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Ter filho\as, não ter filho\as

Por Léo Rosa de Andrade

“Por influência da sociedade em que vivemos, as metas e exigências que determinamos para nós mesmos se sobrepõem e podem ser opressoras, a ponto de ameaçarem o nosso bem-estar emocional: trazem exaustão, perda de individualidade, sofrimento emocional com sintomas como ansiedade e pânico, com possibilidade de evoluir para transtornos psicológicos. ‘Ao longo da vida, várias vozes reforçam mensagens de cobrança social. Chega um momento em que você não precisa mais escutar isso, pois você já internalizou a mensagem’, diz o psicólogo Alexandre Coimbra Amaral.

Além das pressões sociais por desempenho, as pessoas enfrentam cobranças baseadas em papéis sociais. Alguns dos mais emblemáticos recaem sobre as mulheres. ‘Elas ocuparam novas posições na sociedade, mas com isso acumularam funções. As pressões para se casar e ter filhos continuam, mas também é preciso ser bem-sucedida, ter vida social, lazer, ter um corpo padrão’, observa a psicanalista Manuela Xavier.

Quando uma mulher entra em sofrimento emocional por conta das pressões, o problema não é individual, na visão da psicanalista: ‘Existe uma estrutura social machista que leva as mulheres a sentirem que estão falhando. Mesmo a mulher consciente dessa realidade acaba por sentir culpa. Mesmo que seja a CEO da empresa, na festa de fim de ano vão falar sobre a aparência dela, perguntar dos filhos. Se for mulher, sucesso profissional não basta’.

Mãe de duas crianças, a publicitária Ana Carla Germinare, de 42 anos, se desdobrava para atender às expectativas para ser uma “mãe perfeita”. Abriu mão do seu trabalho para se dedicar integralmente aos filhos, mas as pressões sociais só aumentaram. E se as mães sofrem pressão social, autocobrança e culpa, a situação não é mais fácil para as mulheres que decidem não ter filhos (ou não podem tê-los). ‘Algumas podem se sentir inadequadas, incapazes, por não corresponderem ao que imaginam que se espera delas’, diz Helena Montagnini, psicóloga da clínica Huntington Medicina Reprodutiva. Ela atende mulheres que buscam ajuda médica para ter filhos. ‘Seja por problemas de infertilidade ou por ausência de um par amoroso, elas sentem a pressão social por ainda não terem tido filhos’.

Com a proximidade das festas de fim de ano, há quem se incomode com as pressões familiares que se intensificam na ocasião. A comparação entre primos, feita no Natal, sempre foi um martírio para a artista visual Aline Piccolo, de 30 anos. ‘Eram cobranças para escolher uma carreira sólida, ter namorado, me casar e ter filhos. Tudo o que fosse diferente do tradicional não era bem-aceito’” (Kátia Arima, Estadão, 04dez21, editado).

Censura às divergentes, amparo ao padrão: “Sobre o mundo paralelo das mães – Eu tinha uma vizinha portuguesa em Lisboa chamada D. Teresa. Ela era sempre educada e gentil, mas sem dar muita abertura pra qualquer intimidade. Até o dia que comentei que estava grávida. Tudo mudou. Ela comemorou como se fossemos grandes amigas. Comprou roupinhas, me deu flores, mimos e cuidados. Notei essa mudança de comportamento em outras pessoas também. Algumas amigas que já eram mães se aproximaram e, apesar de não eu perceber essa exclusão antes, notei que minha relação se estreitou com o grupinho das amigas também mães: agora sim eu era uma integrante de verdade! Até na minha empresa virar mãe me ajudou. Afinal, divulgar o trabalho de uma mulher é bacaninha, mas se for uma mãe empreendedora vale mais pontos, né?

Por mais que eu adore me sentir acolhida e amparada, a questão é que me sinto um pouco incomodada. Afinal, todo esse carinho é mesmo direcionado à mim, Nathalia, ou a essa identidade nova que magicamente me atribuíram ao parir? Meu valor mudou porque passei a atender o que se espera de uma mulher: procriar? O que acontece com as mulheres que não podem ou não querem ter filhos? Passam a vida meio que excluídas desse mundinho romantizado?

