Lalacra Nox celebra 12 anos de trabalho com foco em respeito e transformação social em Alagoas
Criada pelo artista Allef Willames, drag Lalacra vem se consolidando dentro e fora da comunidade LGBTQIA+ com bom humor, irreverência e autenticidade
Há diversos significados no número 12, especialmente em culturas, religiões e celebrações. Na astrologia e na numerologia, o doze simboliza a plenitude, o equilíbrio, a harmonia e o encerramento de ciclos. No candomblé, por exemplo, o número expressa a justiça e a ordem. Doze anos também é um período que pede comemoração, pois indica que alguém está alcançando uma espécie de evolução e criando raízes com seus projetos de vida.
É o que tem acontecido com o artista alagoano Allef Willames, de 28 anos, que, em Maceió e em outras cidades, se projeta como a personagem drag Lalacra Nox. Ele vem se destacando por seu bom humor, comédia, autenticidade e compromisso com a arte. Seu trabalho como Lalacra completará 12 anos no próximo sábado (25) e trilhará um caminho de celebração e respeito às conquistas.
Formado em Arte Dramática pela Escola Técnica de Artes (ETA-Ufal), Allef se consolidou como Lalacra Nox para além de festas noturnas e boates, tornando-se um exemplo vivo de perseverança na arte drag alagoana e uma ferramenta de transformação social dentro e fora da comunidade LGBTQIA+.
"Uma das maiores conquistas que tive como Lalacra foi conquistar respeito e credibilidade. Hoje, quando alguém procura uma drag em Maceió, sou uma das mais lembradas. O próprio Instagram acaba me indicando como uma das drags mais relevantes do estado. Em algumas pesquisas, apareço entre o segundo e o terceiro lugar. É muito gratificante ver esse reconhecimento construído ao longo de 12 anos", destacou o transformista.
Com mais de 22 mil seguidores no Instagram e mais de 1 milhão de visualizações, Lalacra se destaca por onde passa, conquistando até um lugar no Gongada Drag Nordeste — um dos maiores eventos de arte drag do Brasil, que realizou uma turnê em Alagoas e em outros estados em janeiro deste ano. O artista também criou o Confradrag, evento que celebra a arte transformista no estado com a participação de drags novas e antigas.
Lalacra é a principal fonte de renda de Allef, que vive inteiramente da arte drag, da internet e de edição de vídeos, sendo contratado para casamentos, festas infantis, comemoração de solteiros, festivais e eventos drag.
"Sempre fiz questão de doutrinar as pessoas ao meu redor de que isso é meu trabalho. Costumo dizer que, embora algumas pessoas façam drag por hobby, eu faço por profissão. Por isso, peço respeito ao meu material, ao que empresto, ao meu tempo e ao meu trabalho. Não faço apresentação de graça e sempre tratei minha arte com muita seriedade."
Trajetória como transformação
Entre a maquiagem, a coxia e o tablado de madeira, o artista também faz um ritual de entrada: reverencia sua ancestralidade, pede proteção e coragem para que consiga transmitir sua mensagem, bem como tocar pelo menos uma pessoa através de seu trabalho. "Sou uma pessoa do axé, candomblecista, respeito todas as religiões e procuro conduzir minha caminhada pautado pelo respeito", afirmou.
Segundo ele, a trajetória na arte teve início em 2013, quando participou da Companhia S.O.S Sorriso, grupo teatral periférico do bairro Jacintinho, para atuar na peça Paixão de Cristo. Lá mesmo, conheceu alguns artistas que interpretavam a personagem "Nega Maluca" para fazer animação nas portas das lojas do Centro de Maceió. Entre eles estava Gina Kynnors, que também trabalhava como drag queen. "Quando conheci a Gina, fiquei encantado. Pensei: 'É esse tipo de arte que eu quero fazer. Quero levar alegria, humor, extravagância'", contou.
Na época, Allef tinha 15 anos, ninguém queria contratá-lo para trabalhar em lojas e, segundo ele, não havia quem acreditasse em seu potencial. Por ser uma pessoa de baixa estatura, acreditava que era descredibilizado. "As pessoas me julgavam pelo meu tamanho e, como ninguém me conhecia, eu precisava meter a cara e fazer acontecer por conta própria."
Foi a partir desse período que o artista começou animando festas de amigos e colegas, a princípio como um hobby. Sua drag se chamava Noxeema Jackson, em homenagem à personagem icônica do filme "Para Wong Foo, Obrigada por Tudo! Julie Newmar", interpretada por Wesley Snipes. Allef queria que sua drag fosse exatamente como aquela personagem: negra, engraçada, caricata, mas cheia de personalidade.
No início, Gina ajudou Allef na produção de sua drag. Alguns anos se passaram e o artista conheceu outras pessoas da cena drag, como Lavínia Burtner (mãe drag), Pantala Butterfly e Paty Maionese, entre outras, que também foram suas referências. O atual nome da drag de Allef surgiu depois que Pantala sugeriu nomes fáceis de identificação — já que ele também queria animar eventos e festas do público heterossexual —, e um deles foi "Lalacra". O "Nox" faz alusão ao antigo nome, "Noxeema".
