Memorial dos Palmares será levado aos palcos em formato de monólogo
Obra de Ivan Alves Filho, publicada pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos, inspirará espetáculo com proposta de dramaturgia antirracista
A trajetória do Quilombo dos Palmares, reconhecida como o maior refúgio de escravizados das Américas, ganhará uma nova linguagem artística. O livro Memorial dos Palmares , de Ivan Alves Filho, publicado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos, será adaptado para o teatro em formato de monólogo.
A montagem inspirada na obra pretende apresentar ao público a importância do Quilombo dos Palmares na formação da identidade brasileira e também provocar reflexões sobre temas como o racismo estrutural.
Fruto de 50 anos de dedicação ao estudo do tema, Memorial dos Palmares foi reeditado em parceria com a Fundação Astrojildo Pereira, a Fundação Casa de Jorge Amador e o Centro de Excelência Nelson Mandela. O livro integrou os lançamentos da Imprensa Oficial na 11ª edição da Bienal Internacional do Livro de Alagoas.
A obra foi destacada pelo rigor das pesquisas sobre o quilombo que, durante décadas, acolheu cerca de 20 mil pessoas de diferentes etnias.
Ivan Alves Filho relatou que a ideia do monólogo surgiu depois de uma conversa com o amigo Déo Garcês, ator com trajetória ligada à dramaturgia antirracista e trabalhos no teatro, no cinema e na televisão.
“Ele se encantou com o livro, mas eu não esperava essa iniciativa de levá-lo para os palcos. O alagoano Cacá Diegues já produziu filme a respeito. Até Castro Alves fez um poema para celebrar Palmares. Agora, com o monólogo, teremos a chance de ver um grande artista imprimindo sentimento à obra que reafirma nossa identidade”, avaliou o autor.
Para produzir Memorial dos Palmares , o pesquisador consultou arquivos na França e em Portugal, percorreu mais de 50 bibliotecas e consolidou uma publicação como uma referência sobre o quilombo, símbolo de resistência ao regime escravista durante quase um século.
"A obra propõe, ainda, um resgate de cidadania. Conhecer a história do Quilombo dos Palmares é compreender o anseio daquelas pessoas por justiça e liberdade. Afinal, Palmares é o berço da nossa primeira luta de classes. Todos eram livres nesse território. Foi em Palmares que tivemos uma espécie de Brasil contraoficial, quevava os pilares do colonialismo, ou seja, o latifúndio e o recurso ao trabalho escravo", afirmou Ivan.
O autor também destacou a qualidade da quarta edição do livro. "Ficou belíssimo. Só tenho a agradecer à Imprensa Oficial e demais parceiros pelo apoio".
Dramaturgia antirracista
Déo Garcês afirmou estar liberado com a proposta de desenvolver mais um trabalho voltado para a dramaturgia antirracista. Segundo ele, uma obra dialógica com sua trajetória artística, marcada por personagens em novelas como Xica da Silva e A Escrava Isaura .
“A obra dialoga com minha trajetória, pelo fato de já ter vivido personagens icônicos em novelas como 'Xica da Silva' e 'A Escrava Isaura', que seguem na memória de tanta gente. Agora, pretendo criar uma atmosfera imersiva, capaz não apenas de unir drama e ancestralidade, com destaque para a mística em torno de personagens como Zumbi, mas também de fazer com que reflitamos sobre questões como o racismo estrutural. Afinal, o teatro tem esse poder de traduzir a história em experiências emocionais, o que facilita a compreensão do espectador”, explicou o ator.
Mais recentemente, Garcês participou do elenco de A Nobreza do Amor , novela em que interpretou Nilo Peçanha, o primeiro e único presidente negro da história do Brasil.
"Portanto, o objetivo deste novo projeto, que terá a direção de Soraia Arnoni e a produção de Rafael Lydio, é conectar a história afro-brasileira com a pauta antirracista, mesclando paixão e rigor histórico, para que o público sinta, verdadeiramente, a profundidade dessas e heroínas ainda invisibilizados. A responsabilidade é muito grande porque esse tema, particularmente, mexe comigo e com todos que lutam contra qualquer forma de opressão. Mas estou pronto e muito liberado", declarou Garcês.
De acordo com o ator, a data e o local da estreia ainda serão definidos.
Para o diretor-presidente da Imprensa Oficial Graciliano Ramos, Mauricio Bugarim, o alcance do Memorial dos Palmares é motivo de satisfação para a gráfica e editora do Governo de Alagoas.
“É assim que preservamos nossas origens, valorizando, permanentemente, a cultura afro-brasileira e mantendo viva a ancestralidade de quem tanto foi preso pela liberdade e justiça social”, destacou Mauricio Bugarim.