ABRIU O BICO

JHC exalta a si mesmo, minimiza grupos e dá sinal temerário para disputa ao governo; veja vídeo

Discurso em Riacho Doce misturou obra pública, autoelogio e recados políticos, ampliando a leitura de que o prefeito já atua em clima de pré-campanha com forte dose de confiança excessiva

Publicado em 20/03/2026 às 08:12
JHC em discurso minimiza grupos políticos; soberba ou mancada?

MACEIÓ — O prefeito de Maceió, JHC, transformou a inauguração de uma praça e do Parque Linear em Riacho Doce em um palanque político de alta voltagem. Em vez de apenas celebrar a obra, fez um discurso recheado de recados ao sistema político alagoano, exaltando a própria trajetória, defendendo sua independência e afirmando que nunca foi refém de grupos para vencer eleições.
A fala, porém, teve efeito ambíguo. Se por um lado tentou projetar força, por outro acendeu entre observadores e adversários a leitura de que o prefeito caminha para 2026 embalado por um sentimento de autossuficiência perigosa, quase como se pudesse disputar o Governo do Estado sem depender de alianças amplas, musculatura partidária e composição política robusta — algo que, em Alagoas, costuma ser visto como temerário.

Independente ou soberbo?


Ao afirmar que “não é refém de nenhum grupo político”, JHC procurou vender a imagem de líder livre, senhor do próprio destino, capaz de construir alianças sem se submeter a ninguém.
“Não pode ter salto alto, humildade, trabalho sério, independência, porque nós não somos reféns de nenhum grupo político”, declarou.
A contradição saltou aos olhos: ao mesmo tempo em que pregou humildade, o discurso carregou forte tom de autoexaltação e de superioridade moral em relação à política tradicional. Nos bastidores, a leitura predominante foi de que JHC falou menos como gestor e mais como alguém já convencido de que pode entrar numa disputa estadual apenas com o capital político que acumulou em Maceió.
E é justamente aí que mora o risco.
Uma eleição para o Governo de Alagoas não se vence apenas com performance em redes sociais, recorde de votos na capital ou discurso de independência. Exige alianças, interiorização, estrutura, capacidade de convivência com forças divergentes e, sobretudo, compreensão de que ninguém chega sozinho ao Palácio República dos Palmares.

“Contra tudo e contra todos”


Em outro trecho, JHC reforçou a própria mitologia política, repetindo a ideia de que sempre venceu “contra tudo e contra todos”, que o povo foi sua força e que o establishment político jamais acreditou nele.
A narrativa serve bem ao marketing: constrói a imagem do outsider que derrota as velhas estruturas. Mas, na prática, também revela um político que parece cada vez mais convencido de que sua trajetória é suficiente para desafiar qualquer arranjo estadual.
Ao dizer que a política deve ser feita para as pessoas e não para grupos, JHC tenta marcar posição. O problema é que, numa eleição majoritária estadual, desprezar grupos ou minimizar sua relevância pode soar menos como virtude e mais como arrogância estratégica.

Recados duros e superioridade moral


JHC também subiu o tom ao dizer que não lidera projetos por coação, ameaça ou constrangimento, e que não aceitaria chegar ao poder por expedientes não republicanos.
“Imagine você liderar um projeto porque coagiu alguém, porque enganou a Justiça, porque ameaçou alguém”, afirmou.
A fala foi vista como tentativa de se colocar acima da média moral da política alagoana, como se ele próprio ocupasse um lugar de pureza ética e seus adversários representassem o oposto. Em vez de ampliar pontes, o discurso tende a aprofundar resistências, especialmente entre lideranças que podem até dialogar com seu projeto, mas não aceitam ser tratadas como expressão de uma velha política inferior.

Pré-campanha cada vez menos disfarçada


Ainda que não tenha anunciado candidatura, o discurso teve todos os ingredientes de uma fala pré-eleitoral: retrospectiva pessoal, exaltação de obras, ataques indiretos a adversários, defesa de método próprio de governar e afagos públicos ao vice-prefeito Rodrigo Cunha, que herdará a Prefeitura caso JHC se desincompatibilize no próximo 4 de abril para disputar o Governo de Alagoas.
Ao elogiar Rodrigo e dizer que ele está “prefeitando junto”, JHC também sinaliza preocupação com a transição. Afinal, se sair, precisará deixar a capital funcionando, politicamente protegida e sob comando de um aliado confiável.

Maceió não é Alagoas


É exatamente nesse ponto que o discurso encontra seu limite político mais evidente. JHC é fortíssimo em Maceió, mas uma candidatura ao governo exige muito mais do que popularidade na capital. Exige capilaridade no interior, diálogo com prefeitos, deputados, lideranças regionais, setores econômicos e grupos políticos que historicamente influenciam o resultado das eleições em Alagoas.
Ao insistir na imagem de quem não depende de ninguém, JHC corre o risco de transmitir uma autoconfiança excessiva - ou, para os críticos, uma soberba incompatível com a complexidade de uma eleição estadual.
No fim das contas, o prefeito quis demonstrar força. Demonstrou, sim. Mas também deixou no ar uma impressão delicada: a de que pode estar confundindo liderança com autossuficiência e independência com isolamento.
Em política, sobretudo numa disputa para governador, isso costuma cobrar preço alto.