CULTURA

Secult e Ufal unem tecnologia e memória na digitalização de obras raras da Biblioteca Pública Estadual

Por Daniel Borges / Ascom Secult Publicado em 01/04/2026 às 12:43
Digitalização garante preservação de acervo raro e amplia acesso ao patrimônio histórico alagoano Tatiane Almeida / Ascom Secult

No centro de Maceió, entre paredes que guardam ecos de outras épocas, a Biblioteca Pública Estadual Graciliano Ramos abriga um verdadeiro tesouro. Cerca de 6 mil obras raras que contam, em silêncio, capítulos fundamentais da história de Alagoas, do Brasil e do mundo. Agora, essas vozes antigas começaram a ganhar um novo formato e alcance com a digitalização do acervo, resultado de uma parceria inédita entre a Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (Secult) e a Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

 

A iniciativa conecta passado e futuro para permitir que documentos frágeis, antes acessíveis apenas presencialmente e sob cuidados rigorosos, possam alcançar pesquisadores, estudantes e a sociedade de forma mais ampla, sem comprometer sua integridade física.

 

Esse movimento dialoga diretamente com uma construção que vem sendo feita ao longo dos anos. Em 2014, durante o processo de restauração e modernização da biblioteca, foi identificada a existência de milhares de exemplares com características raras. A partir daí, surgiu a necessidade de organização, estudo e preservação especializada desse material, culminando na estruturação do setor de obras raras.

 

Em 2015, a aprovação da Política de Desenvolvimento de Coleções consolida diretrizes técnicas para a preservação, catalogação e ampliação do acesso ao acervo, alinhando a biblioteca a parâmetros nacionais e internacionais.

 

Os livros raros vão além do conteúdo impresso. São objetos que carregam marcas do tempo, como encadernações artesanais, tipos de papel já inexistentes, rios tipográficos e até anotações feitas à mão. Cada detalhe amplia as possibilidades de leitura e pesquisa, revelando aspectos culturais, científicos e sociais de diferentes períodos históricos.

 

Entre os exemplares mais antigos está a coleção Contos de Diogo de Couto, publicada em 1778, que regista os feitos portugueses no Oriente e se mantém como fonte relevante para os estudiosos da expansão marítima.

 

A digitalização surge, nesse cenário, como um desdobramento natural do trabalho de preservação e valorização desse acervo histórico. Ao transformar páginas delicadas em arquivos digitais, a iniciativa protege os originais e, ao mesmo tempo, democratiza o acesso ao conhecimento.

 

"Estamos diante de um trabalho que conecta gerações. Ao digitalizar essas obras, ampliamos o acesso ao conhecimento e cuidamos de um patrimônio que pertence a todos os alagoanos. É uma ação que dialoga com educação, pesquisa e identidade cultural", disse a secretária de Estado da Cultura e Economia Criativa, Mellina Freitas.

 

“A atuação do governador Paulo Dantas também tem sido fundamental para viabilizar investimentos e articulações institucionais que tornam projetos como estes possíveis, integrando cultura, ciência e tecnologia em benefício da população”, completa o gestor.

 

A supervisora ​​da Biblioteca Pública Estadual Graciliano Ramos, Mira Dantas, também enfatiza a relevância do projeto. "Cada obra rara que temos aqui carrega uma história única. A digitalização permite que essas histórias cheguem mais longe, sem colocar em risco a preservação dos exemplares. É uma forma de garantir que esse acervo continue vivo e acessível", falou.

 

"Neste primeiro momento, nosso foco é voltado para a digitalização das obras de autores alagoanos. São registros que ajudam a contar a nossa própria história, revelando aspectos da cultura, da literatura e da formação do Estado. Garantir que esse material seja preservado e possa ser acessado por mais pessoas é fundamental para manter viva a memória de Alagoas", destaca Mira.

 

Laboratório de Gestão Eletrônica de Documentos

 

A parceria com a Ufal se concretiza por meio do Laboratório de Gestão Eletrônica de Documentos (Laged), lançada em 2024. O espaço foi viabilizado com investimento de R$ 200 mil da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal), em articulação com a Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti). Equipado com tecnologia de ponta, o laboratório atende estudantes de graduação em Biblioteconomia e do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação (PPGCI), além de colaborar com projetos de instituições públicas.

 

Nesse ambiente, onde o saber acadêmico encontra a prática, a digitalização do raro da biblioteca se transforma também no campo de formação profissional e acervo de produção de conhecimento.

 

Para a coordenadora do Laged, professora doutora Rosaline Mota, o laboratório exerce papel central em todo o processo e também na formação acadêmica dos estudantes. “O papel do Laged nesse processo de digitalização é obrigatório, pois sem o Laged a gente não conseguiria fazer um trabalho tão minucioso, tão delicado e de tanta inovação como é esse processo de digitalização das obras raras da Biblioteca Pública Estadual Graciliano Ramos”, disse.

 

“Esse processo de digitalização contribui de forma muito intensa para a preservação, para a conservação dos documentos que são raros e que as pessoas passarão a ter o acesso digital ao invés do acesso físico, porque esse acesso físico envolve o humano, ele envolve retirada, entrega das obras raras e tudo isso, tendo em vista que o material já é bem antigo, faz com que essas obras se deteriorem ainda mais”, falou.

 

“Quando você coloca esse acervo de forma digital, você permite a conservação e a preservação dessas obras, porque as pessoas poderão acessar a partir de uma base de dados digital”, destacou a professora.

 

Rosaline Mota também evidencia o impacto da parceria na formação dos estudantes. "Essa parceria com a Secult com certeza impacta na formação dos estudantes, tanto da graduação em biblioteconomia quanto da pós-graduação em ciência da informação, porque nós desenvolvemos nesse semestre uma atividade curricular de extensão que trata justamente do processo de digitalização dessas obras raras. Os estudantes que estão tendo contato com esse acervo conseguem ter uma formação mais completa, mais robusta e só aptos, no futuro breve, a atuar diretamente em projetos como esses", ressaltou.

Ela destacou o protagonismo da biblioteca e da Secult. "A Biblioteca Pública Estadual Graciliano Ramos está na vanguarda, é pioneira com essa iniciativa. A Secult está de parabéns, porque mostra um movimento político de preservação documental e de uma parcela significativa da história, da produção literária do estado de Alagoas", disse.

 

Para ela, do ponto de vista acadêmico e cultural, ampliar esse acervo significa disponibilizar a toda a população um rico acervo e uma história muito marcante dos autores alagoanos. “Nós temos obras raríssimas, obras que merecem ter o conhecimento do público e que retratam o que é a nossa cultura, a nossa religiosidade, enfim, uma série de aspectos das vivências alagoanas”, falou.

 

"É muito importante, muito importante mesmo, a gente ter uma profissional como a Mira Dantas, bibliotecária, responsável por esse acervo, porque ela também é fruto da graduação e da pós-graduação em Biblioteconomia e Ciência da Informação. A gente consegue observar que nós formamos esses profissionais e o mercado de trabalho absorveu aqueles que têm destaque relevante, que é o caso da Mira", a doutora.