CULTURA

Memorial dos Palmares será levado aos palcos em formato de monólogo

Obra de Ivan Alves Filho, publicada pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos, inspirará espetáculo com proposta de dramaturgia antirracista

Por Agência Alagoas Publicado em 18/06/2026 às 08:10
Livro Memorial dos Palmares ganhará adaptação para o teatro em formato de monólogo Ascom Imprensa Oficial

A trajetória do Quilombo dos Palmares, reconhecida como o maior refúgio de escravizados das Américas, ganhará uma nova linguagem artística. O livro Memorial dos Palmares , de Ivan Alves Filho, publicado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos, será adaptado para o teatro em formato de monólogo.

A montagem inspirada na obra pretende apresentar ao público a importância do Quilombo dos Palmares na formação da identidade brasileira e também provocar reflexões sobre temas como o racismo estrutural.

Fruto de 50 anos de dedicação ao estudo do tema, Memorial dos Palmares foi reeditado em parceria com a Fundação Astrojildo Pereira, a Fundação Casa de Jorge Amador e o Centro de Excelência Nelson Mandela. O livro integrou os lançamentos da Imprensa Oficial na 11ª edição da Bienal Internacional do Livro de Alagoas.

A obra foi destacada pelo rigor das pesquisas sobre o quilombo que, durante décadas, acolheu cerca de 20 mil pessoas de diferentes etnias.

Ivan Alves Filho relatou que a ideia do monólogo surgiu depois de uma conversa com o amigo Déo Garcês, ator com trajetória ligada à dramaturgia antirracista e trabalhos no teatro, no cinema e na televisão.

“Ele se encantou com o livro, mas eu não esperava essa iniciativa de levá-lo para os palcos. O alagoano Cacá Diegues já produziu filme a respeito. Até Castro Alves fez um poema para celebrar Palmares. Agora, com o monólogo, teremos a chance de ver um grande artista imprimindo sentimento à obra que reafirma nossa identidade”, avaliou o autor.

Para produzir Memorial dos Palmares , o pesquisador consultou arquivos na França e em Portugal, percorreu mais de 50 bibliotecas e consolidou uma publicação como uma referência sobre o quilombo, símbolo de resistência ao regime escravista durante quase um século.

"A obra propõe, ainda, um resgate de cidadania. Conhecer a história do Quilombo dos Palmares é compreender o anseio daquelas pessoas por justiça e liberdade. Afinal, Palmares é o berço da nossa primeira luta de classes. Todos eram livres nesse território. Foi em Palmares que tivemos uma espécie de Brasil contraoficial, quevava os pilares do colonialismo, ou seja, o latifúndio e o recurso ao trabalho escravo", afirmou Ivan.

O autor também destacou a qualidade da quarta edição do livro. "Ficou belíssimo. Só tenho a agradecer à Imprensa Oficial e demais parceiros pelo apoio".

Dramaturgia antirracista

Déo Garcês afirmou estar liberado com a proposta de desenvolver mais um trabalho voltado para a dramaturgia antirracista. Segundo ele, uma obra dialógica com sua trajetória artística, marcada por personagens em novelas como Xica da Silva e A Escrava Isaura .

“A obra dialoga com minha trajetória, pelo fato de já ter vivido personagens icônicos em novelas como 'Xica da Silva' e 'A Escrava Isaura', que seguem na memória de tanta gente. Agora, pretendo criar uma atmosfera imersiva, capaz não apenas de unir drama e ancestralidade, com destaque para a mística em torno de personagens como Zumbi, mas também de fazer com que reflitamos sobre questões como o racismo estrutural. Afinal, o teatro tem esse poder de traduzir a história em experiências emocionais, o que facilita a compreensão do espectador”, explicou o ator.

Mais recentemente, Garcês participou do elenco de A Nobreza do Amor , novela em que interpretou Nilo Peçanha, o primeiro e único presidente negro da história do Brasil.

"Portanto, o objetivo deste novo projeto, que terá a direção de Soraia Arnoni e a produção de Rafael Lydio, é conectar a história afro-brasileira com a pauta antirracista, mesclando paixão e rigor histórico, para que o público sinta, verdadeiramente, a profundidade dessas e heroínas ainda invisibilizados. A responsabilidade é muito grande porque esse tema, particularmente, mexe comigo e com todos que lutam contra qualquer forma de opressão. Mas estou pronto e muito liberado", declarou Garcês.

De acordo com o ator, a data e o local da estreia ainda serão definidos.

Para o diretor-presidente da Imprensa Oficial Graciliano Ramos, Mauricio Bugarim, o alcance do Memorial dos Palmares é motivo de satisfação para a gráfica e editora do Governo de Alagoas.

“É assim que preservamos nossas origens, valorizando, permanentemente, a cultura afro-brasileira e mantendo viva a ancestralidade de quem tanto foi preso pela liberdade e justiça social”, destacou Mauricio Bugarim.