MACEIÓ É MASTER

PF investiga presidente do Iprev por ofício que teria tentado validar retroativamente aporte milionário no Master

Guilherme Lanzillotti afirmou à Polícia Federal que banco estava plenamente elegível quando recebeu recursos do instituto; PF diz que informação é incorreta e apura suspeita de “favorecimento real”

Publicado em 10/08/2026 às 17:24
Guilherme Emmanuel Lanzillotti Alvarenga

Um ofício assinado em 2026 pelo atual presidente do Iprev de Maceió, Guilherme Emmanuel Lanzillotti Alvarenga, tornou-se uma das peças mais sensíveis da investigação da Polícia Federal sobre os investimentos milionários realizados pelo instituto no Banco Master.
O Ofício nº 212/2026, encaminhado à própria Polícia Federal, informou oficialmente que o Banco Master estava plenamente elegível e integrava a chamada “lista exaustiva” do Ministério da Previdência na época em que o Iprev realizou as aplicações investigadas.
A Polícia Federal sustenta, entretanto, que essa informação é incorreta, pelo menos em relação ao primeiro e maior aporte: R$ 80 milhões transferidos para Letras Financeiras do Master em 6 de dezembro de 2023.
Segundo a investigação reproduzida na decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, o Banco Master não constava da relação de instituições elegíveis naquela data. A inclusão teria ocorrido somente em 2024, depois de o dinheiro do Iprev já ter sido aplicado.
A divergência colocou o atual presidente do instituto formalmente no rol de investigados.

Documento dizia que Master estava habilitado


Ao responder oficialmente à investigação, Guilherme Emmanuel afirmou que o Banco Master estava plenamente elegível para receber recursos previdenciários no período das operações.
Na prática, a informação apresentada no Ofício nº 212/2026 servia para sustentar a regularidade do credenciamento da instituição financeira perante o Iprev.
Mas a Polícia Federal reconstruiu a cronologia das atualizações da relação do Ministério da Previdência e chegou a uma conclusão diferente.
Segundo a decisão de André Mendonça, a PF identificou que o Master somente teria passado a integrar a denominada “lista exaustiva” depois do aporte de R$ 80 milhões realizado pelo Iprev em 2023.
Esse descompasso temporal é exatamente o que colocou o ofício sob suspeita.

PF suspeita de “regularidade retrospectiva”


A expressão utilizada no processo é particularmente grave.
A Polícia Federal investiga se a resposta oficial assinada pelo atual presidente do Iprev buscou conferir uma “regularidade retrospectiva” às decisões anteriores.
Ou seja: os investigadores querem saber se um documento produzido em 2026 teria sido utilizado para tentar dar aparência de conformidade a uma operação realizada em dezembro de 2023, quando, segundo a própria PF, o Banco Master ainda não preenchia aquela condição de elegibilidade.
A decisão registra expressamente que a autoridade policial considera incorreta a informação prestada no ofício, “ao menos” quanto à operação inicial de R$ 80 milhões, e investiga se a resposta buscou validar posteriormente as decisões tomadas no passado.
Não se trata, portanto, de uma discussão meramente burocrática sobre uma data.
A questão central para os investigadores é saber por que o Iprev informou oficialmente à Polícia Federal que o banco estava habilitado em 2023 se a documentação examinada pela própria PF aponta que essa habilitação somente ocorreu no ano seguinte.

Atual presidente passou a ser investigado


A decisão de André Mendonça deixa claro que Guilherme Emmanuel não é investigado por ter participado originalmente das aplicações.
Ele assumiu a presidência do instituto posteriormente.
Sua inclusão na investigação decorre especificamente de um fato posterior aos investimentos, diretamente relacionado, segundo a Polícia Federal, à preservação e à compreensão das provas: a assinatura do Ofício nº 212/2026.
Foi esse documento que levou os investigadores a questionarem não apenas a informação transmitida, mas também como ela foi produzida.
A PF queria descobrir quais fontes foram consultadas, quem elaborou o texto, quem o revisou, se existiram versões preliminares, quais mensagens foram trocadas durante sua preparação e se houve algum tipo de orientação externa para a elaboração da resposta.
Essa linha de apuração abre uma pergunta ainda mais ampla: o atual presidente produziu sozinho aquela informação ou recebeu de outras pessoas a versão segundo a qual o Banco Master estava regularmente habilitado desde 2023?

