LIBERDADE DE IMPRENSA EM DEBATE

Censura à imprensa em Alagoas ganha repercussão nacional no ICL Notícias

Entrevista com o jornalista Carlos Victor Costa levou ao debate nacional denúncias de ações judiciais, remoções de conteúdo e tentativas de intimidação contra profissionais que questionam o aporte de R$ 117 milhões do Iprev Maceió no Banco Master

Por Redação Publicado em 24/06/2026 às 13:06
Entrevista de Carlos Vitor Costa ao ICL Notícias levou ao debate nacional as denúncias de censura e assédio judicial contra jornalistas alagoanos que cobram explicações sobre o caso Iprev/Banco Master.

A denúncia de censura e assédio judicial contra jornalistas de Alagoas ganhou repercussão nacional nesta quarta-feira (24), durante o programa ICL Notícias, transmitido pelo YouTube. O jornalista Carlos Victor Costa, integrante de uma Comissão de Jornalistas Alagoanos, participou da atração e relatou o que profissionais da imprensa local classificam como uma ofensiva judicial contra reportagens, análises e comentários envolvendo o investimento de R$ 117 milhões do Instituto de Previdência dos Servidores de Maceió, o Iprev, no Banco Master.


O ICL Notícias é um portal e canal de jornalismo independente com cobertura nacional sobre política, economia, Brasil, mundo e análises. O canal conta com cerca de 1,22 milhão de inscritos no YouTube e, no momento da entrevista, aproximadamente 10 mil pessoas acompanhavam a transmissão ao vivo. A participação de Carlos Victor colocou o caso alagoano diante de uma audiência nacional e levou os apresentadores a oferecerem espaço para que o ex-prefeito de Maceió, João Henrique Caldas, o JHC, também seja ouvido.


Durante a entrevista, Carlos Victor afirmou que jornalistas alagoanos passaram a ser alvo de ações judiciais após questionarem a aplicação milionária feita pelo Iprev Maceió no Banco Master. Segundo ele, o ponto central não é uma acusação direta contra JHC, mas a cobrança de explicações públicas sobre uma decisão administrativa que envolveu recursos previdenciários de servidores aposentados e pensionistas da capital.


“Como jornalista, a gente tem esse direito de cobrar dos políticos, cobrar dos poderes uma resposta”, afirmou Carlos Victor. Segundo ele, em vez de esclarecimentos públicos, a resposta tem vindo por meio de ações judiciais.


O jornalista disse que JHC, atualmente pré-candidato ao governo de Alagoas e dirigente estadual do PSDB, tem utilizado o partido como instrumento jurídico para mover ações contra profissionais da comunicação. Carlos Victor também lembrou que o ex-prefeito sustenta que o Iprev é uma autarquia com autonomia administrativa, mas ponderou que o então diretor-presidente do instituto foi nomeado durante a gestão de JHC.


“O diretor-presidente do Iprev foi nomeado por ele. Então ele precisa dar essas explicações”, disse o jornalista.


Ainda na entrevista, Carlos Victor destacou que Maceió teria sido a única capital brasileira a realizar aporte milionário no Banco Master com recursos do regime próprio de previdência dos servidores municipais. Para ele, esse fato por si só justificaria a cobrança jornalística.


“A gente precisa de respostas. E a resposta geralmente vem através da Justiça”, declarou.

Jornalistas citados na entrevista

Ao ser questionado pelos apresentadores do ICL sobre quem estaria sendo atingido pelas ações, Carlos Vitor citou nomes de profissionais da imprensa alagoana que, segundo ele, foram alvo de processos, pedidos de remoção de conteúdo ou decisões judiciais envolvendo publicações sobre o tema.

Entre os nomes mencionados estão o próprio Carlos Vitor Costa, João Mouzinho, da Folha de Alagoas, Cadu Amaral, Bleine Oliveira, Vladimir Barros, da Tribuna do Sertão, e o jornalista e historiador Geraldo de Majella. Ele também afirmou que outros jornalistas e veículos de comunicação já enfrentaram situações semelhantes.

O caso chamou a atenção dos apresentadores do ICL, que destacaram a gravidade do uso recorrente de ações judiciais contra profissionais de imprensa, especialmente em estados e municípios onde veículos regionais muitas vezes têm menos estrutura financeira e jurídica para enfrentar processos em série.

Veja vídeo ao fim da matéria

Um dos apresentadores observou que o risco é ainda maior para jornalistas locais, que atuam mais próximos dos grupos políticos sobre os quais escrevem. Segundo ele, quanto menor o veículo e mais local a cobertura, maior pode ser a pressão sobre quem faz perguntas incômodas.


A preocupação apresentada no programa é que ações judiciais repetidas possam produzir um efeito de intimidação, levando jornalistas e veículos menores a evitar determinados temas por medo de novos processos, multas ou remoções de conteúdo.

“É só montar uma coletiva e explicar”, diz Carlos Vitor

Carlos Victor defendeu que JHC poderia encerrar boa parte da polêmica oferecendo explicações públicas sobre o caso. Para o jornalista, uma coletiva de imprensa seria o caminho natural para responder aos questionamentos sobre a operação do Iprev com o Banco Master.

“É só chegar e montar uma coletiva de imprensa. Se ele não tem nada a temer, monta uma entrevista coletiva com a imprensa e explica”, afirmou.

