CIÊNCIA

Laboratório da Ufal conquista marca histórica com licenciamento pela CTNBio

Certificação em nível de biossegurança NB1 amplia pesquisas em neurociências, toxicologia, biotecnologia e modelos alternativos ao uso de mamíferos

Por Manuella Soares - jornalista Publicado em 01/06/2026 às 15:32
Professor Lucas Anhezini, coordenador do Lavitox

Uma pequena mosca, conhecida mundialmente pela ciência, acaba de colocar Alagoas em uma nova rota da pesquisa biotecnológica. O Laboratório de Análise in vivo da Toxicidade e Doenças Neurodegenerativas da Universidade Federal de Alagoas (Lavitox/Ufal) foi oficialmente autorizado pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) para desenvolver pesquisas com organismos geneticamente modificados (OGMs) em regime de contenção, utilizando Drosophila melanogaster como modelo experimental.

A conquista é histórica: o Lavitox passa a ser o primeiro laboratório do estado de Alagoas certificado para esse tipo de atividade científica. “Mais do que uma autorização, esse reconhecimento representa anos de construção científica, formação de pessoas, desenvolvimento de infraestrutura, fortalecimento da biossegurança e compromisso com uma ciência ética, inovadora e de impacto real”, destacou o professor Lucas Anhezini.

O coordenador do laboratório reforça que a autorização da CTNBio representa um marco importante não apenas para o laboratório, mas para a ciência produzida em Alagoas. Com o credenciamento em nível de biossegurança NB1, o Lavitox amplia sua capacidade de desenvolver modelos transgênicos avançados, expandir pesquisas em neurociências e doenças neurodegenerativas, criar modelos para o estudo de diferentes tipos de tumores e estruturar novas plataformas em toxicologia e biotecnologia.

A autorização também fortalece possibilidades de colaboração nacional e internacional e impulsiona a inovação científica e tecnológica produzida no Nordeste. “Seguimos fortalecendo a ciência feita em Alagoas, mostrando que inovação, tecnologia e pesquisa de alto nível também são construídas aqui”, comemorou.

Pesquisa com impacto em doenças humanas e alternativa ao uso de mamíferos

O Lavitox já desenvolve modelos experimentais voltados ao estudo de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer, Esclerose Lateral Amiotrófica e Epilepsia. Lucas explica que, com a nova autorização, o laboratório poderá expandir essas plataformas utilizando linhagens transgênicas mais sofisticadas, biossensores moleculares e ferramentas genéticas avançadas.

A escolha da Drosophila melanogaster tem forte relevância científica. Segundo o professor Anhezini, esse organismo é atualmente um dos modelos biológicos mais consolidados no mundo para o estudo de doenças humanas. “Aproximadamente 75% dos genes associados a doenças humanas possuem homólogos funcionais na mosca, o que torna esse organismo extremamente poderoso para pesquisas em neurociências, genética, toxicologia e descoberta de novos fármacos”, explicou.

A certificação também acompanha uma tendência internacional da ciência: A busca pela substituição e redução do uso de modelos vertebrados, como ratos, na experimentação científica. Nesse cenário, organismos alternativos, como a Drosophila, vêm ganhando cada vez mais importância em estudos biomédicos e toxicológicos.

Para o pesquisador, o credenciamento do Lavitox “fortalece diretamente a utilização da Drosophila melanogaster como modelo animal alternativo para o estudo de doenças humanas e testes toxicológicos, contribuindo para a substituição de modelos mamíferos e para a modernização da experimentação animal realizada no Brasil e na Ufal”.

Para o professor Lucas Anhezini, a autorização da CTNBio posiciona a Ufal na vanguarda de uma tendência internacional que busca ampliar o uso de organismos alternativos no estudo de doenças humanas complexas. Essa abordagem vem ganhando cada vez mais espaço em centros de excelência dos Estados Unidos e da Europa, impulsionada tanto pelos avanços científicos quanto pela crescente demanda por métodos que reduzam, refinem e substituam o uso de modelos mamíferos na pesquisa biomédica.

“Nesse cenário, a Ufal passa a integrar um grupo seleto de instituições brasileiras aptas a desenvolver pesquisas com organismos geneticamente modificados utilizando modelos alternativos, como a Drosophila melanogaster. Além de permitir investigações rápidas e de alta qualidade sobre mecanismos envolvidos em doenças neurodegenerativas, esses modelos contribuem para uma ciência mais moderna, ética e alinhada às tendências internacionais de experimentação animal”, destaca o pesquisador.

O credenciamento do Lavitox fortalece a capacidade da universidade de participar de redes internacionais de pesquisa e de desenvolver plataformas inovadoras para a descoberta de novos tratamentos para doenças como Alzheimer, Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), Parkinson e epilepsia.

Alagoas em rede internacional de neurogenética

A autorização da CTNBio também representa um importante impulso para o NeuroSur, uma rede sul-americana de neurogenética funcional recentemente submetida ao CNPq e coordenada pelo professor Lucas Anhezini. A iniciativa reúne instituições de diferentes países da América do Sul com o objetivo de desenvolver modelos experimentais de doenças neurológicas baseados em variantes genéticas de relevância para as populações da região.

De acordo com o pesquisador, a maioria dos modelos utilizados atualmente para estudar doenças neurológicas foi construída a partir de variantes identificadas em populações da América do Norte e da Europa. Como consequência, muitas dessas ferramentas não refletem plenamente a diversidade genética presente na América do Sul.

O NeuroSur pretende preencher essa lacuna, criando uma plataforma regional para a validação funcional de variantes genéticas e para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas mais alinhadas às necessidades da população sul-americana. “A autorização da CTNBio fortalece diretamente essa iniciativa, ampliando a capacidade da Ufal de gerar e utilizar organismos geneticamente modificados em pesquisas de ponta voltadas à compreensão dos mecanismos das doenças neurológicas e à busca por novos tratamentos”, disse.

Outro desdobramento importante da conquista envolve a relação direta entre o Lavitox e a NexusBioTox, startup de base biotecnológica vinculada às atividades de pesquisa do laboratório. O Lavitox funciona como o braço experimental responsável pelos ensaios utilizando Drosophila.

Essa estrutura abre caminho para oferecer à indústria farmacêutica plataformas de triagem de fármacos com modelos in vivo de doenças neurodegenerativas, permitindo avaliar toxicidade, eficácia e efeitos neuroprotetores de moléculas de forma mais rápida, ética e com menor custo.

“Estamos falando de uma estrutura que une universidade, inovação, biossegurança e biotecnologia aplicada. Isso coloca Alagoas em uma posição estratégica dentro da pesquisa translacional e da inovação científica no Brasil”, ressaltou Lucas Anhezini.

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