As mães merecem todo apoio, direitos e políticas públicas. Mas não me soa bem essa cultura de enaltecer quem vira mãe, como se agora sim estamos cumprindo nosso script de ser mulher direitinho. Quantas mulheres não viram mães buscando, enfim, esse reconhecimento idealizado (mesmo que inconscientemente)? Pra mim é só mais uma forma de reforçar a maternidade compulsória tão arraigada na nossa sociedade e invisibilizar ainda mais a mulher que continua existindo ali, atrás do conto de fadas da maternidade. Devemos nos sentir completas, valorizadas e inseridas independente desse papel de mãe que querem nos ver exercer. Mães e não mães: faz sentido pra você?” (Plataforma GENI, publicado por Lúcia Sotero em Feminino\Facebook, editado).

É um sentido dado, muitas vezes subjetivado e vivido sem a devida reflexão. Mas há quem se compenetre da questão e decida com autonomia e lucidez: “Hoje é dia das crianças e não há crianças em casa. Eu não tive filhos. E, acredite em mim, a vida sem filhos não é uma vida vazia. Até pensei em engravidar quando a idade soou o alerta agora ou nunca! Algumas tentativas fracassadas me fizeram, no entanto, compreender que eu estava inventando uma frustração que não existia antes.

Eu não fui uma adolescente que sempre sonhou com uma casa repleta de filhos. No início da fase adulta também não pensei muito sobre o assunto. Diziam: uma hora o desejo chega! Não chegou. No entanto, o contexto de uma relação estável e o prazo final estabelecido pela natureza me fizeram tentar. Quando desisti da história foi com sensação de alívio. Minha cabeça não estava convencida: será que quero mesmo ser mãe ou estou sendo levada a cumprir o papel social esperado de uma mulher?

Hoje penso que talvez meu corpo tenha entendido esse conflito antes da minha consciência. Tenho uma vida perfeitamente feliz sem filhos. Não estou aqui defendendo que mulheres não tenham filhos se assim desejarem. Estou aqui mostrando que o fato de não ser mãe não faz de mim uma mulher incompleta nem uma pessoa triste. Ao contrário. Ter tido a possibilidade de viver minhas escolhas me realiza porque elas combinam com quem eu sempre quis ser.

Falo pouco sobre esse tema porque pouco sou questionada sobre ele, mas sei que ainda há muitas mulheres vivendo as mesmas dúvidas que já tive e é para elas que me dirijo aqui. Questione-se mais de uma vez. Fui mãe de inúmeros projetos, ajudei a maternar muitas pessoas e nunca olhei para trás com arrependimento. Então, qualquer que seja sua escolha, que seja sua! – e que você nunca se permita ser julgada pelos caminhos que decidiu trilhar ainda que eles desafiem o senso comum” (Não ser mãe não faz de mim uma mulher incompleta, afirma Ana Paula Padrão, osegredo, 19out21, editado).

“Evi usa suas redes sociais para falar abertamente sobre seu estilo de vida, enaltecendo o movimento que muitos chamam de childfree. Durante muito tempo, a maternidade foi uma exigência para a existência feminina. Nascer mulher era resumir a vida a casar e ter filhos. Contudo, conforme o tempo passou, o movimento daquelas que desejam outras coisas além de uma rotina doméstica emergiu. Elas passaram a buscar e exigir trabalho remunerado, direito ao voto etc., e batem de frente com a violência que insiste em assombrá-las, deixando em segundo plano a maternidade e a vida de ‘conto de fadas’ ensinada na infância.

O nascimento de movimentos adjacentes ao de mulheres acabou se tornando inevitável, como, por exemplo o childfree, grupo de pessoas que reivindicam o direito de não ter filhos. O movimento surgiu no início da década de 1970, nos Estados Unidos, com a fundação do grupo National Organization for Non-Parents, que acreditava que ter filhos é algo sério, devendo ser encarado como uma escolha, não como obrigação. Essa organização era mais voltada às mulheres que se sentiam extremamente pressionadas à vida a dois, ao matrimônio e à gestação, reivindicando por liberdade em suas decisões.

Casada, Evi defende que o estilo de vida que leva, além de ser mais sustentável para o planeta, também garante uma qualidade maior. Ela tem sido alvo de críticas dentro e fora das redes sociais. De acordo com a reportagem do The Sun, a jovem afirmou que não tem filhos por escolha própria, com isso, acaba tendo a pegada de carbono reduzida, renda dupla e menos preocupações. Seu posicionamento costuma incomodar muitas pessoas, que fazem questão de comentar em suas publicações, normalmente expondo os motivos para ter filhos.

