MACEIÓ

Seis minutos sob questionamento: prontuário de bebê que morreu no Hospital da Cidade levanta novas dúvidas

Reportagem do jornalista Wadson Correia analisa documento entregue à família de Nícolas Ravi e aponta divergências de horários, falhas de comunicação entre equipes e registros diferentes sobre tempo de reanimação; bebê viveu apenas 22 minutos

Por Redação Publicado em 27/08/2026 às 08:34
Wadson Correia revela novos fatos acerca de morte de bebê em hospital gerido pela prefeitura de Maceió

Novos elementos sobre a morte do bebê Nícolas Ravi, ocorrida no Hospital da Cidade, em Maceió, ampliaram os questionamentos sobre o atendimento prestado à mãe e ao recém-nascido. Em reportagem divulgada nas redes sociais, o jornalista Wadson Correia apresentou informações que, segundo ele, constam no prontuário médico finalmente entregue à família e que precisam ser esclarecidas pela unidade de saúde administrada pela Prefeitura de Maceió.


Nícolas Ravi morreu no dia 3 de agosto, depois de nascer prematuramente na área de recepção do Hospital da Cidade. A mãe, Morgana Lopes, de 21 anos, estava com aproximadamente 24 semanas de gestação. Familiares afirmaram, desde o primeiro momento, que ela aguardava atendimento quando entrou em trabalho de parto e que o bebê caiu no chão durante o nascimento. O caso já havia levado o próprio hospital a anunciar a abertura de procedimento interno de apuração.


Agora, segundo a reportagem de Wadson, o prontuário acrescenta informações que tornam necessária uma explicação mais detalhada sobre o que ocorreu dentro do hospital.
Seis minutos entre o nascimento e a UTI


Um dos principais pontos levantados pelo jornalista está na sequência dos horários registrados.


De acordo com o documento apresentado na reportagem, o nascimento de Nícolas Ravi teria ocorrido às 17h10, na recepção/triagem do Hospital da Cidade. A entrada do recém-nascido na UTI Neonatal aparece registrada às 17h16.
São, portanto, seis minutos entre o nascimento e a chegada à unidade intensiva.

O intervalo chama atenção porque, conforme a leitura feita por Wadson do prontuário, o bebê teria chegado à UTI em estado extremamente grave, apresentando registros de cianose, palidez, ausência de sinais vitais ou parada cardiorrespiratória. O documento também mencionaria sangramento no coto umbilical e ausência de clampe, além de hematomas na cabeça, apontados na reportagem no contexto da queda sofrida durante o parto.


A família questiona justamente o que aconteceu nesse intervalo e se os horários registrados correspondem com precisão à sequência real dos acontecimentos.


Pediatras não teriam sido avisadas do nascimento


Outro ponto considerado grave pela reportagem está relacionado à comunicação entre as equipes do hospital.


Segundo Wadson Correia, o prontuário indicaria que as pediatras que estavam de plantão não foram comunicadas imediatamente sobre o nascimento de Nícolas na recepção.


A informação, caso confirmada nos registros e na apuração interna, levanta questionamentos sobre o fluxo de emergência do Hospital da Cidade, especialmente porque se tratava de um parto extremamente prematuro ocorrido dentro da própria unidade hospitalar, que possui maternidade e UTI Neonatal.


A Prefeitura informa oficialmente que a maternidade do Hospital da Cidade atende gestantes de baixo e alto risco e dispõe de equipe multiprofissional 24 horas. A estrutura da unidade inclui UTI Neonatal, e a própria administração municipal apresenta o serviço como preparado para assistência obstétrica de maior complexidade.
A questão central levantada pela reportagem é, portanto, como um recém-nascido em situação crítica poderia nascer dentro da unidade sem que a equipe neonatal fosse avisada imediatamente.


Prontuário apontaria ausência de berço aquecido


O documento analisado por Wadson também registraria que não havia berço aquecido na triagem no momento em que ocorreu o parto.


Em um nascimento extremamente prematuro, a informação passa a integrar o conjunto de circunstâncias que precisam ser analisadas pelas autoridades responsáveis pela investigação do caso, sem que, neste momento, seja possível estabelecer isoladamente uma relação de causa e efeito entre qualquer dessas ocorrências e o óbito.


Há ainda, segundo a reportagem, uma divergência quanto ao tempo destinado às manobras de reanimação do recém-nascido.


Um trecho do prontuário mencionaria cerca de 10 minutos de reanimação, enquanto outro registro faria referência a três minutos.


A diferença é apontada pela família e pelo jornalista como mais um ponto que necessita de esclarecimento técnico.


22 minutos entre o nascimento e a morte


O horário do óbito teria sido registrado às 17h32. Considerando o nascimento às 17h10, Nícolas Ravi viveu apenas 22 minutos.


A duração de 22 minutos entre nascimento e morte já havia sido relatada em cobertura jornalística anterior do caso. Também foi divulgado que o bebê nasceu com prematuridade extrema.


O caso está sob investigação da Polícia Civil e, segundo informações publicadas anteriormente, também passou a ser acompanhado por órgãos profissionais diante das denúncias relacionadas ao atendimento.


Wadson cobra explicações do Sinmed e da coordenação de Obstetrícia


A reportagem também direciona questionamentos à médica Sílvia Melo, que acumula posições de destaque na área.


Sílvia é presidente do Sindicato dos Médicos de Alagoas (Sinmed/AL) e é apresentada pela própria Prefeitura de Maceió como coordenadora da Obstetrícia do Hospital da Cidade.


Diante disso, Wadson questiona quais providências foram adotadas tanto pela coordenação de Obstetrícia quanto pelo Sindicato dos Médicos após a morte do bebê.


O jornalista lembra que o Sinmed costuma se manifestar publicamente sobre problemas registrados em outras unidades de saúde e defende que o mesmo rigor de fiscalização seja empregado diante de um episódio ocorrido no Hospital da Cidade.


Na avaliação apresentada por Wadson, a transparência e a fiscalização não podem depender da instituição envolvida. Ele cobra explicações sobre eventuais falhas no fluxo de atendimento, na comunicação entre profissionais e sobre as divergências presentes nos registros médicos.


Hospital já havia anunciado apuração interna


Logo após o episódio, o Hospital da Cidade afirmou que Morgana Lopes foi acolhida e submetida aos procedimentos previstos nos protocolos assistenciais. Segundo a unidade, a gestante apresentou rápida evolução para o trabalho de parto enquanto ainda estava no processo de triagem.


A direção informou também que havia equipe completa de plantão e anunciou a abertura de um procedimento para “apuração rigorosa dos fatos” e adoção das medidas administrativas cabíveis.


As novas informações apresentadas a partir do prontuário, entretanto, colocam outros pontos concretos na discussão e tornam importante que a Prefeitura de Maceió esclareça se o procedimento interno já foi concluído, o que foi constatado e quais providências eventualmente foram adotadas.


Até o momento da consulta às fontes públicas disponíveis, não foi localizado um posicionamento específico da Prefeitura sobre as divergências do prontuário agora levantadas pela reportagem.


Mais de três semanas após a morte de Nícolas Ravi, a discussão já não se limita ao fato de um parto extremamente prematuro ter ocorrido na recepção. Os horários, os registros médicos, a comunicação entre as equipes e as condições disponíveis no momento do nascimento passaram a integrar a lista de perguntas que precisam de respostas.