Jayme Miranda: um século de memória, luta e resistência

Neste sábado, 18 de julho de 2026, Jayme Amorim de Miranda, um dos principais personagens da História de Alagoas do século 20, estaria completando cem anos de vida.
Nascido em Maceió numa tradicional família envolvida com comércio, esportes, cultura e política, se destacou, desde a adolescência, pelo estudo da Filosofia, da História e da Sociologia, disciplinas que lhe abriram as portas para o Socialismo, doutrina pela qual se apaixonou inteiramente, já que se tratava - segundo suas análises - de uma ideologia que poderia resolver os grandes problemas das classes sociais exploradas pelo capitalismo, tornando possível que os proletários pudessem se unir e governar países, livrando-os da fome, do analfabetismo e do colonialismo.
Com a mesma desenvoltura e tenacidade, mergulhou nas ciências exatas, que lhe deram suporte para a prática do xadrez, atividade que se enraizou na família Miranda.
Foi trilhando esses caminhos que, a partir de setembro de 1939, o jovem Jayme, então com 13 anos, acompanhou, pelo rádio, jornais e revistas, o desenrolar da Segunda Guerra Mundial, o maior conflito da humanidade.
Neste contexto, se aproximou do Partido Comunista Brasileiro (PCB), agremiação fundada em 1922 e que apoiou a luta contra o nazifascismo, sistema de governo seguido por Alemanha, Itália e Japão e derrotado em 1945 pelas forças aliadas.
No período pós-guerra, 1946/1975,
Jayme se torna um advogado e jornalista atuante, sem abandonar sua militância absolutamente disciplinada.
Intelectual carismático e persuasivo, fez do jornal Voz do Povo, editado em Maceió, uma trincheira das lutas da classe trabalhadora.
Ao longo desses trinta anos, avança na hierarquia partidária, sendo apontado por seus camaradas como o líder que poderia substituir o lendário Luis Carlos Prestes no comando do histórico "Partidão".
Foi ainda nesse período que Jayme Miranda sofreu inúmeras prisões, perseguições e tentativas de homícios.
Sua militância, ousada e incisiva, incomodava os anticomunistas contumazes.
O fato de ser recebido com grande apreço por líderes mundiais de Esquerda como Mao Tzê Tung, Fidel Castro e Ernesto Chê Guevara, mexia com os brios da polícia política brasileira.
Nessa linha, o golpe militar fascista de 1964, que derrubou o presidente João Goulart, eleito constitucionalmente, resultou numa perseguição atroz contra o jornalista, que foi preso no primeiro dia do golpe, com seu jornal sendo empastelado e incendiado no centro da capital alagoana.
Libertado em 1965, se muda para o Rio de Janeiro e cai na clandestinidade com a esposa e quatro filhos menores.
Porém, não abandona suas lutas e viaja constantemente para os países do Leste Europeu, participando de conferências e seminários políticos.
No final de 1974, volta ao Brasil para realizar tarefas partidárias, e em 4 de fevereiro do ano seguinte, na fase mais brutal da ditadura, é sequestrado com mais nove companheiros de partido e levado a um centro clandestino do Exército, onde todos foram cruelmente torturados, assassinados com injeção de sacrificar cavalos, e esquartejados.
Seus restos mortais foram jogados em um rio e ainda se encontram desaparecidos.
Todos os detalhes dessa tragédia histórica estão contados no documentário que está sendo produzido nos dias que correm e que será lançado em dezembro próximo no Cinearte Pajuçara, em Maceió.
Nesta sexta, 17/7, às 19h, no Bar Zeppelin, no centro de Maceió, a família Miranda promove um encontro cultural, com música e poesia, em homenagem à memória de Jayme Miranda e às vítimas da ditadura militar de 64/85.