Do avanço na medicina ao uso único: pesquisador alerta sobre o acúmulo de plástico
Robson Santos destaca que, para reduzir a poluição por plástico, é preciso encarar o problema da produção até o descarte, além de conscientizar acerca do uso indiscriminado
Canudos, utensílios domésticos, móveis, brinquedos e uma infinidade de produtos. O plástico modificou a forma de consumo humano, trazendo facilidade na rotina e também um acúmulo nocivo na paisagem natural. Levando, no mínimo, cerca de 200 anos para se decompor na natureza, a presença desse material em lugares antes inimagináveis tem chamado atenção de pesquisadores em todo o mundo. Em 2011, na Austrália, a Plastic Free Foundation deu origem ao movimento global “Julho sem Plástico” para conscientizar acerca do problema.
A temática também é alvo de estudos na Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Em junho deste ano, o pesquisador Robson Santos, do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS) e integrante do Laboratório de Ecologia e Conservação no Antropoceno (Ecoa Lab), publicou o artigo The effects of plastic pollution on biodiversity (“Os efeitos da poluição por plásticos na biodiversidade”, em tradução livre), elaborado em parceria com estudiosos de diversos países.
O trabalho é capa da edição de julho da Nature Reviews Biodiversity, que integra o prestigiado grupo Nature Portfolio. Para conferir, acesse aqui . “O plástico é um material que revolucionou a produção de diversos objetos por ser facilmente moldável, leve e resistente. Em áreas como a medicina, ele ajudou a reduzir riscos de contaminação, aumentou a segurança de procedimentos médicos e contribuiu para avanços importantes na saúde pública”, explica Robson.
No entanto, essas mesmas características úteis, salienta o docente, têm tornado esses materiais um grave problema ambiental. “Pegamos um produto resistente e leve e passamos a utilizá-lo para fabricar, em massa, objetos descartáveis e de uso único, o que rapidamente favoreceu seu acúmulo e dispersão no ambiente”, afirmou.
Os efeitos na natureza são visíveis e contáveis: acúmulo de resíduos plásticos em mares, rios e matas, alterando totalmente a paisagem, além da quantidade cada vez maior de animais encontrados mortos ou com a vivência afetada por ter tido contato com algum material plástico em seu ambiente natural. “Hoje, já temos diversos estudos mostrando o impacto do plástico sobre a biodiversidade, seja por mortalidade direta causada pela obstrução do trato digestivo, seja por impactos crônicos à saúde, como danos celulares, alterações no desenvolvimento, no crescimento e na reprodução. Alguns estudos já sugerem que as atuais taxas de ingestão de plástico podem levar ao colapso de algumas populações. Dessa forma, a poluição por plástico já é considerada uma importante ameaça à biodiversidade”, afirma.
Nesse contexto, o pesquisador chama atenção para as espécies já ameaçadas de extinção e cujas populações vivem em locais com altas concentrações de plástico, uma vez que podem ser ainda mais afetadas. “A exposição ao plástico e seus impactos dependem não apenas da quantidade presente no ambiente, mas também de uma série de características biológicas e ecológicas das espécies, como seus hábitos alimentares, comportamento de forrageamento, habitat e capacidade de distinguir alimento de plástico. Dessa forma, algumas espécies são naturalmente mais suscetíveis à ingestão e aos efeitos do plástico do que outras”, esclarece.
E acrescentou: “Atualmente, estamos elaborando uma proposta para apresentar ao estado de Alagoas para o desenvolvimento de um plano de combate à poluição por plástico, para que possamos desenvolver medidas baseadas em evidência que levem a redução deste grave problema no nosso estado”.
Mudança na produção e no consumo
Em dados mais atuais, informa o pesquisador, a produção global de plástico ultrapassa 516 milhões de toneladas por ano, sendo que 40% desse montante é de material de uso único. O Brasil ocupa o quarto lugar no ranking mundial de maiores geradores de lixo plástico. “O plástico está em todo lugar, desde o ponto mais profundo do oceano até o topo da montanha mais alta do planeta. Ele não está presente apenas na terra, nos rios e nos mares, mas também no ar que respiramos, nos alimentos que consumimos e na água que bebemos. O plástico, principalmente quando em partículas menores, que chamamos de microplásticos, é onipresente. Dessa forma, as vias de exposição ao plástico, tanto para a biodiversidade quanto para os seres humanos, são múltiplas”, explica Robson.
Ao apontar as soluções possíveis, o pesquisador da Ufal destaca que não basta apenas fazer a destinação correta do lixo para reciclagem. “Para se ter uma ideia do problema, nós queimamos mais plástico do que reciclamos no mundo. No mundo todo, menos de 10% do plástico é reciclado. No Brasil, esses números ficam em torno de 1%. Além disso, quando reciclamos o plástico, comumente o que ocorre é ‘downcycling’, ou seja, a reciclagem leva a um produto de menor valor que o original”, detalha.
Como exemplo desse processo, ele cita o que ocorre com a garrafa plástica que, quando reciclada, dificilmente vira uma outra garrafa semelhante, a não ser que seja adicionado mais plástico virgem ou mais aditivos químicos na produção. O pesquisador ainda esclarece que a mistura de outros materiais, difícil reciclagem de alguns polímeros e a falta de infraestrutura para o processo acabam tornando a maioria das embalagens plásticas “apenas potencialmente recicláveis”.
“A destinação correta e a reciclagem são ações importantes, mas, para redução da poluição por plástico precisamos encarar o problema desde a produção até o descarte. Precisamos reduzir a produção e o seu uso indiscriminado. Um material que dura centenas de anos não pode ser produzido para ser usado apenas uma vez. Nós precisamos também diminuir a produção dos plásticos problemáticos, pois nem todo plástico é igual. Os polímeros diferem em seu potencial de reciclabilidade assim como nos impactos potenciais à saúde humana e à biodiversidade”, ressalta.
Ao reconhecer a importância do material de qualidade e a utilidade do seu uso, tal como na medicina, o pesquisador afirma que são necessárias políticas públicas que favoreçam uma economia circular e com produtos que sejam menos nocivos à saúde humana e ao meio ambiente. “A poluição por plástico é um problema grave, crônico e onipresente, e que precisa ser encarado com seriedade. Precisamos, sim, das ações individuais. Apesar de sozinhas não solucionarem os problemas da poluição por plástico, são iniciativas que têm impacto”, comenta.
E destaca: “Se você pensar que uma única unidade a mais de plástico flexível por metro quadrado na praia, aumenta em mais de 100x a quantidade de plástico ingerido pelas tartarugas, isso pode te fazer pensar duas vezes antes de pegar uma sacola plástica no mercado ou comprar produtos que geram rapidamente lixo plástico, como sacos de biscoito e salgadinhos ou refrigerantes. Muito da mudança que desejamos pode e deve começar com as pequenas atitudes, e hoje temos um excesso no uso do plástico e está ao alcance de praticamente todas as pessoas a redução do seu consumo e a destinação mais adequada dele”.