Ações afirmativas na Ufal impulsionam ingresso de cotistas na pós-graduação
Mestrado em Antropologia comemora o aumento dos aprovados
Fundado em 2015, o Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGAS) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) completa onze anos com o objetivo de oferecer formação em nível de pós-graduação em Antropologia a bacharéis e licenciados em Ciências Sociais. O programa também se destina a profissionais dessa e de áreas afins interessados em se tornarem antropólogos ou em qualificar sua atuação profissional por meio de instrumental teórico e metodológico específico. Além disso, o PPGAS aderiu, já em 2016, a uma política de ações afirmativas que ampliou o acesso de estudantes ao programa.
Um levantamento interno realizado pela coordenação do programa mostrou que, entre 2021 e 2024, houve um acelerado processo de democratização do acesso à pós-graduação stricto sensu, evidenciando o impacto concreto das ações afirmativas na composição discente do programa. Em 2021, dos 12 aprovados, apenas três eram estudantes negros e um indígena. Já em 2024, seis estudantes negros foram aprovados na seleção para o mestrado, o que representa um aumento de mais de 40% de cotistas entre os aprovados.
O programa tem as ações afirmativas como política estruturante, com 60% das 12 vagas nas seleções voltadas para candidatos pretos, pardos, indígenas, quilombolas, trans, pessoas com deficiência e servidores. “Trata-se de uma política ativa e de gestão colegiada, resultante da participação dos docentes e dos discentes do PPGAS. Todos os nossos processos seletivos, que incluem as comissões de heteroidentificação, são realizados e validados pelas instâncias superiores da pós-graduação, como a Copeve e órgãos vinculados à Reitoria da Ufal”, afirma a professora Silvia Martins, atual coordenadora do Programa.
Esses números demonstram a consolidação do PPGAS como um programa de vanguarda no âmbito das ações afirmativas na pós-graduação da Ufal, reafirmando seu compromisso com a equidade racial, a inclusão social e a diversidade no ensino superior. A definição de cotas e vagas, contudo, resultou de um pleito do próprio PPGAS, a partir de políticas de autoavaliação implementadas. Os procedimentos para avaliação e distribuição de bolsas baseiam-se em critérios de mérito, nas ações afirmativas previstas nos editais de seleção de candidatos cotistas e também nas condições socioeconômicas dos discentes.
Observa-se, nesse cenário, o crescimento da inclusão entre estudantes cotistas, especialmente de estudantes negros e, mais especificamente, de mulheres negras. Além disso, a professora Silvia Martins afirma que, nessa década de existência, o PPGAS tem desempenhado um papel crucial na interiorização da Antropologia em Alagoas, com reflexos em níveis regional e nacional. “Durante esse período, foram formados 74 mestres. Além disso, nossos egressos têm sido selecionados em programas de excelência em Antropologia no Brasil, como os da UFRGS [Universidade Federal do Rio Grande do Sul], UnB [Universidade de Brasília], UFRN [Universidade Federal do Rio Grande do Norte], UFBA [Universidade Federal da Bahia] e UFS [Universidade Federal de Sergipe]. Tais resultados indicam impactos positivos na formação de professores e pesquisadores em nível de pós-graduação stricto sensu em Antropologia Social”, diz.
O programa também incentiva ações de extensão, envolvendo setores público e privado no estado de Alagoas, promovendo a integração entre ensino, pesquisa e extensão. A coordenadora ressalta ainda que, na Avaliação Quadrienal da Capes (2021–2024), no item referente à qualidade e adequação das dissertações, o programa atingiu o conceito “Muito Bom”, evidenciando a forte aderência entre os trabalhos defendidos, a proposta acadêmica do PPGAS e suas linhas de pesquisa.
“São dados que demonstram nossa capacidade de realização na formação que damos. Apesar de termos sido avaliados com nota 3, entramos com recurso administrativo e estamos otimistas que teremos reavaliação para pontuação 4 no Quadriênio 2021-2024. Recentemente, das 13 bolsas disponibilizadas do CNPq aos PPGs da Ufal para Demanda Social, fomos contemplados com uma delas. Isso significa o reconhecimento de como nosso programa é inclusivo. Ainda precisamos de sete bolsas de estudo para garantir que todos os candidatos da seleção do Edital n.04/2025 tenham Dedicação Exclusiva, cursando as disciplinas e realizando trabalho de campo e produção intelectual durante o mestrado”, pontua a coordenadora.
