Agreste alagoano avança na digitalização de pequenos negócios e amplia vendas on-line
Com cerca de 18 mil empresas e 50 mil empregos ligados ao comércio, Arapiraca (AL) amplia presença no mercado eletrônico com apoio da ABDI e do MDIC
A cerca de 130 quilômetros de Maceió, Arapiraca (AL) começou a migrar parte do seu comércio para o ambiente digital. Polo econômico do agreste alagoano, com cerca de 18 mil empresas e impacto na geração de aproximadamente 50 mil empregos, o município avança na inserção de pequenos negócios no comércio eletrônico com apoio da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
O movimento ocorre por meio da rede Agreste Digital, projeto contemplado pelo edital E-commerce.BR, que destinou R$ 380 mil para apoiar a transformação digital de empresas da região. A iniciativa oferece acesso gratuito ao sistema SeverinoPro, que ajuda as empresas com ferramentas como gestão de estoque, finanças, emissão de notas fiscais e até uma vitrine de produtos para vendas on-line.
A rede atende cerca de 70 empresas na região, muitas ainda baseadas em controles informais, que já iniciaram a transição do modelo tradicional para uma atuação mais estruturada no ambiente digital. A meta é elevar em 30% a maturidade digital, aumentar em 20% a produtividade e ampliar em até 25% as vendas on-line em setores como moda, alimentos e bebidas, cosméticos, construção, saúde e serviços. Premiada na categoria Comunicação e Integração Digital, a solução é resultado de uma articulação que reúne a startup PolarSoft, a Prefeitura de Viçosa, o Instituto Federal de Alagoas (IFAL) e a Universidade Estadual de Alagoas (Uneal), com foco no fortalecimento do ecossistema local e na ampliação do acesso ao mercado.
Nesta semana, equipes técnicas da ABDI e do MDIC estiveram em Arapiraca para acompanhar de perto os resultados do projeto. A agenda incluiu visitas às empresas atendidas e reuniões com a rede local, com foco na avaliação dos impactos da digitalização nos pequenos negócios.
Do papel e caneta para sistemas integrados
Empresa de pizzas congeladas em Arapiraca organizou a casa e já vende mais graças à entrada no comércio eletrônico |
Os primeiros resultados já aparecem, sobretudo na organização da gestão. Sócia da Edugus Pizzas, Aparecida Brandão relata que a empresa saiu de controles informais para uma rotina estruturada de acompanhamento de estoque e vendas. “Antes, não tínhamos organização. Era mais no caderninho e no que a gente lembrava de cabeça, de forma até precária. Agora estamos mais organizados, com informações de estoque, acompanhamento das vendas e projeção do que precisamos”, diz.
Segundo ela, a mudança já impacta o funcionamento do negócio. “As vendas só estão acontecendo por causa desse empurrão”, afirma. “A plataforma nos entrega o que precisamos para trabalhar. Não dá mais pra voltar ao que era antes, com a clientela e demanda que temos hoje. Vamos permanecer no digital e agregar mais demandas. Estou muito feliz com os resultados. Existe nossa empresa antes e depois desse projeto”, conta.
Para Antonio Taffuri, analista de Produtividade e Inovação da ABDI que acompanhou as visitas, a iniciativa contribui para a profissionalização dos pequenos negócios e já apresenta efeitos nos resultados. Segundo ele, em poucos meses, parte das empresas passou a registrar aumento no tíquete médio e a ampliar o alcance junto aos clientes.
“A solução é amigável, de fácil uso, tem pronta resposta e suporte técnico. Nós tivemos a oportunidade de verificar a importância desse empurrão da ABDI e do MDIC para o mercado digital, com algo que vai fortalecer a gestão das empresas como um todo. Em poucos meses, algumas atendidas já perceberam o aumento do tíquete médio das vendas. O cliente de longe tem uma perspectiva muito melhor sem sair de casa dos serviços oferecidos”, afirma.
Com três unidades em Arapiraca (AL), a SamFarma aumentou em 20% nas vendas online graças ao projeto |
O caráter estratégico da iniciativa também é destacado pelo MDIC. Rodrigo Lobato, analista de comércio exterior da pasta, acredita que Arapiraca reúne condições para expansão do comércio digital. “O projeto é estratégico, e importante, porque está localizado numa região, que é porta de entrada com municípios do agreste alagoano, com economia pujante, com muitas empresas que geram empregos. Esse projeto consolida e cria uma ponte para aquele pequeno e microempresário acelerar sua presença no comércio digital. A solução agrega e impacta nos resultados, porque cria um ecossistema que dá consistência para a iniciativa”, afirma.
