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Claudinha, a cuidadora do Clima Bom

Por Carlito Peixoto Lima

Antônio ficou radiante ao conseguir emprego na transportadora de valores. Passado o período de capacitação, deram-lhe fardamento, iniciou seu trabalho com atenção e medo de assaltantes. Ao retornar em seu bairro, fardado, sentia-se o próprio coronel de Polícia, até brigas e pendengas entre moradores ele era consultado. Comprou uma moto barata de segunda mão assumindo o débito no banco, para onde escorria metade de seu salário. Numa festa conheceu Claudia, menina, 17 anos, se apaixonou, namorou, engravidou e casou-se. Foram morar numa casa de porta e janela do pai da noiva, no Clima Bom. Tonho não deixou Claudinha trabalhar para cuidar do filho. Pedro.

Passaram-se seis anos, o casal sobrevivendo, até que Antônio deu para beber, vivia reclamando da vida, comportamento estranho, deixou de procurar a esposa na cama, ela que gostava tanto da vadiagem. Nessa época Claudinha havia arranjado um emprego de doméstica na casa de um ricaço na orla. Limpava, passava e cozinhava, a patroa descobriu-a como excelente cozinheira. Melhorou a situação econômica. Pedro estudando, entretanto, a cachaça e o distanciamento do marido entristecia a bela Cláudia. Certa tarde ela apanhou o filho mais cedo na escola, estava febril, ao chegar à sua casa teve o maior choque de sua vida, ficou atônita ao abrir a porta do quarto, e deparar-se com Tonho abraçado a um motoboy conhecido no bairro. A maior decepção, humilhação e traição que uma mulher pode ter. No mesmo dia exigiu a saída do marido de casa, chorou a noite toda. Levantou-se de madrugada, olhou-se no espelho, prometeu a ela mesma, recuperar sua vida, tinha o amor de Pedro para lhe dar força.

Com um ano de separação a dor amenizou. Cláudia, bonita, era assediada por muitos homens, preferiu, embora gostasse tanto da vadiagem, fechar-se, não queria namorado por enquanto. Até o patrão mostrava tinha uma quebra de asas pela bela empregada, ela fingia não entender as insinuações.

No dia que Seu Silvestre, o patrão, completou 67 anos, ele teve um derrame, um AVC, foi uma catástrofe na casa de Dona Graça. Ela e os dois filhos deram a assistência devida no hospital. Ao voltar para casa, o velho precisou de uma enfermeira para ajudar no banho, no vestir-se, no comer. O empresário falava com dificuldades, mas dava para entender. Cismou com as enfermeiras, toda semana trocava de assistente. Certo dia na falta da enfermeira, Claudinha ajudou Seu Silvestre a tomar o banho, enxugou-o, vestiu-o. O velho ficou surpreso com a delicadeza, a suavidade de gestos da empregada, gostou daquele cuidado, disse que Cláudia havia nascido para cuidar de idoso. A partir daquele momento chamava pela empregada durante o dia, inclusive no banho de sol em cadeira de roda, só queria a jovem cozinheira. Claudinha dava conta da cozinha, da casa e do patrão, ficou cansativo. Inclusive, em suas folgas de sábado à tarde e domingo, nas crises de raiva de Seu Silvestre, Dona Graça a chamava com urgências. Ela o acalmava. O velho só aceitava a assistência da cuidadora improvisada. Quando Claudinha se recusou a trabalhar nas folgas foi um Deus no acuda. A senhora entendeu que seu marido, não só gostava do jeito de Cláudia, ele estava encantado, talvez apaixonado pela jovem.  Seu Silvestre entrou em um acordo com a empregada: propôs lhe dar um carro, pagar a escola de Pedro e aumentar o salário quatro vezes, desde que ela lhe desse total dedicação. Claudinha não abriu mão de sua folga nos domingos e assim ficou acertado.

Em véspera de completar os 70 anos, Silvestre havia melhorado sua mobilidade com ajuda da fisioterapia. Ele conforma-se com sua situação de semiparalítico, tem em casa uma grande mulher, Dona Graça, que o ajuda muito, e uma cuidadora eficiente, suave; cuja delicadeza minimiza o sofrimento.

Pelo menos duas vezes na semana Dona Graça passa a tarde em compras no Shopping, é a tarde do banho de banheira demorado. Seu Silvestre se sente feliz imerso na água morna, trancado no banheiro com Claudinha, a eficiente cuidadora do Clima Bom.

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