Com medo da repercussão, Canal Farol Digital sai do ar após denúncia de jornalista sobre impulsionamento contra governador e senador
Representação será encaminhada ao Ministério Público Eleitoral pedindo apuração e punição do responsável pelo pagamento de vídeos com ataques políticos; canal tinha apenas quatro inscritos e alcançou mais de um milhão de visualizações em dois dias
O canal Farol Digital, apontado pelo jornalista Cadu Amaral como responsável pela veiculação de vídeos impulsionados com ataques ao governador Paulo Dantas e ao senador Renan Filho, pré-candidato ao Governo de Alagoas, foi retirado do ar após a denúncia pública feita no YouTube.
O caso, no entanto, não deve terminar com o simples desaparecimento do canal.
Uma representação está sendo encaminhada ao Ministério Público Eleitoral, pedindo providências para identificar e punir o responsável pelo impulsionamento dos vídeos. A apuração deve buscar quem criou o canal, quem produziu os conteúdos, quem pagou pela distribuição e quem se beneficiaria politicamente da circulação massiva das peças, após o período permitido pela Justiça Eleitoral.
O episódio chamou atenção pela desproporção dos números. Segundo a denúncia feita por este colunista em seu canal no YouTube, dois vídeos de apenas seis segundos de duração alcançaram mais de um milhão de visualizações em apenas dois dias. O dado contrasta com a realidade do próprio canal, que tinha somente quatro inscritos e vídeos antigos, publicados havia meses, sem qualquer visualização relevante.
Além disso, havia outros vídeos já publicados no canal, em formato semelhante, aparentemente preparados para nova rodada de impulsionamento. Depois da denúncia, o canal Farol Digital saiu do ar.
A retirada do canal, porém, pode ser interpretada como tentativa de apagar rastros, não como encerramento do caso. Na esfera eleitoral, o que importa agora é saber quem estava por trás da operação digital.
A legislação eleitoral permite impulsionamento de conteúdo político-eleitoral em determinadas hipóteses, inclusive na pré-campanha, mas impõe regras de transparência, identificação do responsável, moderação de gastos e contratação direta com a plataforma por partido, federação ou pessoa natural que pretenda se candidatar. A Resolução TSE nº 23.610/2019 também veda o uso do impulsionamento para propaganda negativa.
Esse é o ponto central da representação. Se os vídeos impulsionados tinham como objetivo atacar adversários políticos, como Paulo Dantas e Renan Filho, a prática pode configurar, em tese, ilícito eleitoral. O TSE estabelece que o impulsionamento na internet deve servir apenas para promover ou beneficiar candidatura, partido ou federação contratante, sendo vedada a propaganda negativa contra adversários.
A norma também prevê multa para quem descumprir as regras de propaganda paga na internet. A penalidade pode variar até R$ 30 mil, ou chegar ao equivalente ao dobro do valor gasto, se esse cálculo superar o limite máximo da multa.
O caso do Farol Digital, portanto, deixa de ser apenas uma curiosidade das redes sociais. Um canal praticamente desconhecido, com quatro inscritos, sem histórico de audiência e com vídeos antigos sem visualização, não alcança mais de um milhão de pessoas em dois dias por acaso. Alguém pagou. Alguém contratou. Alguém direcionou. E alguém precisa responder.
A pergunta que o Ministério Público Eleitoral deve fazer é simples: quem financiou o impulsionamento?
Também será necessário verificar se houve uso de CPF, CNPJ, intermediários, agência digital, estrutura partidária ou terceiros contratados para impulsionar conteúdo político-eleitoral negativo. A retirada do canal do ar não elimina a necessidade de investigação, porque plataformas digitais mantêm registros de anúncios, contas pagadoras, formas de pagamento e metadados que podem revelar a origem da operação.
O episódio ocorre em um ambiente político já marcado por forte judicialização e disputa antecipada de narrativas nas redes sociais. Com a aproximação das eleições de 2026, o uso de impulsionamento para atacar adversários pode se tornar uma ferramenta perigosa de manipulação do debate público, especialmente quando feito por canais sem transparência, sem identificação clara e sem responsável visível.
O Farol Digital saiu do ar. Mas a denúncia continua de pé.
Agora, caberá ao Ministério Público Eleitoral e à Justiça Eleitoral apurar se houve impulsionamento irregular, quem foi o responsável financeiro e qual grupo político poderia se beneficiar dos ataques ao governador Paulo Dantas e ao senador Renan Filho.
A democracia permite crítica, debate duro e fiscalização pública. O que a legislação não admite é propaganda negativa paga, disfarçada, sem transparência e impulsionada por canais fantasmas.
O canal desapareceu. A responsabilidade, não.