamento e oportunidades para que o educador reflita sobre a própria prática e reconstrua sua atuação como professor bilíngue. “Entre planejamento, materiais, formação e parceria, o suporte oferecido ao docente pode representar não apenas uma melhoria na aula, mas a oportunidade de recuperar a confiança e o propósito de ensinar”, afirma Anatevka.

Essa mudança também passa pelo acompanhamento constante. De acordo com Anatevka, a formação inicial e continuada, a assessoria pedagógica e os momentos de reflexão sobre o planejamento ajudam o professor a reconhecer novas possibilidades. “Não é só formar um educador bilíngue, mas também potencializar para que o professor acredite no próprio potencial”, destaca.

Na prática, Gilvânia percebe essa transformação dentro e fora da escola. Durante uma feira cultural, uma mãe relatou que o filho havia incorporado palavras em inglês ao cotidiano da família. “Lá em casa não é mais amarelo, é yellow, não é mais maçã, é apple”, contou a responsável à professora.

Gilvânia afirma que experiências como essa confirmam que a aprendizagem acontece de forma significativa quando as crianças participam e se envolvem com o conteúdo. O caso mostra, na prática, como uma metodologia pode ultrapassar a função de organizar conteúdos e transformar a relação do educador com a profissão. “Acredite em você”, aconselha a professora que quase desistiu da Pedagogia e hoje se diz realizada.

Systemic Bilingual


A metodologia adotada em Maceió foi desenvolvida há 25 anos e está presente em mais de 150 escolas privadas do país. Após os resultados obtidos na primeira instituição pública, no município do Pilar, o modelo também foi implantado na capital alagoana e nos municípios de União dos Palmares, Cajueiro, Paripueira e São Miguel dos Campos.

Em Pernambuco, a primeira unidade a implantar o método foi uma escola do município de Canhotinho. Na Bahia, a metodologia chegou ao município de Luiz Eduardo Magalhães. A expansão já alcançou o Sudeste, com a implantação em Belo Horizonte, Araguari e Perdigão, em Minas Gerais.

Sobre as pesquisas


A pesquisa nacional “O que a população pensa sobre a educação 2026” foi realizada pelo Instituto Ideia e encomendada por um grupo de fundações, como Itaú, Natura e Todos pela Educação. Entre os diversos temas abordados, os 20 mil entrevistados foram questionados sobre quais deveriam ser as principais prioridades da educação para os próximos anos.

Já o levantamento sobre a carência de docentes foi divulgado pelo Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp) e é intitulado “Risco de apagão de professores no Brasil”. O estudo foi elaborado a partir de dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão vinculado ao Ministério da Educação.