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Dois tesouros, dois amores, dois olhares

Por Dartagnan Zanela

Um traço comum a nós, seres humaninhos, que hoje vivemos nesse mundo desvairado, é a pressa pela prévia dos próximos capítulos dessa nossa vida porcamente vivida.

Quando éramos guris, ficávamos ansiosos pela chegada da maturidade que, para nós, quando estávamos em tenra idade, o crescer e tornar-se maior de idade, de certa forma simbolizava uma espécie de libertação. Pois é, eu sei: coisas de criança.

Já crescidos, e imersos no mundo do trabalho, com todas as obrigações que são características desse espectro da vida humana, olhamos sempre para diante, ansiosos feito moleque em véspera de Natal, para que o fim de semana chegue, para que o ano termine e, é claro, para que as férias cheguem logo e  que ela nos embale em seu aconchego. E isso, também, tem um certo hálito infantil.

Passados alguns anos de nossas lides, soturnas e febris, para ganhar o pão nosso de cada dia, passamos a ansiar para que possamos nos aposentar o quanto antes porque, em nosso sorumbático entender, aí sim, poderemos enfim viver de verdade.

Pois é. Em todos esses momentos aguardados, vislumbramos algum tipo de libertação quando, na verdade, estamos apenas nos deixando embalar por uma nova miragem que acaba sempre trazendo consigo as mesmas velhas desilusões de antanho.

E não há, sejamos francos, debaixo do firmamento, nada que nos acorrente tão bem, aos nossos impulsos vãos, que torne nossa vida mais insossa de sentido e insípida de propósito, que ficarmos ansiando pela chegada do amanhã sem procurarmos viver o momento presente com a intensidade e com a presença de espírito que ele nos pede.

Ora, quando rezamos a oração da Ave Maria, é importante que lembremos que sempre pedimos para a Virgem Mãe Santíssima que rogue por nós, míseros pecadores, em dois momentos em particular. Na hora de nossa morte e agora. Esses são os momentos que deveriam estar sempre diante de nossos olhos. Sempre. O agora e a hora da nossa morte.

O agora, apontado na prece, precisa ser iluminado de sentido para que não nos esqueçamos que não fomos feitos para o próximo capítulo dessa obra que é nossa vida mal vivida.

E, agora, nesse momento, quando meditamos sobre a morte, sobre nosso derradeiro fim nesse vale de lágrimas, lembramos que o sentido de nossa vida está para além das páginas do livro dessa vida aqui vivida, como nos ensina Santo Afonso de Ligório.

Aliás, haverá um agora que, um dia, será a hora da nossa morte.

Mas não é sobre isso que refletimos, que matutamos todo santo dia. Nada disso. Nosso coração seboso acaba sendo sempre tomado por outras preocupações, de natureza tremendamente secundária que, por leviandade nossa, acabam ganhando uma dimensão muito maior do que realmente têm, chegando, em muitos casos, a ter quase que uma feição [supostamente] metafísica, por assim dizer.

É, cara pálida, ponderamos, diuturnamente, sobre a urgência do fim de nossas lides diárias, a respeito da necessidade da chegada do fim de semana e da premência de outras coisas similares, mas não refletimos sobre a brevidade da vida e a respeito da hora em que ela irá findar.

E assim seguimos com nossas vidas como se o tesouro de nossa existência estivesse escondido, cioso para ser descortinado, nas honrarias deste mundo, nos bens dessas terras dominadas por ignóbeis e inomináveis donatários e, é claro, nos prazeres que nos alegram por míseros instantes. Ora, não é à toa que vivemos perambulando feito tolos. Não mesmo.

Sim, no frigir dos ovos somos todos tolos de marca maior que, no fundo, sabem muito bem onde está o verdadeiro tesouro da alma humana, mas que, não sei por que cargas d’água, preferimos não enxergar. E seguimos em frente, sem prumo, rumo ao abismo, nos recusando a abrir nossos olhos para ver o tesouro que não queremos receber.

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