Sem bandeira: deputados da esquerda à direita cobram investigação sobre R$ 117 milhões do Iprev
Parlamentares de diferentes correntes políticas alertam para riscos ao fundo previdenciário de Maceió e exigem esclarecimentos sobre aplicações no Banco Master e no fundo Nest Eagle.
Um raro consenso político marcou a sessão ordinária da Assembleia Legislativa de Alagoas (ALE) nesta quarta-feira (10). Deputados de diferentes correntes ideológicas, da esquerda à direita, defenderam a apuração rigorosa das aplicações financeiras realizadas pelo Instituto de Previdência dos Servidores de Maceió (Iprev), especialmente os investimentos vinculados ao Banco Master e ao fundo Nest Eagle.
O tema dominou os debates no plenário e foi tratado pelos parlamentares como uma questão que ultrapassa disputas partidárias, envolvendo diretamente a segurança financeira de aposentados e pensionistas da capital alagoana.
O deputado Ronaldo Medeiros (PT) afirmou ter analisado a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027 encaminhada pela Prefeitura de Maceió e chamou atenção para o trecho em que o próprio Executivo reconhece riscos relacionados ao sistema previdenciário municipal.
“O regime próprio de previdência do município de Maceió representa risco fiscal estrutural de longo prazo”, destacou o parlamentar ao citar o documento.
Segundo Medeiros, a situação exige atenção imediata. Ele alertou para a possibilidade de desequilíbrio financeiro do sistema caso não haja reforço nas contribuições futuras.
“Os aposentados e aposentadas têm que ter cuidado. Se não houver contribuição no futuro próximo, esse fundo quebra. Não haverá aposentadoria nem pensão depois”, afirmou.
O parlamentar também questionou as aplicações realizadas pelo instituto. Além dos recursos direcionados ao Banco Master, ele citou cerca de R$ 56 milhões investidos no fundo Nest Eagle.
“Fala-se muito do Iprev ligado ao Banco Master, essa operação insana que o município fez ao colocar recursos em uma instituição temerária. Há também mais R$ 56 milhões aplicados em um fundo chamado Nest Eagle, que ninguém conhece, ninguém sabe de onde veio nem para onde vão esses recursos”, declarou.
Medeiros ainda mencionou reportagens que associam parte dos recursos a operações financeiras que teriam beneficiado empresários ligados ao mercado financeiro.
O deputado Cabo Bebeto (PL) também defendeu investigações e responsabilização dos envolvidos caso sejam comprovadas irregularidades.
“Quem errou tem que pagar”, afirmou, cobrando atuação dos órgãos de controle e do Ministério Público.
Já o deputado Alexandre Ayres (MDB) ressaltou que a Prefeitura de Maceió precisa esclarecer os critérios adotados para a destinação de aproximadamente R$ 100 milhões ao Banco Master.
“A gente não quer procurar culpados; quer uma apuração rigorosa e transparente”, declarou.
Ayres também demonstrou preocupação com os ataques dirigidos ao senador Renan Calheiros (MDB) após o parlamentar levar o assunto ao debate nacional.
O deputado Doutor Wanderley (MDB) manifestou solidariedade ao senador e cobrou explicações do prefeito João Henrique Caldas (JHC).
“O prefeito é o responsável por isso. Quem teve essa ideia estúpida de colocar dinheiro em um banco sabidamente falido?”, questionou.
Durante o debate, Ronaldo Medeiros lembrou que a Polícia Federal já solicitou ao Supremo Tribunal Federal a investigação do caso e voltou a cobrar esclarecimentos sobre os recursos investidos no fundo Nest Eagle.
Ao final da discussão, o presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Victor (MDB), destacou que a legislação previdenciária estadual possui mecanismos rígidos de controle e governança que impediriam operações semelhantes.
“O Banco Master, por exemplo, não entra lá. Essa virtude é da Assembleia Legislativa”, afirmou.
Para Marcelo Victor, os critérios estabelecidos pelo Parlamento alagoano contribuíram para fortalecer a proteção dos recursos previdenciários dos servidores estaduais.
O debate evidenciou uma convergência incomum entre parlamentares de partidos adversários. PT, MDB e PL defenderam, em diferentes discursos, a necessidade de total transparência sobre a aplicação dos recursos do Iprev e a realização de investigações que esclareçam eventuais responsabilidades.
Mais do que uma disputa política, o tema passou a ser tratado na Assembleia como uma questão de interesse público, envolvendo diretamente o futuro de milhares de aposentados e pensionistas de Maceió.