PESQUISA

Pesquisadores da Ufal seguem com ações de monitoramento do peixe-leão

Na última semana, dois peixes-leão de porte pequeno foram coletados no município de Piaçabuçu

Publicado em 14/08/2026 às 10:22
Peixe-leão capturado por pescadores

Docentes e estudantes da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) em Penedo continuam o trabalho de monitoramento do peixe-leão, uma espécie invasora que se reproduz facilmente e que apresenta elevada capacidade predadora de peixes, crustáceos e moluscos nativos.

Na última semana, dois peixes-leão de porte pequeno foram coletados no município de Piaçabuçu, no extremo sul de Alagoas, ambos na região do Pontal do Peba. Um dos exemplares foi capturado acidentalmente durante a pesca do camarão, utilizando rede de arrasto de fundo. O outro foi encontrado em uma piscina natural, em 0,5 m de profundidade, ambiente frequentado por banhistas, pescadores amadores e turistas.

“A ocorrência em águas rasas de piscinas naturais chama atenção não apenas pelos possíveis impactos sobre a fauna nativa, mas também pelo risco de acidentes com turistas, pescadores e banhistas. A presença da espécie em áreas de pesca também representa uma preocupação para atividades econômicas importantes, como a pesca e o turismo”, alerta Cláudio “Buia” Sampaio, pesquisador que é referência na área de conservação e em projetos de ajudam a reduzir os impactos negativos causados pelo peixe-leão.

Segundo Sampaio, em Alagoas, diversos registros já foram realizados de norte a sul do estado. Os animais foram encontrados tanto em ambientes recifais e naufrágios, capturados com arpão e redes, quanto em fundos de lama, onde alguns indivíduos foram capturados incidentalmente por redes de arrasto utilizadas na pesca do camarão.

Profissionais aptos para trabalhar com espécies invasoras

Parte dos exemplares do peixe-leão foi encaminhada ao Laboratório de Ictiologia e Conservação (LIC) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) em Penedo, unidade de pesquisa coordenada por “Buia”.

No laboratório, pesquisadores e professores dos cursos de Engenharia de Pesca e licenciatura em Ciências Biológicas desenvolvem estudos sobre diferentes aspectos da biologia e da ecologia da espécie, incluindo alimentação, parasitas, microbiologia, contaminantes, reprodução e possibilidades de aproveitamento da sua carne e couro. O objetivo é ampliar o conhecimento sobre a espécie e contribuir para estratégias de monitoramento e manejo.

Além do ensino, pesquisa e extensão, o LIC tem investido na aquisição de equipamentos e na formação de futuros profissionais preparados para atuar com espécies invasoras.

“A equipe do LIC tem dedicado esforços ao monitoramento e ao manejo do peixe-leão. Entre as ações estão a participação em reuniões técnicas, capacitações e atividades voltadas à comunicação e construção de estratégias e políticas públicas para o enfrentamento da espécie invasora no Brasil”, informa o pesquisador.

Sampaio explica que uma das linhas de trabalho busca avaliar também possibilidades de aproveitamento econômico do peixe-leão, incluindo o consumo de sua carne e o aproveitamento da pele. “Essas iniciativas são desenvolvidas em parceria com a professora Juliet Xavier, do curso de Engenharia de Pesca da Ufal Penedo, e podem contribuir para estratégias de manejo que associem conservação da biodiversidade, segurança e geração de alternativas econômicas”, detalha.

Para os pesquisadores, o enfrentamento da invasão depende da participação de diferentes setores da sociedade. Pescadores, mergulhadores, operadores de turismo, pesquisadores, gestores públicos e consumidores de pescado podem contribuir para o monitoramento e a identificação de novos registros.

“A participação da sociedade é especialmente importante em Alagoas, onde a pesca artesanal e o turismo associado às piscinas naturais representam atividades econômicas relevantes e diretamente relacionadas aos ambientes que podem ser ocupados pelo peixe-leão”, destaca.

“Buia” orienta que, em caso de captura acidental ou observação de um peixe-leão, a recomendação é não tocar no animal e evitar qualquer tentativa de captura sem treinamento e equipamentos adequados. O registro deve ser comunicado, o mais rapidamente possível, aos órgãos ambientais competentes, instituições de pesquisa, universidades, projetos de conservação ou gestores públicos da região.

Anotar informações sobre local, data, profundidade e, quando possível, fotografias do animal também podem ajudar pesquisadores e gestores a acompanhar a expansão da espécie e definir medidas de manejo.

“O avanço do peixe-leão pelo litoral brasileiro reforça a importância da ciência, da educação ambiental e da participação da sociedade para compreender e reduzir os impactos de uma das mais preocupantes espécies invasoras dos ambientes marinhos brasileiros”, ressalta o pesquisador.

Parcerias

O trabalho realizado na Ufal envolve uma rede de instituições e pesquisadores em diferentes regiões. Em Fernando de Noronha, há parcerias com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Projeto Conservação Recifal. Em Sergipe, as pesquisas são desenvolvidas com a Universidade Federal de Sergipe (UFS), por meio do Projeto Martes. Na Bahia, as ações contam com a participação de instituições como o Governo do Estado, a Pró-Mar e a Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Saiba mais sobre o peixe-leão

Originário do Indo-Pacífico, o peixe-leão (Pterois volitans) é uma das espécies invasoras que mais preocupam pesquisadores e gestores ambientais no Atlântico. A espécie chegou ao oceano Atlântico a partir de introduções associadas ao comércio de aquarismo, especialmente na região da Flórida (EUA), a partir das décadas de 1980 e 1990. Desde então, vem ampliando rapidamente sua distribuição e ocupando diferentes ambientes marinhos.

“Considerado uma espécie invasora de elevado impacto ecológico, o peixe-leão reúne características que favorecem sua expansão. Na região invadida, não possui predadores naturais, tem crescimento rápido, alcança a maturidade sexual em torno de 18 meses e pode se reproduzir ao longo de todo o ano, liberando milhares de ovos. Além disso, é um predador voraz, alimentando-se de peixes e crustáceos nativos, podendo alterar a dinâmica das comunidades marinhas”, esclarece “Buia”.

Outro fator que exige atenção é sua capacidade de causar acidentes. O peixe-leão é uma espécie peçonhenta: seus longos espinhos nas nadadeiras podem inocular veneno, provocando dor intensa e outros efeitos que exigem atendimento médico.

No Brasil, o peixe-leão já foi registrado desde o Amapá até o extremo sul da Bahia, incluindo as ilhas oceânicas do Atol das Rocas e o Arquipélago de Fernando de Noronha, além de diferentes ambientes costeiros e recifais.