Com o intuito de mostrar o lado bom da ausência das crianças na vida adulta, Evi recebe, em grande parte, críticas de quem acredita no oposto. Muitos usuários afirmam que gostariam de ver os filhos no leito de morte, ou que uma vida sem descendentes é o mesmo que perder a existência. A jovem não se incomoda com os questionamentos e, inclusive, usa as inúmeras respostas como base para a produção de outros vídeos.

A outra parte dos seguidores defende que Evi tem o direito de escolher o que pode e o que deve fazer com o próprio corpo, e que ter filhos não deveria ser uma imposição em pleno século XXI. Comparando suas falas com as de homens, algumas mulheres explicam que, se a jovem fosse do sexo oposto, não enfrentaria tanta recusa quanto costuma ver” (Criticada por não querer ter filhos, jovem explica: ‘Prefiro dormir até tarde’, Agatha Rodriguez, osegredo, 12nov21, editado).

Penso que a decisão sobre ter ou não ter filho\as é personalíssima e deve ser conversada entre o\as envolvido\as, porém, em última instância, dado que a consequência do decidido será carga da mulher, dela deve ser a decisão. Edito “Exaustas e desempregadas: as mães após um ano de pandemia” (Alice de Souza, Lunetas, 09mar21) – “Mulheres deixaram seus empregos para cuidar da casa e dos filhos, gerando um retrocesso de 30 anos na participação feminina no mercado de trabalho brasileiro.

Antes do parto da segunda filha, a editora de projetos Jessica Marzo tomou a decisão de deixar seu trabalho durante o primeiro ano de vida da menina e ser mãe em tempo integral até o começo de 2020. Pronta para voltar à profissão, pandemia. Passados os 365 dias dos primeiros casos de Covid-19 no Brasil, Jessica está cansada, irritada, frustrada e desempregada. Ela não é a única. A pandemia obrigou sete milhões de mulheres, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), a sair do mercado de trabalho ainda em março de 2020.

Estar sem um trabalho formal, além de comprometer a renda familiar, não significou descanso. Se antes da pandemia as mulheres já dedicavam 78% a mais de tempo às tarefas de cuidado do que os homens, nesse ano que passou a mudança na dinâmica dos lares, o isolamento domiciliar e a exclusão dos postos de trabalho amplificaram essa situação. Ainda em 2020, a pesquisa ‘Sem Parar – o trabalho e a vida das mulheres na pandemia’, realizada pela Gênero e Número e a Semprevida Organização Feminista (SOF), prenunciou a sobrecarga de responsabilidade delas.

Metade das mulheres brasileiras passou a cuidar de alguém. ‘A gente já vivia em uma sociedade que, ao privatizar a responsabilidade do cuidado às mulheres, principalmente no interior de suas casas, não dá conta do cuidado de todas as pessoas. A pandemia escancarou isso’, explica a socióloga e integrante da SOF Tica Moreno. Uma pesquisa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) mostrou que, entre as pessoas que se consideram responsáveis pelas tarefas domésticas na pandemia, as mulheres foram as que mais assumiram a limpeza da casa, as refeições e o acompanhamento escolar dos filhos.

Isso escancara outra nuance: a pandemia potencializou a vulnerabilidade das mulheres mães. Um estudo da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) mostrou que quase 84% das mães sentiram maior sobrecarga em cuidar dos filhos durante a pandemia. Entre aquelas responsáveis por crianças, idosos ou pessoas com deficiência, três em cada quatro afirmaram que aumentou a necessidade de monitoramento e companhia para um terceiro, segundo a SOF. Elas passaram a ficar sempre atentas.

A ideia da jornada tripla que já recai sobre elas – cuidar da casa, dos filhos e do trabalho – se transformou em uma jornada contínua na pandemia, um trabalho que só cessa durante o sono (ou nem isso) e não é remunerado, como mostra o relatório da consultoria Meiacincodez. ‘Já havia dados anteriores a este momento mostrando que as mães fazem parte da população mais vulnerável e que mais fica desempregada em qualquer crise sanitária’, explica Thais Fabris, consultora especializada em comunicação com mulheres da Meiacincodez.