O jornalista reforçou que as publicações questionadas não buscavam condenar previamente o ex-prefeito, mas cobrar transparência sobre o destino e a segurança dos recursos previdenciários dos servidores municipais.

Segundo Carlos Victor, a pergunta central continua sem resposta satisfatória: quais foram os critérios técnicos, administrativos e políticos que levaram o Iprev Maceió a aplicar R$ 117 milhões no Banco Master?


Remoção de conteúdo e falta de notificação

Na entrevista, Carlos Victor também relatou que teve conteúdo tornado indisponível no Brasil sem que, segundo ele, tivesse sido previamente notificado. Ele contou que só percebeu a restrição dias depois, ao verificar o status de sua conta em rede social.

De acordo com o jornalista, uma de suas análises políticas, publicada originalmente em parceria com o BNews Alagoas e compartilhada em seu perfil pessoal, foi bloqueada para acesso no Brasil. Ele afirmou que o conteúdo fazia questionamentos sobre o caso, sem imputar crime ao ex-prefeito.

“Quando eu vim saber, já tinha passado uns dez dias. Fui verificar o status da conta e estava lá: indisponível em algumas localidades”, relatou.

Carlos Victor também mencionou outro caso envolvendo uma imagem produzida com inteligência artificial, usada para simbolizar a censura contra a imprensa. Segundo ele, a representação mostrava JHC calando a imprensa, mas a interpretação apresentada pela parte autora teria sido de que a imagem associaria o ex-prefeito à violência contra a mulher, tese que o jornalista classificou como sem sentido.

Para Carlos Victor, a imagem tinha caráter simbólico e buscava representar a tentativa de silenciamento da atividade jornalística.

Caso de 2016 foi lembrado

Durante a entrevista, Carlos Victor também relembrou episódio ocorrido em 2016, quando jornalistas e veículos de comunicação de Alagoas foram processados após noticiarem informações de um livro do jornalista Chico de Gois sobre crescimento patrimonial de políticos.

Segundo Carlos Victor, JHC foi citado na obra e, na época, parte da imprensa local apenas repercutiu um fato público: a menção ao então político alagoano em um livro jornalístico de circulação nacional. Mesmo assim, afirmou ele, houve ações judiciais contra profissionais e veículos que trataram do assunto.

O jornalista disse que, posteriormente, diante da repercussão, JHC teria recuado das ações.

ICL oferece espaço a JHC

Ao final da entrevista, o ICL Notícias anunciou que sua produção buscaria contato com JHC para oferecer espaço no programa. A proposta apresentada pelos jornalistas do canal foi realizar uma entrevista com a presença do ex-prefeito e dos profissionais alagoanos que afirmam ter sido processados ou censurados.

A ideia, segundo os apresentadores, seria permitir que JHC respondesse às perguntas dos jornalistas e que o público pudesse avaliar se os questionamentos feitos pela imprensa alagoana são legítimos, pertinentes e de interesse público.

O gesto foi apresentado como uma forma de ampliar o debate e deslocar a discussão do campo exclusivamente judicial para o espaço público, onde autoridades, agentes políticos e gestores devem prestar esclarecimentos à sociedade.

Comissão busca apoio de entidades nacionais

Carlos Victor afirmou ainda que a Comissão de Jornalistas Alagoanos pretende procurar entidades nacionais de defesa da liberdade de imprensa, como a Associação Brasileira de Imprensa, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo e outras instituições ligadas à proteção do exercício profissional do jornalismo.

O grupo também estuda levar o caso ao Conselho Nacional de Justiça, para que seja avaliada a atuação do Judiciário em decisões que envolvem remoções de conteúdo jornalístico, especialmente quando os materiais tratam de temas de evidente interesse público.

Segundo Carlos Victor, o ambiente criado pelas ações judiciais gera insegurança entre profissionais da comunicação.

“A gente não sabe nem o que vai publicar, ou o que pode publicar, se vai ser derrubado e se a gente não vai ser nem notificado”, afirmou.

Debate é sobre liberdade de imprensa

O caso envolvendo o Iprev Maceió, o Banco Master e as ações contra jornalistas ultrapassa a disputa política local. O que está em debate é o direito da sociedade de receber informações sobre a gestão de recursos públicos, especialmente quando se trata de dinheiro previdenciário de servidores aposentados e pensionistas.

A imprensa tem o dever de perguntar. Agentes públicos e lideranças políticas têm o direito de se defender, contestar informações e recorrer à Justiça quando se sentirem atingidos. Mas, quando processos e pedidos de remoção se tornam resposta recorrente a questionamentos jornalísticos, surge uma preocupação institucional: o risco de transformar a Justiça em instrumento de intimidação.

A entrevista de Carlos Victor Costa ao ICL Notícias ampliou nacionalmente esse debate. Alagoas, mais uma vez, passa a ser observada por entidades, jornalistas e veículos de comunicação de fora do estado. E a pergunta que permanece é simples: por que, em vez de processar jornalistas, os responsáveis

políticos e administrativos pelo caso não prestam todos os esclarecimentos públicos sobre o que aconteceu com os R$ 117 milhões do Iprev Maceió?

A Tribuna do Sertão mantém espaço aberto para manifestação de todos os citados.