A maior inspiração para Lalacra foi Lavínia Burtner, por ser uma drag engraçada, mas ao mesmo tempo bonita, e sempre com um diferencial nas apresentações. O trabalho de Lalacra foi crescendo através do "boca a boca" e da persistência, passando por espetáculos de humor e por seleções para gravação de vídeos.
"Muitas pessoas diziam que eu queria ser uma cópia de Lavínia, mas a própria Lavínia compreendeu minha admiração e respeitou isso. Com o tempo, fui encontrando meu próprio estilo, minha maquiagem, meu perfil, meu nicho e meus clientes", relatou.
Desafios
Na época em que começou a se montar, Allef se viu em um cenário repleto de desafios e obstáculos, devido à ausência de referências de drags voltadas para o público heterossexual, além de as imagens exibidas pela televisão serem limitadas e pautadas apenas em estereótipos, como no programa Casos de Família.
Ele encontrou no YouTube vídeos da matinê da boate Blue Space e o trabalho da transformista Silvetty Montilla e se apaixonou. "Quando vi o trabalho dela, pensei: 'É isso que eu quero fazer'. Eu sonhava em apresentar aqueles grandes clássicos do humor nas boates, mas aqui não existiam oportunidades para isso. Então, migrei para as festas, eventos e animações."
Allef começou também a se montar junto com a drag Pérola Queen (ator Dodô Oliveira). Muitas vezes, elas se caracterizavam escondidas porque o artista tinha receio do que sua família iria pensar.
O artista também enfrentou resistência familiar, pois, segundo ele, os parentes — especialmente o padrasto — tinham uma visão muito limitada sobre a arte drag, associando-a de forma equivocada e restrita à figura da travesti. Apesar da difícil aceitação inicial, com o tempo, a família do artista percebeu que Lalacra era o seu trabalho e que isso estava dando retorno.
"Quando eles perceberam que aquilo era meu trabalho, tudo começou a mudar. Aos poucos, meu padrasto passou a sentir orgulho da minha arte, porque via o retorno, o carinho das pessoas, os elogios e o reconhecimento. Lalacra acabou sendo um divisor de águas também dentro da minha família", contou.
Houve até um tempo em que o padrasto de Allef trabalhou como motorista por aplicativo e, sempre que alguém da comunidade LGBTQIA+ entrava no carro, ele perguntava com orgulho se a pessoa conhecia Lalacra. "Ele dizia: 'Você sabe quem é minha filha? Lalacra Nox'. Muitas pessoas depois vinham me contar que tinham conhecido meu padrasto e ouvido ele falar de mim. Isso transformou completamente nossa relação."
De Allef para Lalacra
As conquistas pessoais e profissionais de Lalacra também são de Allef e vice-versa, já que duas personas habitam em uma só pessoa e ambas fazem acontecer da forma que lhes cabe. O artista acredita que sua drag é um alter ego diferente dele: enquanto ele é mais tímido e reservado, ela o encoraja, é destemida, perspicaz e extravagante.
"Quando entro em cena, penso que estou ali para ser um acontecimento. As pessoas acreditam em mim; o cliente e o público acreditam em mim e no meu potencial. Em todas as apresentações eu fico nervoso, mas é esse nervosismo que me motiva. Ele faz com que eu faça tudo com muito amor e dedicação", declarou o performer.
O artista também entende que seu trabalho é uma forma de militância e de levar informação para esclarecer fatos que antes ficavam às cegas. "Muitas pessoas ainda não sabem diferenciar uma drag queen de uma pessoa transexual, por exemplo. Existe também uma visão muito sexualizada da arte drag. Depois de conhecerem meu trabalho, muitas pessoas dizem que eu desmistifiquei tudo o que elas imaginavam. Descobrem que é possível fazer humor com respeito, carinho e profissionalismo", disse.
O trabalho de Lalacra já levou Allef para Fernando de Noronha, bem como para outros estados e diversos municípios de Alagoas, conquistando representantes de prefeituras e sendo contratado por pessoas que nunca o tinham visto antes.
"A recepção do público sempre me emociona. Muitas pessoas que nunca tiveram contato com a arte drag me conhecem em festas e eventos e passam a respeitar meu trabalho. Costumo dizer que a maior divulgação é o boca a boca. Quando um cliente indica você, significa que você conquistou credibilidade."
Projetos futuros
Para celebrar os 12 anos de Lalacra, Allef pretende fazer uma pequena comemoração ao lado de Gina Kynnors e Lavínia Burtner, as Presepeiras de Maceió. Para o artista, elas fizeram parte da caminhada desde o começo. "Estou muito feliz, realizada, emotiva e reflexiva. Penso em tudo o que esses 12 anos me trouxeram, no que ainda posso melhorar e em até onde a arte drag ainda pode me levar", celebrou ele.
Allef tem o projeto futuro de transformar a Confradrag em uma associação das drag queens de Alagoas, com o intuito de elevar ainda mais a cena transformista local.