‘Quando começou a pandemia, achei que seria uma ótima oportunidade para me conectar comigo mesma, com minha família, a vida, o planeta’. O desabafo de Jessica em uma rede social, no dia 31 de dezembro de 2020, era quase um pedido de socorro, depois de estar em casa, ao longo dos 10 meses anteriores, com as filhas de 2 e 5 anos, sem poder voltar a trabalhar. O marido faz home office o dia todo. As crianças passaram a maior parte do ano sem ir para a escola. As avós não podiam ser visitadas. ‘Não consegui voltar a trabalhar, pois tenho que cuidar das minhas filhas’.

Jessica faz parte dos 36% de mães que deixaram de procurar emprego durante a pandemia, segundo pesquisa do CineMaterna e da Noz Pesquisa e Inteligência. Nesse tempo, precisou aprender a conciliar a educação de duas crianças em diferentes idades de aprendizado e crescimento. O desafio de ficar em casa, acumulando a maior parte das tarefas domésticas e do cuidado com as meninas, além do cansaço, trouxe a frustração. ‘Eu já havia passado do limite de exaustão. Agora, meu marido bloqueia dois horários na agenda dele para ficar com as meninas e eu ter tempo só para mim’.

Para algumas mulheres, a insegurança financeira chegou com o desemprego. Mãe de gêmeos, Carolina Soares estava desempregada desde a época da gravidez, em 2019. Fazia alguns bicos e, como morava com a avó, tinha garantia de comida na mesa. Mas, desde novembro, ela vive só com as crianças e precisa de ajuda financeira do pai para sobreviver e alimentar os filhos. ‘Estou me virando com tudo o que posso, vou começar a vender brigadeiro nas ruas para ter algum dinheiro’, conta.

A sobrecarga gerou ansiedade, um sintoma relatado por 26,76% das mães entrevistadas pela UFMS. De acordo com a pesquisa da SOF e da Gênero e Número, a maioria das mulheres afirma que a pandemia colocou a sustentação da casa em risco. No caso das mães, somente 10% das entrevistadas pela Noz e o CineMaterna não tiveram alteração na vida profissional, enquanto 28% delas perderam até 75% da renda familiar.

As perdas são ainda maiores entre as mulheres negras, que somam 58% das desempregadas, segundo a pesquisa da SOF. ‘As mulheres negras já ocupam os postos mais precarizados, informais e sem direitos’, lembra Tica. De acordo com um estudo do ID BR, 43% das mulheres negras arcam com as despesas dos filhos sozinhas, o que gera medo inclusive pela insegurança alimentar das crianças, tornando a pandemia ainda mais estressante.

‘Algumas mulheres de classes A e B conseguiram não dispensar a babá ou empregada doméstica, enquanto para as de classe C e D isso é impossível: ao tempo em que umas deixaram de comprar delivery e roupa, outras deixaram de comprar comida’, comenta Thais Fabris.

A artesã Mariane Batista está inserida na cadeia do trabalho autônomo. Mulher negra e ativista, mãe solo de três filhos, ela tinha como única rede de apoio a mãe, uma técnica de enfermagem. Com a chegada da pandemia, precisou se isolar com os filhos, de 4, 9 e 10 anos. Foi difícil: ‘Por muitas vezes, me vi cansadíssima e com medo por não saber como as coisas vão ficar. A incerteza faz com que a exaustão seja mais mental do que física’, desabafa.

Para Tica, qualquer mudança nessa realidade depende de repensar a privatização do cuidado: ‘A pandemia escancarou a crise do cuidado. Pelo discurso econômico usado neste momento, ignora-se novamente esta questão, fingindo que isso não faz parte do debate. É um mecanismo de permanente invisibilização dessas mães’, conclui”.

Resumo que adoto com acréscimo: Metade das mulheres brasileiras passou a cuidar de alguém na pandemia. A soma de responsabilidades, além da falta de amparo social, levou muitas delas ao desemprego. Quem conseguiu manter a vida profissional, por outro lado, está exausta e com medo. E um monte de alguéns, ainda por cima, se acha no direito de improperar as mulheres que se desobrigam do “sagrado destino” de parir. Eu, heim!?

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