Suspeita de “favorecimento real”


O ponto mais contundente aparece no parecer da Procuradoria-Geral da República reproduzido na decisão do STF.
Ao relatar os fundamentos apresentados pela Polícia Federal, a PGR informa que Guilherme Emmanuel foi descrito pela autoridade policial como “suspeito da prática de favorecimento real”.

A suspeita decorre, segundo a PF, da prestação de informações consideradas incorretas em ofício encaminhado à própria autoridade policial com o objetivo, na hipótese investigativa, de validar as operações realizadas em 2023.
A Polícia Federal também destacou que o atual presidente não teria apresentado nem mencionado auditoria independente realizada no fundo previdenciário com o objetivo de esclarecer as circunstâncias que levaram aos aportes no Banco Master.
Assim, a investigação busca saber não apenas se a informação do ofício estava errada, mas se sua produção teve a finalidade consciente de proteger ou beneficiar atos praticados anteriormente por outros agentes.

Essa hipótese, contudo, ainda precisa ser comprovada.


STF negou busca contra Guilherme


Apesar de a Polícia Federal ter incluído Guilherme entre os investigados e solicitado autorização para realizar busca e apreensão contra ele, o ministro André Mendonça negou a medida.
O ministro acompanhou a manifestação da Procuradoria-Geral da República, que considerou ainda insuficientes os elementos disponíveis para justificar uma providência invasiva dessa natureza.
Segundo a PGR, faltavam “elementos de maior solidez” capazes de comprovar a ciência e a participação do atual presidente nos ilícitos investigados.
André Mendonça adotou esse entendimento e indeferiu a busca contra Guilherme.
Isso significa que existem duas situações que precisam ser distinguidas.
Guilherme Emmanuel permanece investigado pela Polícia Federal, inclusive pela hipótese de favorecimento real relacionada ao Ofício nº 212/2026.
Por outro lado, o STF entendeu que os elementos existentes até agora não eram suficientes para autorizar busca e apreensão contra ele.
O dispositivo da decisão é expresso ao negar as buscas contra Guilherme e contra Francy Sthephany Sobreiro Barbosa de Souza, enquanto autorizou as diligências contra outros seis investigados e nas sedes do Iprev e da Crédito & Mercado.

Ofício passa a ser peça-chave


A partir da decisão de André Mendonça, o Ofício nº 212/2026 deixa de ser apenas uma resposta administrativa e passa a ocupar posição central em uma das linhas da investigação.
A Polícia Federal pretende esclarecer quem produziu a informação, de onde vieram os dados utilizados, por que o documento afirmou que o Master estava habilitado em 2023 e se houve intenção de conferir posteriormente aparência de regularidade à operação de R$ 80 milhões.

O caso ganha ainda mais relevância porque o documento foi elaborado quando as aplicações no Banco Master já eram objeto de questionamentos e investigações.
Se a cronologia apontada pela PF estiver correta, o Master não preenchia, no momento do primeiro aporte, a condição que o próprio Iprev viria a afirmar oficialmente à Polícia Federal três anos depois.
Agora, caberá à investigação esclarecer se houve apenas um erro na informação prestada ou se, como suspeita a Polícia Federal, o documento fez parte de uma tentativa deliberada de validar retroativamente uma operação cuja regularidade já estava sob questionamento.
Guilherme Emmanuel não foi condenado e a suspeita de favorecimento real permanece em fase de investigação. O próprio STF considerou insuficientes os elementos existentes para autorizar busca e apreensão contra o atual presidente nesta etapa do inquérito.