Para além das cotas
Se, por um lado, a coordenação e os pesquisadores da universidade comemoram os avanços do programa, por outro, os estudantes são diretamente beneficiados pelas ações afirmativas. A estudante Júlia Góes Ferreira Barbosa, do segundo ano do mestrado, foi uma das que entrou no curso pelas cotas. Ela conta que ter entrado no PPGAS por esse meio possibilitou o acesso a bolsas ao longo do curso, favorecendo sua dedicação e permanência na academia: “Isso possibilita minha dedicação e permanência na academia. Além das cotas raciais, o PPGAS conta com cotas para pessoas com deficiência, trans, indígenas, refugiados e assentados, ajudando a derrubar as barreiras que limitam o acesso e permanência destes grupos à Universidade”.
Para a estudante, que cursou a licenciatura em Ciências Sociais pela ampla concorrência, a política de cotas constitui uma conquista relevante. “Espero que a política de cotas tenha continuidade e que as Universidades brasileiras deixem de sofrer com cortes de gastos que impactam nos projetos de ensino, pesquisa e extensão por elas desenvolvidos. Vivemos em um momento em que as cotas têm sido alvo de ataques, principalmente no Sul do país, espero que todos nós possamos usufruir e defender o que está disposto na lei 12.711/2012 (que trata do ingresso nos cursos de graduação através de cotas) e na resolução 09/2004 Cepe/Ufal”, defende.
Um trabalho de excelência
O curso de mestrado em Antropologia Social da Ufal surgiu a partir das contribuições dos docentes Evaldo Mendes, Cláudia Mura e da antropóloga Nádia Meinerz. A professora Silvia Martins enfatiza que o PPGAS busca continuar proporcionando uma formação sólida e crítica, capacitando profissionais para atuar com excelência na docência, na pesquisa acadêmica e em diferentes contextos do setor público e privado.
“Com foco no desenvolvimento de habilidades fundamentais à prática antropológica, o Mestrado em Antropologia Social também vem dando formação para que os discentes continuem suas trajetórias acadêmicas em nível de doutorado, garantindo uma formação de alta qualidade que contribua para o avanço do conhecimento na área e para a inserção qualificada em diversas esferas profissionais”, destaca.
E é esse o objetivo maior, que os estudantes concluam sua formação e estejam prontos para o mercado de trabalho. “Nosso Mestrado visa promover uma articulação das pesquisas etnográficas produzidas com problemáticas regionais, bem como a circulação desse conhecimento local em âmbito nacional e internacional. Nesse sentido, constrói diálogos mais abrangentes, do ponto de vista teórico, e diversificados, em termos das abordagens etnográficas principalmente em Alagoas”, diz.
É um trabalho conjunto, onde ao mesmo tempo, aposta na aplicação do conhecimento antropológico para além do âmbito estritamente acadêmico, privilegiando a formação de profissionais que atuam ou colaboram com órgãos públicos, empresas privadas e organizações não governamentais.
“A profissionalização no campo do conhecimento antropológico tem sido refletida em premiações recebidas de nossas dissertações, como o Prêmio Lélia Gonzalez/ABA e o Prêmio Anpocs/Ufal. Também temos publicações em edições de livros como a recente de Cícero Pereira dos Santos, com o título “Sementes da Resistência: Território e Afirmativas da Identidade Jirinpakó” que é um exemplo da eternização de sua contribuição à Antropologia Indígena em Alagoas, enquanto professor e pesquisador da etnia Jeripankó, falecido repentinamente em 2026”, lembra.
Outros egressos também tiveram suas dissertações publicadas e é possível localizar inúmeros artigos publicados, inclusive em coautoria com docentes do PPGAS. Além desses, o PPGAS destaca o desenvolvimento e consolidação de grupos de pesquisas, vinculados aos Diretórios de Grupos CNPq, que viabilizam articulação dos antropólogos do programa em intercâmbios com outros centros de pesquisa, seja em níveis local, regional, nacional e internacional, como a exemplo de convênios internacionais em andamento com a Ghent University (Bélgica), Ciesas (México), Western University (Canadá).
“Também, nossa Revista Mundaú que, avaliada em Qualis A3, tem sido canal de articulação do PPGAS com acadêmicos nacionais e internacionais em organização de dossiês temáticos. São dados que revelam nosso compromisso e importância do nosso PPGAS em Alagoas”, conclui Silvia.