Resultados na ponta
Entre as empresas atendidas, os ganhos também aparecem na relação com o cliente e no desempenho das vendas. Com três unidades em Arapiraca, a SamFarma registrou crescimento de 20% após aderir ao projeto. Proprietária da empresa, Sandyane Melo atribui o resultado à digitalização dos processos e à ampliação da presença on-line.
“Antes, a gente tinha um contato muito precário com o cliente pelo WhatsApp, com envio de preços manualmente, o que demandava tempo. Hoje eu consigo levar os produtos da farmácia até o cliente, porque temos cerca de 4 mil produtos online. Além de conseguir aumentar o meu tíquete médio e passar uma experiência melhor para eles”, diz.
Na indústria, os resultados seguem na mesma direção. A DG Premol, empresa de pré-moldados, registrou aumento de 25% nas vendas após a implantação do sistema, ampliando o alcance da empresa e a entrada em novos mercados. Denis Glauco, proprietário do negócio, atribui o avanço à organização e à digitalização dos processos. “Estamos sendo auxiliados por um projeto que tem ajudado a nos desenvolver melhor, com coisas que não tínhamos, como dados para trabalhar e ter um controle maior. Agora conseguimos vender pela internet, com um catálogo de apresentação para os clientes. Com tudo organizado, conseguimos adentrar mercados que antes não era possível, porque temos tudo digital, formalizado, sem amadorismo. Muitos clientes precisam disso para fechar uma venda”, relata.
Mudança de cultura
Mais do que adotar novas ferramentas, a digitalização das empresas do agreste exige uma mudança de cultura. No início do projeto, esse foi um dos principais desafios.
O instrutor da rede, Luis Felipe Lopes, lembra que muitas empresas ainda operavam de forma totalmente analógica. “A maioria estava na era do caderninho em pleno 2026, com controles informais e pouca cultura de dados. Quando chegamos, começamos a criar essa rotina de digitalização, mostrando na prática os benefícios de entrar nesse novo mercado”, afirma.
Com o avanço das ações, segundo ele, o principal ganho tem sido a maturidade digital dos negócios locais. “Hoje os empresários já entendem que esse é um caminho sem volta”, resume.
Para o diretor tecnológico da rede Agreste Digital, Rafael Bruno, o edital foi decisivo para acelerar o desenvolvimento da solução criada pelo grupo. “O edital permitiu um salto importante no nosso produto, fortalecendo o ecossistema e trazendo melhorias para as empresas da região. Com o SeverinoPro, elas organizam a gestão e passam a vender mais e melhor”, afirma.
A iniciativa também envolve instituições de ensino, entidades de apoio e o poder público local, ampliando o alcance do projeto no território.
Na avaliação de Francisco Bahia, assessor técnico da Prefeitura de Viçosa (AL), o impacto já começa a ser percebido. “O próprio nome Severino é arretado, porque é nosso e representa o agreste. Isso cria identificação com os empresários, que passaram a olhar a solução com mais empatia. É algo que chegou para ficar”, diz.
Para Fran Fontes, agente local de inovação do Sebrae, o projeto também evidencia a diversidade econômica de Arapiraca. “O município tem um comércio muito forte, além de grande desenvolvimento nas áreas de serviços, indústria e universidades. O ecossistema também cresce em tecnologia, agro e saúde”, afirma.
Segundo o Sebrae, mais de 90% das empresas do município são micro e pequenos negócios, muitos ainda com baixo nível de digitalização, um cenário que reforça a importância de iniciativas como o Agreste Digital para ampliar a presença do comércio local no ambiente on-line.
No Instituto Federal de Alagoas, a iniciativa é vista como uma oportunidade de aproximar a formação acadêmica das demandas do mercado. “Essas ações ajudam a alinhar a formação às necessidades do setor produtivo. Todos ganham”, afirma o diretor-geral da instituição, Augusto César.
Edital E-commerce.BR
O edital destina R$ 4,92 milhões para fomentar as vendas on-line e prevê impactar mais de mil empresas fora do eixo Sul-Sudeste até o fim de 2026. Na fase piloto, nove projetos receberam R$ 380 mil cada, e três avançarão para a etapa de escala, com aporte adicional de R$ 500 mil.
No Nordeste, quatro iniciativas foram selecionadas na primeira fase, contemplando projetos no Piauí, Bahia, Alagoas e Paraíba. A região é a única com projetos nas três categorias da chamada pública.
O comércio eletrônico movimentou R$ 225 bilhões no Brasil em 2024, crescimento de 14,6% em relação ao ano anterior, segundo o MDIC. Apesar da expansão, a concentração regional ainda é elevada: o Sudeste responde por 77,2% das vendas on-line, enquanto o Nordeste representa 5,5%.