Do DNOCS às estradas afundadas: Fantástico aponta emendas de Arthur Lira em dois escândalos alagoanos
População convive com prejuízos enquanto órgãos federais e a PF apuram possíveis irregularidades
Uma reportagem exibida neste domingo pelo Fantástico, da Rede Globo, lançou luz sobre um esquema nacional de irregularidades envolvendo o uso de emendas parlamentares — e colocou Alagoas como um dos principais palcos das denúncias. Dois municípios alagoanos foram citados de forma direta: Rio Largo e Estrela de Alagoas. Em ambos os casos, obras financiadas com recursos públicos aparecem marcadas por abandono, falhas estruturais e suspeitas de corrupção.
Todas as emendas citadas nas reportagens têm como origem o deputado Arthur Lira, que passou a figurar sob o crivo da suspeita a partir das apurações jornalísticas e das investigações em curso.
Rio Largo: milhões em emendas, problemas antigos
Em Rio Largo, município vizinho a Maceió, a investigação revelou um contraste gritante entre os valores recebidos e a realidade enfrentada pela população. Nos últimos seis anos, a cidade recebeu quase R$ 100 milhões em emendas parlamentares, grande parte oriunda do chamado “orçamento secreto”. Ainda assim, os moradores convivem com moradias precárias, falta de saneamento básico e obras inacabadas.
O setor da saúde é um exemplo emblemático. Somente o Fundo Municipal de Saúde recebeu cerca de R$ 64 milhões em emendas, mas, mesmo assim, unidades básicas permaneceram fechadas por quase um mês na virada do ano, segundo a reportagem.
Um dos casos destacados foi o da Estrada das Canas. Um vídeo publicado em dezembro de 2024 pelo então prefeito Gilberto Gonçalves, o GG, mostrava a pavimentação da via, realizada com R$ 6 milhões provenientes de emenda parlamentar de Arthur Lira, liberada em 2021. Apesar de a obra ter sido executada, o asfalto afundou em vários trechos, levantando dúvidas sobre a qualidade do serviço.
De acordo com o deputado, os problemas estariam relacionados à falta de remoção de postes de energia e ao atraso na desapropriação de uma área privada. Ele afirmou ainda que a prefeitura teria mais de R$ 4 milhões reservados para a conclusão dos serviços.
O histórico político do município agrava o quadro. Gilberto Gonçalves foi preso em 2022 durante a Operação Beco da Pecúnia, que investigou desvios em contratos da prefeitura. À época, o Fantástico mostrou que propinas eram distribuídas em um beco próximo à sede do poder municipal. Mesmo assim, GG reassumiu o cargo pouco tempo depois e concluiu o mandato.
Estrela de Alagoas: promessa de asfalto virou poeira
Em Estrela de Alagoas, o cenário é de abandono total. O DNOCS anunciou a pavimentação de duas estradas rurais, com investimento de R$ 25 milhões. O resultado, porém, ficou muito aquém do prometido: em uma das vias, apenas a terraplanagem foi feita; na outra, o asfalto cobriu apenas um pequeno trecho.
As obras foram paralisadas logo após as eleições de 2024 e nunca mais retomadas. Há cerca de seis meses, todo o maquinário desapareceu. A população passou a conviver com poeira excessiva, problemas respiratórios e prejuízos econômicos. Pequenos comerciantes da zona rural, como donos de bares e mercearias, relatam queda drástica no movimento desde a interrupção da obra.
À época, o então gestor municipal Aldo Lira chegou a agradecer publicamente a Arthur Lira pela iniciativa. Procurado pela reportagem, o deputado afirmou que a responsabilidade pela execução das obras é do DNOCS.
Empresa investigada e esquema bilionário
As duas obras em Estrela de Alagoas foram executadas pela empreiteira Construmaster, que posteriormente mudou o nome para Vieira Infraestrutura. A equipe do Fantástico tentou contato com a empresa em Arapiraca, mas não obteve resposta em nenhum dos endereços vinculados a ela.
A situação se agrava porque a construtora é alvo da Operação Fake Road (Estrada Falsa), conduzida pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União. A investigação aponta fraudes, superfaturamento, desvios e serviços mal executados em obras nos estados do Ceará e do Rio Grande do Norte, com prejuízo estimado em R$ 18 milhões.
Segundo a reportagem, o esquema investigado movimentou cerca de R$ 1,4 bilhão em quatro anos, evidenciando a dimensão nacional do problema.
Caixa-preta das emendas
Com os casos de Rio Largo e Estrela de Alagoas, Alagoas entrou definitivamente no radar das investigações que buscam “abrir a caixa-preta” do orçamento secreto. Órgãos como o DNOCS e a Codevasf também estão sob análise, enquanto a Polícia Federal aprofunda apurações sobre contratos, empresas e agentes públicos envolvidos.
Para a população dos municípios afetados, o saldo é amargo: promessas de desenvolvimento que não se concretizaram, estradas inacabadas, serviços públicos precários e a sensação de que milhões de reais em recursos públicos desapareceram pelo caminho. O escândalo agora pressiona autoridades a explicar não apenas quem indicou as emendas, mas como e por que obras tão caras resultaram em abandono, poeira e asfalto afundado.